Na toada de um aumento de competitividade no segmento de fintechs com conta internacional, o CEO da Revolut no Brasil, Glauber Mota, diz que há players que oferecem um Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) zero a priori, mas com outras taxas para compensar a medida, como um aumento do spread de câmbio para patamares até 6%.

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No início deste mês de março a Revolut decidiu ofertar a isenção de IOF e também oferecer taxa zero – medida que foi calcada no arcabouço financeiro da empresa, que tem presença em mais de 40 geografias e valor de mercado de US$ 75 bilhões, semelhante ao Nubank.

“Tem muita gente que fala de isenção de IOF por aí. O que o cliente tem que estar atento é que às vezes isso vem junto com um spread de câmbio maior do que antes para um compensar aquele IOF. Às vezes usam-se meios alternativos para fazer esse câmbio, como por exemplo os stablecoins. E agora recentemente tivemos uma mudança de de legislação, vai cobrar IOF também disso. Então, talvez vai ficar um pouco mais difícil para esses participantes de mercado competir”, diz o CEO da Revolut no Brasil, em participação no Dinheiro Entrevista.

A gestão quer ‘atacar dos dois lados’ e destaca que é uma estratégia pensada não somente para o Brasil.

 

“A Revolut é uma empresa só no mundo inteiro. Claro que tem times locais dedicadsos, especialistas para cada mercado, mas as decisões são comuns. Então, em geral, não basta eu convencer o time Brasil de que a gente deveria fazer uma coisa como essa. Eu tenho que garantir que isso é replicável em vários lugares do mundo”, diz Glauber Mota.

O uso de stablecoins pode deixar de ser um artifício possível à medida que a Receita Federal ensaia aplicar uma alíquota sobre a classe de ativo.

Nos últimos meses o Banco Central passou a tratar stablecoins como operações de câmbio e, por conta disso, a classe entrou na mira da tributação.

O que tem se ventilado no mercado é uma eventual cobrança de 3,5% de IOF sobre transações envolvendo stablecoins que superem R$ 10 mil mensais, enquanto abaixo disso a isenção seria mantida.

O setor tem se movido contra, com cinco associações representativas no ecossistema financeiro e de criptomoedas assinando uma manifestação contrária à medida – dentre elas ABcripto, ABFintechs, Abracam, ABToken e Zetta, que representam juntas mais de 800 companhias do ramo.

Acelerando o passo

Já presente em solo brasileiro há mais de três anos, a Revolut se movimenta para ganhar competitividade e market share neste início doa no de 2026. Além das taxas zeradas, a companhia lançou seu próprio cartão de crédito premium para os clientes brasileiros.

O produto é chamado de cartão Ultra e tem anuidade de R$ 249,99, que gera até 3 pontos por dólar no crédito. O produto também fornece acesso ilimitado a mais de mil salas VIPs no Brasil e em outros locais do mundo.

“A gente reforça os benefícios dos planos e associa isso ao cartão de crédito, permitindo que a anuidade possa ser isenta dependendo do uso. Além disso, traz isenção de IOF, isenção de taxa de câmbio e uma série de novas assinaturas e benefícios. No caso do câmbio, dependendo do volume que a pessoa fizer no mês, ela já recupera o valor que pagou de anuidade. Além disso, o pacote de benefícios pode superar com folga o custo de manter a categoria”, diz Glauber.

Setor financeiro do Brasil é benchmark, diz CEO da Revolut

Com um sistema financeiro sólido em uma regulação relativamente avançada, o Brasil é benchmark (referência), segundo Mota. O executivo diz que o país tem um ‘ambiente competitivo’ e que, no fim do dia, gera mais valor para os clientes. Ao mesmo tempo, tem a resiliência de um país latino, com histórico de crises mais extenso e um passado de hiperinflação não tão distante.

Com cerca de 70 milhões de clientes no mundo todo, a fintech que oferece conta digital multimoeda entrou no Brasil em meados de 2023 e paulatinamente aumentou sua presença.

A ideia de colocar o pé no acelerador no crescimento em solo brasileiro se deu com o aval da operação global – que enxerga no mercado uma oportunidade relevante, ainda que o mercado de contas gobais já tenha players estabelecidos e, no momento, viva uma ‘guerra de taxas’ para conquistar mais clientes.

Na visão de Mota, o executivo brasileiro lida melhor com cenário adversos – enquanto o gringo é mais acostumado com um ambiente de negócios mais estável.

“O Brasil opera com taxas de juros altas e inflação de forma mais natural do que outros países. Esse aprendizado local acaba sendo exportado, porque muitos mercados não têm experiência com esse tipo de ambiente.”

‘Exportação’ de conhecimento

Com presença global, a Revolut entende que o know-how do Brasil, para algumas coisas, também é exportado. Em outras palavras, a operação global não envia ordens de cima para baixo, mas vê um fluxo de ida e volta, com particularidades do mercado doméstico servindo de mola propulsora para produtos e estratégias em outras geografias onde a empresa atua.

“A experiência com o Pix abriu a cabeça dos colegas no exterior para pensar em soluções inovadoras. O que foi desenvolvido no Brasil começa a influenciar discussões e produtos em outras geografias”, relata.

“Explicar boleto e IOF para estrangeiros é um desafio constante, especialmente quando há mudanças regulatórias rápidas. Mas, ao mesmo tempo, quando eles veem os resultados e o engajamento dos clientes, percebem que existe um sistema sofisticado funcionando por trás”, complementa.

As falas estão em linha com o que outros executivos de instituições financeiras de presença global tem dito acerca do Brasil.

De fora geral, Pix e Open Finance são vistos como as joias da coroa da agenda de inovação do Banco Central (BC) – chamada de Agenda BC#.

Segundo dados da Statista divulgados no início de 2025, Estados Unidos, Reino Unido, Índia, Canadá e Brasil lideram o mundo em número de fintechs – na esteira de uma regulação favorável à inovação.

O Brasil concentra 58,7% das fintechs da América Latina, mantendo liderança regional. O modelo regulatório adotado pelo Banco Central é frequentemente citado como fator central desse avanço e tem sido observado por outros países.

A regulação brasileira é vista como amigável à inovação, mas rigorosa em termos de governança ao mesmo tempo.

Caminhando para seis anos de existência, o Pix se consolidou como um dos principais sistemas de pagamento instantâneo, e em 2023 as transações digitais já representavam mais de 80% das operações bancárias no país – confirmando a tese de que o brasileiro seria um early adopter de novas tecnologias.

Capital de risco ainda é entrave

Os juros altos, citados pelo executivo da Revolut, ainda são um obstáculo para o ganho de competitividade no Brasil, entretanto.

Com um ambiente de menos apetite ao risco, o Brasil ainda enfrenta desafios para converter essa tecnologia em crescimento econômico amplo.

O Ranking Mundial de Competitividade Digital de 2026 mostra que o Brasil subiu para a 53ª posição, destacando-se no uso de smartphones e serviços públicos online, mas sofrendo com a escassez de capital de risco e mão de obra qualificada na contramão.

Ou seja, o panorama é de um sistema financeiro de primeiro mundo, mas com desafios para os próximos anos que incluem refinar ainda mais o que já deu certo, garantir mais eficiência, mais produtividade e um cenário que permita ao setor produtivo tomar mais risco – incluindo via crédito e produtos financeiros.