13/03/2002 - 7:00
A indústria de tecnologia está quebrando um velho paradigma. Em São Paulo, Manaus e Ilhéus, empresas nacionais e estrangeiras já produzem os componentes que entram na receita dos PCs. O País dispõe de fábricas de memórias, placas-mães e monitores de alta qualidade. Na próxima semana, a lista ganhará mais um item com o início da produção de discos rígidos na planta da Samsung, na Zona Franca de Manaus. Por hora, só mesmo o microprocessador não tem previsão de desembarcar por aqui. ?Já temos os principais componentes sendo feitos aqui?, diz Marcelo Quintas, analista do International Data Corporation, o IDC. ?Isso gera dinheiro para a Nação, reduz o preço final e estimula o crescimento do mercado.?
As novidades não deixam de ter um caráter heróico. A maior parte do mercado brasileiro de computadores está dispersa por mais de três mil pequenas empresas que adquirem insumos de olho no preço, sem se importar com a procedência deles. É o chamado mercado cinza, que trabalha com componentes e partes contrabandeados em prejuízo dos fabricantes locais. Além disso, a alta carga de impostos, como o ICMS e PIS-Cofins, reduz as margens de lucros. ?A carga tributária e o custo da mão-de-obra são muito altos. Eles são malucos de produzir componentes por aqui?, diz Gabriel Torres, especialista em hardware.
Para contornar os obstáculos, o governo tem apontado para benefícios tributários. Respeitando algumas exigências federais, os fabricantes da Zona Franca de Manaus podem desfrutar de isenções fiscais. No caso específico da Samsung, a Receita Federal ainda reduziu a alíquota de importação de alguns insumos que irão compor o disco rígido. A empresa espera ainda que, com o início da fabricação local, o governo aumente a tarifa de importação de discos rígidos dos atuais 4% para 14%, o que dificultaria a entrada do produto no mercado nacional. Mas, por enquanto, a importação continua vitoriosa na guerra dos preços. Os argumentos para impulsionar as vendas, então, passam para um patamar superior. Os fabricantes locais alegam que a aquisição de produtos importados está muito sujeita às flutuações do dólar, é excessivamente burocrática e demanda um elevado estoque para garantir o ritmo da produção. ?Também conseguimos consertar os produtos mais rápido?, diz Tulio Camargo da Silva, gerente de vendas da FIC, de Barueri, São Paulo. A estratégia ainda não vingou na área de memórias e de placas-mães, mas já foi bem-sucedida com os monitores. Há sete anos, 60% de tudo o que era consumido vinha de fora. Hoje, esse índice está próximo de zero, com a Samsung abocanhando 34% do mercado. ?Vamos usar da nossa experiência com monitores para eliminar o mercado cinza dos discos rígidos?, diz Yong Ho Lee, chamado pela Samsung para cuidar do projeto de nacionalização. ?Se as coisas forem bem por aqui, outras empresas também virão?, diz Carlos de Paiva Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, a Abinee. A imigração empresarial daria alívio à balança comercial brasileira, que registra um déficit anual de US$ 8 bilhões com importação de componentes eletrônicos.