02/02/2015 - 8:00
Há 18 anos, o espanhol Paco Ragageles iniciou, ao lado de amigos, na Espanha, um evento no qual eles poderiam fazer o que mais gostavam: debater e inovar na internet.
Essa é a origem da Campus Party, um dos principais eventos de internet do planeta. No começo, eram poucos
participantes, nem todos com acesso a rede. Quase duas décadas depois, cerca de 8 mil brasileiros vão acampar nos 64 mil metros quadrados da oitava edição da Campus Party Brasil, que começa nesta terá-feira 3, no Expo Imigrantes, em São Paulo.
Ragageles, que dedicou sua vida a popularização da rede, conversou com a DINHEIRO e falou sobre temas como inovação, educação, economia colaborativa, empreendedorismo e, claro, tecnologia.
Confira a entrevista:
O que mudou na cultura digital durante esses quase 20 anos de Campus Party?
Paco Ragageles: Muitas coisas. A mais importante foi a universalização do acesso a tecnologia. Antes era coisa de geeks (gíria para aficionado em tecnologia). Agora, todos têm tecnologia em sua vida, com o tablet e smartphones. A tecnologia foi chegando aos diversos mundos. Dentro da Campus, temos até área de astronomia, pois todos os telescópios usam computadores.
Está feliz de ver mais pessoas participando deste mundo que você faz parte há décadas?
Ragageles: Claro. Agora qualquer um pode ser chamado de geek. Antigamente, os nerds eram os estranhos, pois gostavam de tecnologia. Agora, o estranho é quem não é tecnológico.
E como vê a tecnologia mudando o dia a dia das pessoas?
Ragageles: A tecnologia melhora a vida das pessoas. O ponto mais importante é o acesso ao conhecimento que está na rede. Com internet, os internautas chegam ao conteúdo das melhores universidades do mundo. A comunicação foi revolucionada. Muitas guerras aconteceram, pois as pessoas não conheciam quem estava do outro lado. Hoje, os internautas têm mais conhecimento da cultura alheia, aceitam mais.
A Campus Party em uma raiz forte no aprendizado por intermédio da tecnologia. Como viu essa questão evoluindo durante os anos de evento?
Ragageles: Em meados dos anos 1990, o processo de aprendizado era muito engessado. As pessoas que queriam ter conhecimento precisavam ir à escola, depois à universidade. Só aí iriam aplicar o que aprenderam no mercado. Esse caminho profissional também era engessado, não estimulava a inovação. Criar coisas novas era quase impossível. Hoje, jovens e até crianças têm acesso ao conhecimento na internet. Com esse conteúdo, podem criar uma startup com pouco investimento, colocar esse serviço na nuvem e ser visto pelo mundo todo.
Empresas como Uber e Airbnb estão chamando a atenção. Como vê a economia colaborativa?
Ragageles: Obviamente está acontecendo uma mudança no mercado com a economia colaborativa, possibilitada pela tecnologia. Apoio essas ferramentas, mas temos que pensar que é preciso barreiras. Não pagar impostos, não ter seguro. São questões delicadas. Temos que procurar uma maneira de introduzir ferramentas que procuram melhorar o serviço ao publico, mas algumas empresas fazem isso de uma maneira que é maluca, tudo por dinheiro. Precisamos pensar na segurança das pessoas. Estas empresas precisam ser reguladas. Elas são bem-vindas, mas a alternativa precisa ser justa. Um taxista que paga impostos, gasta muito dinheiro em uma licença, não pode estar no mesmo mercado que alguém que tem um carro e não paga nada. A economia colaborativa é muito boa, mas precisa viver de acordo com “as regras da vida”.
Mas como controlar o que acontece na internet?
Ragageles: Uma coisa é controle, outra é regulação. Não se pode controlar a rede, ela deve ser livre. Mas não podemos permitir que qualquer coisa aconteça. Pessoas que usam a internet para ser apócrifas. Isso não pode acontecer. Ninguém sai na rua de máscara fazendo o que bem entende, sem revelar sua identidade. A internet precisa ter o mesmo sistema de garantias que temos na vida. Não pode ser tudo vigiado, mas nem tudo livre. Precisamos proteger as pessoas na internet e, ao mesmo tempo, garantir liberdade.
Você não aprova, então, o que o governo americano teria feito, segundo Edward Snowden (acesso a dados privados dos internautas por agências de segurança)?
Ragageles: O que o foi feito nos Estados Unidos é algo que não tem nome. Um país que fala de liberdade. É preciso fazer uma investigação avançada para combater os crimes e terrorismo, mas não de uma forma onde “tudo vale”.
Outra questão que é sempre debatida é a da neutralidade na rede. Qual sua posição?
Ragageles: As operadoras de telecomunicação estão reclamando que fazem enormes investimentos para criar infraestrutura de rede e empresas como Google, Facebook, Netflix e de streaming de música, por exemplo, aproveitam destes investimentos para seus negócios, sem pagar nada. Como já disse, as leis da internet devem se basear nas leis da vida. Alguém que passa o dia com sua torneira aberta paga uma conta de água mais cara do que quem economiza. Acho algo tão óbvio. Não entendo todo esse debate sobre o assunto, para te falar a verdade.
Você citou o Netflix e empresas de streaming de músicas. Como vê a pirataria na rede?
Ragageles: Acho que está diminuindo. A pirataria na internet nasceu por uma demanda das pessoas de acesso a um conteúdo que elas não tinham. Filmes que demoravam para chegar a elas, séries que passavam apenas em outros países. Agora, serviços pagos entregam esses conteúdos. Pouco a pouco, o número de pessoas que vai para pirataria está diminuindo. Mas esses serviços precisam ser mais baratos.
Como todos esses temas da internet se refletem na Campus Party?
Ragageles: A Campus está tão gigante que são diversos eventos acontecendo dentro de um. Não existe outro lugar no mundo onde você encontra tantas pessoas com talento tendo um debate intelectual. É algo que só quem participa conhece. O que as pessoas assistem na tevê, leem nos jornais, não se compara com quem está lá dentro vive.
A feira está dando mais espaço para o empreendedorismo. Como foi essa evolução?
Ragageles: Nos últimos anos, estamos impulsionando o empreendedorismo. Queremos ajudar os campuseiros a transformar suas ideias em negócios. Nossos parceiros são muito importantes para isto. Muitas pessoas tem a ideia, mas não tem o recurso, ou alguém que ajude a tornar realidade. Conheço casos de pessoas que tiveram uma ideia de negócio, mas não sabiam como programar. Foram até a campus e encontraram uma equipe de programadores. Muitas pessoas se conhecem lá e criam empresas depois. A semana da campus turbina ideias.
O que destaca no evento deste ano?
Ragageles: Nesta edição vamos conseguir estender o evento. Criamos uma ferramenta online para guardar dados e projetos. Será a nossa plataforma de comunidade, espécie de rede social para campuseiros. As pessoas vão conseguir se relacionar, encontrar programadores, mentores, divulgar empregos.
Quando vê o resultado deste seu trabalho que começou lá atrás, como se sente?
Ragageles: Uma felicidade gigantesca. Conseguir que tantas pessoas possam ter uma semana que nunca vão esquecer, que vai mudar a vida delas. Eu sou uma pessoa muito afortunada por poder criar isso.
