O índice cheio da inflação ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos, que ficou em 0,4% em agosto, embora em linha com as expectativas do mercado, revela sinais de aquecimento nos preços de alguns serviços e no núcleo do indicador. Essa leitura deve fortalecer a parcela mais “hawkish” do comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed), elevando a probabilidade de um aumento das taxas de juros na próxima reunião do banco central americano.

O que aconteceu

  • Inflação nos EUA: O CPI cheio de agosto nos EUA ficou em 0,4%, mas sinais de aquecimento no núcleo e em serviços, como hospedagens, foram observados.
  • Fed: Economistas avaliam que os dados reforçam a ala mais “hawkish” do Fed, aumentando a expectativa de uma alta de juros já na próxima semana.
  • Cenário econômico: A desinflação recente parece ter encontrado obstáculos, e o Federal Reserve deve manter os juros elevados por mais tempo.

Andressa Durão, economista do ASA, destaca em sua análise que o núcleo do CPI mostrou alta de 0,3%, acima do esperado pelo consenso do mercado. A surpresa foi impulsionada pelos Serviços, enquanto o núcleo de bens ficou praticamente em linha com o esperado pela maioria.

“Dentro dos Serviços, a surpresa altista foi puxada principalmente pela categoria de hospedagens. Passagens aéreas também vieram um pouco acima, enquanto Serviços médicos e Aluguéis vieram mais baixos e compensaram parte da surpresa altista do setor. Do lado dos bens, houve surpresa altista em veículos novos e usados, mas foi compensada por outros itens”, comenta Durão.

Ela cita ainda que o mesmo ocorreu na comparação da média trimestral anualizada da inflação cheia com a medida trimestral do núcleo, que voltou a acelerar, de 1,6% para 2,0%.

Por conta disso, as casas de análise estão estimando uma variação de Core PCE (o indicador de preços de consumo que o Fed observa com mais atenção) mais próxima a 0,3% do que 0,2% para agosto.

O que impulsiona o aquecimento da inflação?

“Para a política monetária, os números sustentam uma alta de juros e o dado de agosto deve dar força para Kevin Warsh puxar o voto de membros indecisos na decisão da semana que vem. Esperamos duas altas consecutivas de 25bps”, afirma a economista do ASA.

André Valério, economista sênior do Inter, por sua vez, observa que a alta do núcleo (que exclui os itens de alimentação e energia) foi puxada por uma aceleração na inflação de veículos e também de habitação, que, após dois meses de inflação fraca, avançou para 0,3%.

“A desinflação recente, observada após a normalização dos preços do petróleo em meio ao memorando de entendimento entre EUA e Irã, parece ter encontrado obstáculos. Com o memorando abandonado, temos visto os preços do petróleo acima de US$ 100, pressionando a leitura de energia nesse CPI, que acelerou para 2,1%”, explica Valério.

Avaliando a postura do Fed

Valério argumenta que, com o núcleo acima do patamar confortável para o Fed, a probabilidade de uma alta em setembro aumenta consideravelmente. “Warsh havia indicado em Jackson Hole que caso o PPI e o CPI viessem mais “quentes” ele apoiaria um aumento nos juros em setembro”, lembra.

O economista também destaca que Christopher Waller, um dos principais diretores do Fed, afirmou que estaria confortável em manter os juros inalterados em setembro caso o núcleo da inflação viesse abaixo de 0,3%. “Tanto o CPI quanto o PPI divulgados essa semana vieram contrários às condições impostas pelos dois para uma manutenção dos juros agora em setembro”, argumenta.

Nessas condições, e com um comitê já dividido — três membros votaram para aumentar os juros na última reunião —, Valério prevê que o comitê vai formar maioria para juros maiores já em setembro, com uma alta de 0,25 pontos-base na semana que vem.

Mas o economista do Inter prevê um ciclo curto, com o Fed devolvendo os 75 pontos-base de cortes dados entre setembro e dezembro do ano passado, que foi vendido ao mercado como uma medida prudencial antes de uma possível desaceleração do mercado de trabalho, que não se concretizou. “Podemos ver alguma discussão acerca da velocidade desse ajuste, mas esperamos uma abordagem gradualista, com três altas de 25bps até o fim do ano.”

Na visão de Vitor Kayo, economista sênior na Nomad, o resultado, em linha com o esperado no índice cheio, mas acima do consenso no núcleo, reforça que o processo de desinflação nos Estados Unidos segue lento e ainda distante da meta de 2%.

Quais as consequências para o mercado global e o Brasil?

“A leitura chega em um momento sensível, já que o mercado vinha elevando as apostas em uma alta de juros pelo Fed na reunião de 15 e 16 de setembro, depois de o payroll de agosto surpreender com a criação de 162 mil vagas, muito acima do esperado, e o núcleo acima do consenso tende a reforçar ainda mais essa precificação”, afirma Kayo.

Leonardo Mendes, consultor financeiro da Manchester Investimentos, afirma que os dados de hoje apontam que o petróleo vem mostrando uma transmissibilidade maior para o núcleo da inflação americana. “Esse é hoje um dos principais pontos de preocupação do Federal Reserve, porque indica que o choque de energia começa a contaminar preços mais persistentes da economia”, alerta Mendes.

Para Mendes, a leitura reforça a necessidade de cautela por parte do Fed e reduz o espaço para uma flexibilização monetária mais rápida, mantendo os juros americanos elevados por mais tempo. “Para o mercado, isso tende a pressionar os Treasuries, sustentar o dólar e aumentar a volatilidade dos ativos de risco. No Brasil, esse ambiente também importa: juros americanos mais altos e dólar mais forte podem pressionar o câmbio e as expectativas de inflação, dificultando um ciclo mais acelerado de cortes da Selic”, diz.

A análise do Itaú é que o resultado do CPI em agosto reforça um cenário mais hawkish (contracionista) para o Fed, em linha com um aumento de juros na próxima reunião.

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