02/04/2003 - 7:00
Cena 1: centenas de muçulmanos fazem fila na embaixada do Iraque, em Alger, capital da Argélia. Tentam se alistar para lutar ao lado das tropas de Saddam Hussein. Cena 2: mais de 200 mil pessoas protestam no Cairo, capital do Egito, contra o ataque dos Estados Unidos ao Iraque. Pedem a cabeça do ditador Hosni Mubarak, tradicional aliado do Ocidente, e são duramente reprimidos pela polícia. Cena 3: no dia em que o Paquistão disputaria a final da Copa do Mundo de críquete, o principal esporte local, as ruas da capital Islamabad não estão em festa. São tomadas por manifestantes dispostos a depredar lojas do McDonald?s e representações diplomáticas dos EUA e do Reino Unido. Cena 4: a Frente de Defesa do Islã recruta jovens indonésios para lutarem contra os Estados Unidos. Cena 5: o governo da Jordânia atende à recomendação americana e expulsa diplomatas iraquianos. O povo vai às ruas e obriga o governo de Amã a recuar ? os diplomatas voltam um dia depois.
Tudo isso aconteceu na última semana. Foi como se uma tempestade de ódio aos Estados Unidos tivesse varrido o mundo árabe e muçulmano, desde a África do Norte até o Leste Asiático, tendo como epicentro da revolta os países do Oriente Médio. ?George W. Bush abriu as portas do inferno?, definiu o secretário-geral da Liga Árabe, Amir Moussa. Para tentar encontrar uma posição comum, os países que compõem a Liga reuniram-se no Cairo, na segunda-feira 24. Numa declaração conjunta, exigiram a retirada imediata das tropas americanas e britânicas. E o sentimento local foi resumido pelo egípcio Mustafa al-Feqi, que preside a comissão de relações exteriores do parlamento do Egito: ?Se essa guerra continuar, as ruas dos países árabes vão entrar em erupção?, disse. ?Não será possível controlar a revolta.?
Há muitos anos não se via no Oriente Médio uma distância tão grande entre o sentimento das ruas e a posição de alguns regimes políticos, como as ditaduras do Egito, da Jordânia e da Arábia Saudita, que são simpáticas ao Ocidente. Hoje, tanto Mubarak, no Egito, como as famílias reais jordaniana e saudita, estão sendo fortemente pressionadas a mudar de atitude em relação aos Estados Unidos. ?Na prática, Bush fez um grande favor à causa do fundamentalismo islâmico?, define Demétrio Magnoli, especialista em relações internacionais e em Oriente Médio. Sua tese é que, mesmo que conquiste o Iraque, instalando um protetorado americano na região, Bush poderá perder vários de seus atuais aliados. O caso mais grave seria o da Arabia Saudita, um país que hoje produz 7,5 milhões de barris de petróleo por dia ? quatro vezes mais do que o Iraque ? e regula os preços no mercado internacional. ?A monarquia está perdendo legitimidade e o sistema saudita pode se desintegrar?, aponta Magnoli. Há um outro risco. Aos poucos, os corações e mentes da família real, que tem mais de 25 mil membros, vêm sendo tomados pela ideologia dos wahabitas, um grupo fundamentalista que nasceu no Egito, sob o manto da Irmandade Muçulmana, instalou-se na Arábia Saudita e hoje ajuda a financiar redes terroristas como a Al Qaeda, de Osama Bin Laden.
Velhos inimigos. Além dos novos focos de instabilidade, os Estados Unidos podem ter que lidar com antigos inimigos. No Irã, onde o antiamericanismo tem raízes profundas, os aiatolás reforçaram seu poder depois dos ataques recentes a Bagdá. As propostas de abertura política e modernização feitas pelo presidente Mohamad Khatami, que divide o poder com os líderes religiosos, tendem a ser congeladas. O que se vê em todo o mundo árabe é um desenlace bem diferente daquele previsto por Bush, por seus falcões e pelo secretário de Estado, Colin Powell, antes da guerra. Powell chegou a dizer que a ocupação do Iraque iria disseminar ventos democráticos na região. Pelo menos até agora, só se espalhou ódio e vontade de vingança. Os árabes parecem prontos para uma nova ?jihad?.