14/12/2025 - 7:00
Após um 2024 de inflação acima do teto da meta, 2025 se encaminha para que o Índice de Preços ao Consumidor-Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, feche abaixo do teto da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 4,5% – representando 1,5 ponto percentual (p.p.) acima do centro da meta, de 3%.
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Na leitura referente ao mês de novembro, divulgada na última semana, o IPCA avançou 0,18%, ficando abaixo das projeções e representando a menor variação para um mês de novembro em sete anos. O índice acumula alta de 3,92% no ano e 4,46% em 12 meses.
O cenário subverte drasticamente o início do ano de 2025, quando a esmagadora maioria do mercado estimava uma inflação entre 5% ou 6%, ou até mesmo acima disso. Agora, o consenso, refletido no mais recente Boletim Focus, projeta 4,40% de IPCA para este ano e 4,16% para o próximo ano.
Se confirmadas as projeções para o IPCA de 2025, será o menor patamar de inflação dos últimos seis anos.
IPCA (%) nos 5 anos anteriores

Fernando Gonçalves, gerente de Índices de Preços no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), calcula que IPCA precisa ter uma alta de até 0,56% em dezembro para encerrar o ano de 2025 dentro do teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo Banco Central.
Para encerrar o ano no centro da meta de 3,0%, o IPCA de dezembro tem que ser de queda de 0,89%, acrescentou Gonçalves. “Qualquer valor entre esse -0,89% e +0,56% fica entre o centro e o teto da meta”, explicou.
Segundo ele, a inflação de dezembro, por ora, não tem grandes pressões já à vista. Por outro lado, a energia elétrica pode diminuir, uma vez que a bandeira tarifária passará de vermelha patamar 1 em novembro para amarela em dezembro. “Então tem redução de valor”, lembrou.
Além disso, o ônibus urbano pode ter alguma variação para baixo, caso seja concedida gratuidade por conta de Natal ou Ano Novo em alguma localidade, acrescentou. “Belo Horizonte passou a ter gratuidade aos domingos em ônibus urbano”, completou.
Desde 2010, IPCA fechou acima do teto da meta por quatro vezes
- 2010: Dentro da meta (IPCA de 5,91%, teto da meta de 6,50%)
- 2011: Dentro da meta (IPCA de 6,50%, teto da meta de 6,50%)
- 2012: Dentro da meta (IPCA de 5,84%, teto da meta de 6,50%)
- 2013: Dentro da meta (IPCA de 5,91%, teto da meta de 6,50%)
- 2014: Dentro da meta (IPCA de 6,41%, teto da meta de 6,50%)
- 2015: Acima do teto (IPCA de 10,67%, teto da meta de 6,50%)
- 2016: Dentro da meta (IPCA de 6,29%, teto da meta de 6,50%)
- 2017: Abaixo do piso (IPCA de 2,95%, teto da meta de 6,00%)
- 2018: Dentro da meta (IPCA de 3,75%, teto da meta de 6,00%)
- 2019: Dentro da meta (IPCA de 4,31%, teto da meta de 5,75%)
- 2020: Dentro da meta (IPCA de 4,52%, teto da meta de 5,50%)
- 2021: Acima do teto (IPCA de 10,06%, teto da meta de 5,25%)
- 2022: Acima do teto (IPCA de 5,79%, teto da meta de 5,00%)
- 2023: Dentro da meta (IPCA de 4,62%, teto da meta de 4,75%)
- 2024: Acima do teto (IPCA de 4,83%, teto da meta de 4,50%)
Contribuições
Assim como o índice abarca uma série de grupos com pesos e dinâmicas diferentes, os fatores que corroboraram para que ele reduzisse são vários – e, dentre eles, alguns se destacam mais.
O panorama favorável na dinâmica do agronegócio foi cabal para que o IPCA tivesse a performance que teve em 2025, considerando o recuo relevante na inflação de alimentos nos últimos preços.
“O que contribuiu mais foi a parte de alimentação, porque anteriormente não prevíamos um cenário tão benéfico, especialmente no início do ano, com projeções na casa de 6%. A safra veio boa e o clima ajudou, além do câmbio”, destaca o coordenador dos índices de preços da FGV Ibre, André Braz.
O especialista ainda frisa que o peso da alimentação no bolso do brasileiro é de 20% do orçamento familiar, fazendo com que o grupo seja mais expressivo na dinâmica de preços doméstica.
Alexandre Maluf, economista da XP, também destaca as ‘surpresas baixistas’ no grupo de alimentação, fruto de um clima favorável.
“O clima tem sido ameno até em dezembro, no Brasil inteiro choveu direitinho. O clima é muito favorável para o agro, com safras recordes, e a leitura de novembro deve seguir com deflação no grupo de alimentação”, observa.
O especialista projeta 4,3% de IPCA para este ano e 4,2% para ano que vem, com viés de baixa para a segunda projeção, apesar do ano eleitoral.
‘Trabalho do BC foi fundamental para inflação desacelerar’
Vindo de meses com uma postura hawkish, ou mais dura, mantendo juros em patamares elevados nós últimos anos, o Banco Central (BC) colaborou de forma categórica para a desaceleração da inflação, segundo especialistas.
A Selic atual é de 15%, sendo a maior em 19 anos, e os comunicados das últimas reuniões do Copom tem mantido o tom duro e austero, sinalizando a busca não só pela desaceleração dos índices de preços mas também das expectativas do mercado.
Maluf, da XP, observa que esse é um fator, na verdade, bastante relevante: “O BC fez um trabalho duro que surtiu efeito sobre expectativas. As expectativas de preços cumprem papel um fundamental. O componente ‘expectativas’ é um dos mais fundamentais para formação de preço em qualquer economia”.
Braz, da FGV, destaca que o papel do BC foi ‘muito importante’ também por conta do efeito no câmbio.
“Vimos um real que valorizou frente ao dólar, e a atuação do BC também restringiu a demanda em alguns segmentos, como exemplo os bens duráveis, automóveis, eletrodomésticos, que estão com inflação abaixo de 3% em 12 meses, ou seja, abaixo da meta. Quando olhamos o câmbio, vemos que o preço tem muito a ver com o diferencial de juros entre Brasil e EUA.”
Energia elétrica dará ‘empurrãozinho’ no IPCA
Ainda faltam duas leituras para completar o ‘ano cheio’ de 2025, todavia um fator já se mostra deflacionário – a mudança da bandeira tarifária pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
O órgão regulador anunciou que a bandeira tarifária passou da vermelha patamar 1 em novembro para amarela em dezembro. Na prática, isso significa que o consumidor deixa de pagar R$ 4,46 a cada 100 KW/h consumidos e passa a pagar R$ 1,885 a cada 100 KW/h consumidos.
Além disso, a entrada do período chuvoso no país – com previsão de chuvas para dezembro superior às chuvas que ocorreram em novembro – corrobora para uma continuidade na melhora do cenário.
Maluf, da XP, destaca que essa mudança impactará a leitura de dezembro, com uma deflação esperada de 2,6% no item – que sozinho representa 4% do IPCA, o segundo maior depois da gasolina.
Com um cenário de bandeira verde, o item deverá ter ainda uma deflação de 2,8% em janeiro.
Trajetória benigna de bens industriais
Na avaliação do economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, ‘os preços de bens industriais no IPCA vêm apresentando trajetória benigna ao longo do segundo semestre’, especialmente olhando para a deflação dos bens duráveis.
“Em paralelo, o núcleo do IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo) industrial também desacelerou e passou a registrar variações negativas nas últimas divulgações”, observa.
“O repasse do IPA industrial para o IPCA de bens tem ocorrido de forma mais rápida e ligeiramente mais intensa do que o padrão histórico. Esse comportamento, aliado ao enfraquecimento da demanda por bens sensíveis ao crédito e aos estoques elevados na indústria de transformação, sugere que a queda recente dos preços de bens industriais no IPCA é sustentada por fundamentos macroeconômicos e tende a continuar”, completa.
Nesse contexto, a casa projeta uma ‘continuidade da manutenção da inflação dentro do intervalo de tolerância da meta’. A expectativa é de uma variação de 4,2% para o índice cheio em 2026, frente a 4,5% em 2025;
Última leitura do ano pode ser deflacionária
Braz, da FGV, observa que os dados mais recentes, desta primeira semana de dezembro, indicam uma leitura do índice cheio que pode ser inclusive negativa em dezembro.
“Antes do início da coleta de dados de dezembro eu não tinha essa hipótese, mas os dados mostram que o IPCA pode ficar negativo em 0,15%, algo bem atípico já que dezembro é um mês sazonalmente inflacionário.”
O especialista indica que os preços dos alimentos não tem subido e, no campo dos preços monitorados, a mudança de bandeira da Aneel é outro fator positivo.
A sua avaliação é de que 2026 pode ser um ano complicado para ‘sustentar esse cenário positivo’, especialmente por conta do fator fiscal, entretanto a dinâmica de preços segue favorável e não indica estouro da meta em 2026.
Maluf, da XP, endossa a tese.
“O primeiro semestre do ano de 2026 deverá ter uma inflação comportada, chegando próximo inclusive da meta de 3%. A nossa visão é de que em maio de 2026 o índice deve fazer o mínimo com 3,41%. O cenário global ficou desinflacionário com tarifas, os índices de preços ao produtor ainda estão em queda, e a alimentação tem história benigna para muitas coisas que subiram neste ano, como café, cacau e açúcar.”
* Com informações de Estadão Conteúdo
