Na sala de estar do sobrado, boa parte dos 30 presentes veste bermudas e camisetas. Um deles tem os pés calçados com chinelos Havaianas e, em um dos cantos do recinto, repousa o skate que deve ter trazido outro convidado para a reunião. Apesar da informalidade geral do figurino, a pauta da reunião discorre sobre temas como corrupção, democracia, investimentos em infraestrutura, o Estado de Direito e a solidez das instituições brasileiras.

A cena se repete quinzenalmente nos círculos de leitura do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, em Higienópolis, zona central da capital. É ali que o jornalista Normal Gall, diretor executivo do instituto, conduz um colóquio que leva temas relevantes da vida política brasileira e internacional a um grupo de adolescentes e jovens universitários. A ideia é propor um espaço para reflexão, que possa qualificar esses jovens para o debate e, por que não, uma futura participação nos rumos do País.

Ao longo do ano, pedem-se leituras prévias para os encontros – desde clássicos como “Guerra e Paz” (Tolstói), “Riqueza das Nações” (Adam Smith) e “A Ética Protestante” (Max Weber), até o recente “O Povo Contra a Democracia”,de Cassio De Arantes Leite e Yascha Mounk. No encontro deste sábado, 23, Gall distribuiu aos convivas os “Braudel Papers”, uma espécie de apostila com alguns ensaios de sua autoria, que serviram de ponto de partida para a discussão. Logo de início, uma provocação: por que no Brasil as colônias de cupins, que construíram uma complexa rede de túneis subterrâneos que se estendem por milhares de quilômetros do sul à Amazônia, conseguiram se organizar bem ao longo dos anos, enquanto a sociedade de humanos é incapaz de evoluir politicamente e dar conta de questões essenciais?

No decorrer das leituras, emergem questões paralelas importantes. O papel que a falta de investimentos em infraestrutura exerce na defasagem da atividade econômica. As perdas que a cidade mineira de Brumadinho têm sofrido com o respaldo insuficiente do poder público, e que transcendem a questão meramente financeira. A falta de perspectivas e o descrédito no processo eleitoral, fruto da chamada crise de representatividade. A fusão de pequenos municípios. A Reforma da Previdência.

Os textos vão ganhando novas vozes a cada parágrafo, que é lido por um participante diferente. Alguns têm dificuldades de leitura e se atrapalham com algumas palavras. Com o tempo, vai ficando claro que há dois públicos distintos convivendo ali. De um lado, universitários e jovens de diversas áreas, da Engenharia ao Direito, que veem nos encontros uma oportunidade de desenvolver seu senso crítico e sua bagagem cultural. Junto a eles, há alunos do ensino médio de escolas técnicas, cuja participação nos círculos de leitura é subsidiada. Eles ganham uma bolsa e recebem almoço nas dependências do instituto quando termina o debate.

Em que pesem as disparidades entre os dois grupos, todos os presentes leem os mesmos textos e têm voz ativa para interromper a leitura e fazer colocações. Alguns levantam a mão com dúvidas sobre passagens mais obscuras, mas há quem defenda seus próprios pontos de vista e até discorde dos textos.

Um aluno diz que o conceito de anarquia na estrutura política está mal formulado e que o paralelo com os cupins não ficou claro, outro questiona o título e a estrutura dos tópicos. Um terceiro diz que um dos textos mostrou um olhar mais condescendente com a corrupção no Peru do que com a brasileira. Longe de se incomodar com esses questionamentos, Gall encoraja o debate, colocando seus pontos de vista sem menosprezar os dos estudantes.

A atuação do Supremo Tribunal Federal rende boa discussão. Com a prevalência do entendimento de que o cumprimento da pena de prisão só é cabível após o trânsito em julgado da condenação (e não a partir da decisão de segunda instância), a libertação dos políticos que estavam detidos foi vista pelos alunos como salutar, ainda que contrária ao anseio da sociedade.

“Essa medida está prevista na própria Constituição Federal, então o que está ocorrendo é um fortalecimento das instituições, e não a ruína delas, como muitos defendem”, sustenta um estudante. “O STF está respeitando o texto constitucional e o honrando o Estado de Direito. Não está dando carta branca para a libertação de bandidos ou corruptos”.

Outro aluno completa: “Aliás, o STF não determinou a soltura do ex-presidente Lula, como dizem por aí. Ele apenas decidiu pela liberdade antes da condenação final, o que possibilitou a soltura de Lula e de outros presos, o que é bem diferente. A população está comprando uma narrativa incorreta.”

Uma aluna se declara favorável ao aborto, mas contrária à discussão do assunto pelo STF, “porque essa não é a atribuição dele, ele não é a instância competente. É preciso respeitar as instituições”. Outro vai na mesma linha, lamentando que o tribunal tenha se pronunciado em questões como uniões homoafetivas, o que ele chamou de “ativismo judicial”, alegando que “essas decisões tinham que partir do Poder Legislativo.”

O tema corrupção merece um exame mais detalhado. A partir de diferentes acepções do termo (corrupção como herança colonial, como ato individual de oferecimento de propina, como mecanismos complexos de influência na esfera política), Norman Gall esboçou sua própria definição. “São padrões de comportamento que buscam vantagem ilegítima e ferem normas éticas da sociedade. A corrupção é séria porque quebra a confiança que existe nessa sociedade”. Um aluno completou que há mais em jogo que apenas dinheiro: há também a integridade da classe política e da própria sociedade.

Mais de três horas depois, o colóquio chega ao fim. Para fechar o ciclo, dois alunos tentam responder à primeira indagação proposta: por que no Brasil os cupins foram mais bem sucedidos que os homens? Porque são focados na comunidade e não no individual, respondeu a aluna. O outro participante arremata: “Para o Brasil se fortalecer enquanto comunidade, ele terá de compreender a necessidade de se buscar uma convergência de interesses. Os interesses comuns irão construir bases estáveis.”