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Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, é um equilibrista. Na vida empresarial, superou vários desafios, quebrou barreiras e foi o primeiro estrangeiro a presidir um grande banco nos Estados Unidos – o Fleet Boston. No governo, sobreviveu ao fogo amigo e às pressões de diversos setores da sociedade para que tentasse acelerar o ritmo da economia, antes que houvesse condições reais para isso. Meirelles resistiu e o resultado é um dos grandes trunfos do governo Lula. Um país sem inflação, com a menor taxa de juros da história, US$ 210 bilhões em reservas e uma economia que saiu rapidamente da crise internacional e que já pode crescer acima de 4% ao ano – ou até mais. Esse sucesso, naturalmente, permitiu que o presidente do BC acumulasse um razoável capital político. E na quinta-feira 13, quando, pela primeira vez, ele apareceu em eventos públicos ao lado do presidente Lula, a conclusão foi inevitável. Meirelles já havia colocado sua candidatura na rua – algo, na visão de alguns analistas, incompatível com a independência que seu cargo exige. Incomodado com as repercussões, Meirelles concedeu uma entrevista exclusiva à DINHEIRO.

E garantiu: não é candidato ainda, definirá seu futuro somente em março de 2010 e, enquanto estiver no BC, não tomará qualquer medida eleitoreira, que traga apenas benefícios de curto prazo. “Meu trabalho é baseado no resultado”, disse ele. “Os fatos falaram, falam e falarão por si” (leia mais à página 46).
Pré-candidato ou não, Meirelles terá de se equilibrar entre o dia a dia no Banco Central e as percepções daqueles que já o enxergam como político – tanto os críticos, que pedirão sua saída, quanto os aliados, que vislumbram uma legítima possibilidade de poder. Impossível? Muitos acham que não. “O fato só gerou alguma estranheza porque é inédito e não tem jurisprudência”, disse à DINHEIRO o economista Francisco Lopes, ex-presidente do Banco Central. “Meirelles foi um bom presidente do BC, continuará sendo enquanto estiver lá e, se quiser ser candidato, terá uma quarentena.” Outros economistas que passaram pelo BC têm uma visão distinta. É o caso de Affonso Celso Pastore, também ex-presidente. “Se ele tomou a decisão de ser político, perdeu a qualificação de independência política”, diz ele.

Meirelles garante que a decisão final não foi tomada. E que foi a Goiás apenas para atender a um pedido do presidente Lula. Eles pousaram primeiro em Anápolis, cidade natal de Meirelles, e depois em Goiânia. E Lula, que tem interesse de enfraquecer um adversário político, o senador tucano Marconi Perillo, líder nas pesquisas locais, não se conteve. “Se o Meirelles conduzir a economia de Goiás como ele conduziu o Banco Central, Goiás só tem a ganhar”, disse o presidente. Depois do mal-estar, Meirelles tomou uma decisão. Saiu de circulação e não participará de eventos que possam ser interpretados como de natureza política antes de 2010. Na quarta-feira 19, ele embarcou para uma viagem de 15 dias aos Estados Unidos, para encontros com investidores, e voltará apenas para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária, nos dias 1º e 2 de setembro. E, ao que tudo indica, o ciclo de redução da taxa de juros, que trouxe a Selic para 8,75% ao ano, já chegou ao fim.

Meirelles pretende manter o mesmo estilo de gestão desses quase sete anos à frente do BC, com decisões técnicas e colegiadas, mas é provável que no fim de setembro ele receba mais uma saraivada de críticas – até lá, seguindo a lei eleitoral, ele deverá anunciar sua filiação a um partido político. A filiação, no entanto, não o deixará constrangido – nos Estados Unidos, é comum presidentes do Federal Reserve serem ligados aos partidos democrata e republicano. Aqui, Meirelles pretende empurrar sua decisão até março de 2010, saindo para dar lugar ao diretor de normas, Alexandre Tombini, não apenas porque esse é o prazo-limite para desincompatibilização. De fato, ele ainda não se decidiu. Ele poderá disputar uma eleição majoritária em Goiás, mas nada impede que concorra também à Presidência da República. E depois que a senadora Marina Silva e o deputado Ciro Gomes entraram na disputa, rompendo a dinâmica do plebiscito PT-PSDB, as chances aumentaram. Até porque a política econômica de Lula ainda não tem um herdeiro.

“Não coloco em risco meu patrimônio”

Em entrevista à DINHEIRO , Meirelles falou que a estabilidade não está nem será ameaçada

DINHEIRO – Afinal, o sr. já é ou não pré-candidato ao governo de Goiás ou a qualquer outro cargo público?
HENRIQUE MEIRELLESNão sou candidato a nenhum cargo, eletivo ou não, no momento. Meu foco absoluto é trabalhar para o País sair da crise, voltando a crescer e a gerar empregos.

DINHEIRO – Sua participação num evento político já não seria ao menos um sinal da intenção de disputar as eleições?
MEIRELLESParticipei de uma visita oficial do presidente da República, na qualidade de ministro de Estado do governo Lula. Não participei de nenhum evento de cunho essencialmente político-partidário.

DINHEIRO – O sr. avalia que sua eventual ambição política é compatível com a independência que o cargo de presidente do Banco Central exige?
MEIRELLESA dúvida nasce de um equívoco que permeou a análise socioeconômica do Brasil durante décadas. O equívoco é imaginar que inflação alta, resultado de política monetária frouxa, ganha eleições. É um fenômeno cultural que esta visão permaneça mesmo diante dos resultados das eleições ocorridas desde a redemocratização do País. O meu patrimônio foi construído com base numa sólida e longa carreira no setor privado e na independência com que sempre exerci o cargo de presidente do Banco Central. Este patrimônio não será colocado em risco em nenhuma circunstância.

DINHEIRO – Em que momento o sr. pretende tomar a decisão sobre seu futuro profissional?
MEIRELLESMarço de 2010.

DINHEIRO – Durante todos esses anos, o sr. cumpriu as metas de inflação, muitas vezes contrariando pressões políticas. Que garantias a sociedade brasileira pode ter de que esse seu compromisso não será abalado?
MEIRELLES A garantia de quem enfrentou pressões de expressivos setores da sociedade brasileira e manteve-se inabalável na consolidação da estabilidade econômica do Brasil. O meu trabalho é baseado no foco, no resultado. Basta esperar e avaliar a economia em 2010, pois os fatos falaram, falam e falarão por si.