08/02/2026 - 8:30
O investidor institucional brasileiro segue reticente em acompanhar o otimismo dos estrangeiros com a Bolsa, saindo do mercado apesar dos recordes sucessivos do Ibovespa, e deve continuar hesitante nos próximos meses, segundo especialistas ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
O Ibovespa encerrou janeiro com alta de 12,56%, puxado principalmente pelo interesse estrangeiro. Dados preliminares apontam que, dos dias 1 a 29, a entrada de recursos na Bolsa vindos do exterior somou R$ 25,3 bilhões.
O valor praticamente iguala todo o investimento estrangeiro aportado na B3 em 2025, de R$ 25,5 bilhões. Naquele ano, o Ibovespa subiu cerca de 34%, no melhor resultado desde 2016.
Já o investidor institucional retirou R$ 46,6 bilhões da Bolsa em 2025 e, de 1.º a 29 de janeiro, manteve o movimento de saída, com fluxo negativo de R$ 16,7 bilhões.
A rotação global de ativos a partir dos Estados Unidos, que tem beneficiado mercados emergentes como um todo, está na raiz do interesse dos estrangeiros pelo Brasil, elevando os preços dos ativos em curto intervalo.
Para o investidor doméstico, porém, alguns fatores impedem mudança de humor em relação à Bolsa. O principal é a taxa Selic, hoje em 15% ao ano, mas que deve começar a cair em março, conforme sinalização recente do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Como o próprio BC indica, a taxa de juros livre de risco tende a ficar menos atraente, favorecendo a migração de recursos para ações. Vale lembrar que os juros também devem recuar no exterior, impulsionando operações de carry trade (arbitragem entre as taxas externas e a doméstica), com parte desse fluxo direcionada a ativos de renda variável e de outras categorias.
Segundo Bruno Takeo, estrategista da Potenza Capital, a participação do investidor institucional pode melhorar com a queda iminente da Selic, mas sem virada brusca.”Pode começar a tomar mais risco à medida em que os juros forem caindo, mas permanece receoso”, afirma.
A disputa eleitoral à Presidência da República, em outubro, também inspira cautela, diz Takeo. “A eleição deve inibir a tomada de risco por pessoa física. O consenso é de pessimismo com Brasil diante um cenário eleitoral binário. Acho que vai preferir algum sinal de quem vencerá para investir”, estima.
A própria escalada do Ibovespa em janeiro levanta dúvidas sobre a sustentabilidade e a duração do rali das ações listadas na B3.
“Fizemos um estudo e só 12, 13 papéis estão concentrando quase 80% do ganho acumulado pelo Ibovespa”, observa Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos. “É o rali mais triste da história”, acrescenta. “Você tem uma situação em que grande parte das pessoas físicas está na bolsa perdendo dinheiro – e muita gente que deveria estar, não está.”
Ele nota que o estrangeiro prefere ações de grandes empresas, com peso no índice e alta liquidez, como Vale, Petrobras, bancos como o Itaú e algumas do setor elétrico. “É menos o investidor fundamentalista, que busca uma tese, e mais um cara passivo que vem aqui comprar índice”, afirma.
“É menos o investidor fundamentalista, que busca uma tese, e mais um cara passivo que vem aqui comprar índice”, afirma Cima, observando que o investidor doméstico permanece um tanto à parte, inativo, na medida em que a própria explosão de preços em pouco tempo assusta, tornando o investimento em ações num momento de juros ainda altos menos “factível”.
Luis Ferreira, chief investment officer (CIO) do EFG Private Wealth Management, lembra que, em 2025, os estrangeiros responderam por 58,3% do volume negociado na B3, maior fatia desde 2014; os institucionais domésticos ficaram com 25,4% e as pessoas físicas, 12,4%.
“Do lado doméstico, a atuação foi mais contida”, enfatiza. “Em 2025, os fundos de ações registraram resgates líquidos de R$ 54,5 bilhões, indicando que parte relevante dos investidores locais reduziu exposição, e que gestores precisaram vender ações para honrar saques, o que limita a participação dos institucionais na alta”, acrescenta.
Ferreira aponta duas razões para esse comportamento. “A Selic elevada aumentou o custo de oportunidade e reforçou a preferência por renda fixa, que já representava 58,9% dos investimentos de varejo em junho de 2025 (R$ 4,68 trilhões)”, diz.
“A combinação de câmbio pressionado no início de 2025 e de ruído fiscal elevou a demanda por proteção, inclusive com mais diversificação no exterior, o que fez muitos investidores locais entrarem ‘atrasados’ no movimento da Bolsa”, diz Ferreira. “Em síntese, a liquidez aumentou, inclusive com volume médio diário mais alto em janeiro de 2026, mas a tração veio majoritariamente de fora.”
Segundo ele, o investidor doméstico não ficou ausente, mas participou menos: manteve postura defensiva, priorizando renda fixa, enquanto o estrangeiro liderou compras no mercado à vista e, em parte, via derivativos, reforçando a pressão compradora no curto prazo.
André Buscácio, diretor de produtos da AF Invest, afirma que o investidor institucional doméstico continua fora das compras mesmo após ter sido vendedor líquido no segundo semestre de 2025. “Nesse período, o investidor estrangeiro não manteve o ritmo do primeiro semestre e fechou com fluxo negativo, mas encerrando 2025 com mais de R$ 25 bilhões de entrada, tendo sido determinante para a performance do mercado acionário no ano passado”, acrescenta.
Metas atuariais dos fundos de pensão
“Para o institucional local, a Selic em patamar alto ainda é um freio substancial para a tomada de risco”, diz Buscácio. “Fundos de pensão, por exemplo, têm metas atuariais majoritariamente entre IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) + 5,0% e IPCA + 6,0%, enquanto títulos públicos vêm apresentando retorno real de 10,0% no curto prazo, até 7,0% para títulos de maior maturidade”, acrescenta.
“Em paralelo, o mundo está passando por uma mudança estrutural, com o dólar se desvalorizando e induzindo uma movimentação no fluxo de capital que vem beneficiando não só o Brasil, mas os emergentes de forma geral”, reforça Buscácio. “A perspectiva para o mercado segue positiva, com uma menor taxa de juros já precificada na curva, e o ciclo de queda começando em março conforme o comunicado do último Copom”, acrescenta.
O avanço mais recente sobre a Selic tende a motivar remanejamento de alocação entre classes de ativos e pode sustentar fluxo estrangeiro razoável, conclui Buscácio.