Nesta semana, o mercado foi pego de surpresa com a renúncia do presidente-executivo da Heineken, Dolf van den Brink. O CEO da gigante holandesa decidiu sair do cargo após seis anos e tomou a decisão em um momento turbulento para praticamente todas as companhias que vendem cerveja a nível global.

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Nos últimos anos, a Heineken e seus pares têm sofrido com um ambiente pós-pandemia que reúne inflação de insumos e mudanças substanciais nos hábitos de consumo.

Em linhas gerais, o mundo simplesmente tem bebido menos cerveja.

A Geração Z bebe cerca de 20% a menos do que os millenials, segundo dados da consultoria MindMiners e da IWSR., na esteira de hábitos mais saudáveis, uma rotina atrelada a um ciclo circadiano ajustado e práticas que tem injetado dinheiro em outra indústria, a de wellness.

Dados do Departamento Federal de Estatística da Alemanha (Destatis) mostram que o país – amplamente conhecido como uma nação cervejeira -, comercializou cerca de 6,8 bilhões de litros de cerveja no ano de 2024, o menor volume desde 1993, quando a legislação tributária do setor foi reformulada.

Nem mesmo a Eurocopa 2024, sediada no país, foi capaz de reverter a queda no consumo interno.

A China é o maior mercado do mundo, respondendo por cerca de 21% da demanda global – ou seja, ao menos uma a cada cinco cervejas é bebida no território do dragão asiático.

Por lá, o envelhecimento populacional (especialmente o público acima de 60 anos) e a desaceleração econômica foram catalisadores negativos para o ramo – dado que idosos tendem a beber menos por questões de saúde e metabolismo.

Assim, o consumo de cerveja na China encolheu 3,7% em 2024 e cerca de 2% no ano de 2025, segundo relatórios de mercado da Kirin Holdings e Mordor Intelligence.

Entretanto, a indústria tem desenhado algumas soluções para contornar a queda nos volumes, que vem aumentando de forma substancial e constante.

A ‘premiunização’ da cerveja

Um dos movimentos do mercado foi vender cerveja premium – afinal, cerveja melhor tende a ser mais cara. Assim, ainda que os volumes de venda caiam, o mix de produtos com valor mais elevado pode compensar esse efeito, fazendo com que as linhas finais do balanço financeiro melhorem.

Foi justamente o que ocorreu com a Heineken.

O balanço financeiro da empresa referente ao primeiro semestre de 2025 mostra um lucro líquido de 774 milhões de euros, revertendo o prejuízo do ano anterior.

Embora o volume global de vendas tenha recuado, a receita orgânica cresceu 2,1%, provando que o aumento de preços e o foco em marcas premium (mais caras) sustentaram o resultado financeiro.

Resultado da Heineken do primeiro semestre de 2025 mostrou aumento da receita e do lucro a despeito de recuo no volume de cerveja que foi vendido

O release de resultados em questão tem um trecho com o nome ‘Impulsionando a premiumização em escala, movimento liderado pela Heineken’. Na seção, a companhia destaca que o volume de cervejas premium cresceu 1,8%, acima do desempenho agregado do portfólio e que, considerando a contribuição das marcas licenciadas, o volume de cervejas premium avançou 4,3%.

“O avanço foi disseminado, com 27 mercados apresentando crescimento de dois dígitos, com destaque para Vietnã, China e Nigéria. A Heineken Silver teve crescimento de volume na casa dos trinta por cento, liderado por Vietnã e China”, consta do documento.

O movimento, então, compensou a queda de 1,2% no volume comercializado, que recuou para 11,64 bilhões de litros de cerveja no primeiro semestre de 2025.

Ou seja, foram 140 milhões de litros a menos – um total de 424 milhões de long neck’s a menos sendo destapadas em todo o mundo.

O fenômeno do zero álcool

Além das cervejas mais premium, o mercado também colocou o pé no acelerador com a cerveja zero álcool – o que fez os volumes produzidos e comercializados saltarem dois ou até três dígitos percentuais em algumas geografias em um curto espaço de tempo, de até uma década.

Na terra da Oktoberfest, dados da Federação de Cervejeiros da Alemanha e da Destatis mostram que a produção de cerveja sem álcool dobrou em dez anos, superando 700 marcas diferentes disponíveis em 2024.

Atualmente, ela já representa cerca de 8,3% do volume total – em outras palavras, 1 a cada 12 litros de toda a cerveja produzida em solo alemão tem teor alcoólico de até 0,5%.

A expectativa da indústria de que esse número chegue a 20% no futuro.

A Global Market Insights avaliou o mercado global de cerveja sem álcool exatamente em US$ 24 bilhões em 2025, e projeta que esse segmento chegará a US$ 50,8 bilhões até 2035, fruto de uma Taxa de Crescimento Anual Composta (CAGR) de 7,8%.

Cerveja sem álcool cresceu no Brasil em 2024, enquanto cerveja tradicional apresentou recuo na casa dos 4% – MAPA/Reprodução

No Brasil, o Anuário da Cerveja 2025 do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) mostra que em 2024 foi registrado um crescimento histórico de 536,9% na produção de cerveja sem álcool, saltando de 118,9 milhões de litros em 2023 para 757,4 milhões de litros em 2024.

Enquanto a produção da categoria “zero” disparou, o volume da cerveja comum (alcoólica) recuou, consolidando o Brasil como o 2º maior consumidor global de cerveja sem álcool, atrás apenas da Alemanha.