Abrir capital, para o SoftBank, não significa uma janela de saída – e calcada na filosofia de longo prazo, a gestora não deve aproveitar o evento de liquidez para reduzir nenhuma participação societária. Isso, considerando que alguns nomes do portfólio da empresa na América Latina já tem porte suficiente para ir à bolsa de valores, segundo a própria gestão.

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Ao Dinheiro Entrevista, Alex Szapiro, Head do SoftBank no Brasil e Managing Partner da gestora, conta que a filosofia e o processo de investimento da companhia fazem com que o IPO seja visto apenas como ‘mais um ponto na jornada da empresa’.

O movimento é contrário ao que alguns players fizeram na bolsa de valores nos últimos anos, como a Rede D’Or, que foi uma das maiores aberturas de capital da bolsa, e contou com vendas de Carlyle e GIC (fundo soberano de Singapura) reduziram suas participações para realizar lucros, ou da Smart Fit, quando o fundo de private equity Patria e o fundo CPPIB (Canada Pension Plan Investment Board) foram os principais vendedores da tranche secundária.

Atualmente o SoftBank já é sócio de gigantes de capital aberto, como Nubank e Inter, mas detém vários nomes sob seu guarda-chuva que são gigantes e estão ‘maduros o suficiente’ para o IPO, dado que ainda possuem capital fechado.

Szapiro não revelou os nomes que estão nesses estágio, se limitando a dizer que são ‘entre 15 e 20 empresas’. Dentre as mais de 80 empresas que o SoftBank investe na Améria Latina estão:

  • QuintoAndar
  • MadeiraMadeira
  • Olist
  • Mercado Bitcoin
  • WellHub (antiga Gympass)
  • Loft
  • Loggi
  • Rappi
  • VTEX
  • Creditas
  • Merama

“Às vezes nós temos investimentos em companhias que abriram capital e, mesmo assim, seguimos acionistas, porque a nossa visão é de longo prazo. No momento que a empresa vai para a bolsa, em teoria ela já tem plena liquidez quando acaba o lock-up, geralmente 90 ou 120 dias do IPO, mas isso não quer dizer que a gente precise sair”, diz Alex Szapiro.

“Como exemplo, mesmo após anos do IPO da VTEX, nós continuamos acionistas da empresa, porque a gente não acredita que o IPO seja obrigatoriamente o momento de saída. O IPO é só um ponto na história da empresa. Muita gente trata como se fosse o final, mas na verdade ele pode ser apenas o começo de uma fase muito mais longa”, completa.

Como exemplo, cita que definitivamente o IPO não foi o momento de sair em empresas como Google, Amazon ou Nvidia.

“Se IPO fosse considerado momento de saída para estas empresas, quanto dinheiro teria sido deixado na mesa? Essas empresas multiplicaram 300, 400 vezes desde o IPO. Então a gente precisa tomar cuidado com essa ideia de que abrir capital é o ponto final”.

O que é estar pronto para o IPO, segundo o SoftBank

Szapiro, além disso, frisa que o IPO muda muita coisa, incluindo governança e a forma de reportar números, além do nível de escrutínio obviamente também a base de acionistas.

Assim, considera que o volume de empresas do portfólio da gestora japonesa passa de uma dezena – com companhias que já cumprem o ‘dever de casa’ para entrar na bolsa e devem demandar poucos ajustes e processos antes do martelo ser batido no primeiro leilão.

Mas, além disso, cita que o mercado atualmente demanda um nível relevante de previsibilidade de receita.

“Estar pronto para IPO exige governança, mas também exige processo de forecast bem estruturado e exige capacidade de dar guidance com uma certa consistência. Não é só mostrar o EBITDA de hoje, mas detalhar o quanto esse EBITDA pode ser daqui a dois ou três anos e como ele vai crescer ao longo do tempo.”

A visão é de que há um risco em uma empresa se tornar pública, ‘dar um número ao mercado, e depois errar 10% ou 20%, mesmo que seja para cima’.

“É muito difícil fazer guidance de empresas que crescem 50%, 60% ou até 70% ao ano, e muitas das empresas que a gente investe crescem nesse patamar.”

Nesse aspecto, analisa que a ‘barra ficou muito mais alta’ para se abrir capital, dado que o volume de empresas na fila para entrar na bolsa de valores aumentou nos últimos anos.

Com um mercado permanentemente mutável, a base de investidores também mudou seu critério.

Szapiro conta que há cinco ou seis anos atrás o crescimento era o principal catalisador para uma empresa abrir capital, enquanto hoje o que predomina é o ‘rule of 40’ ou ‘rule of 50’, ou seja, a combinação entre crescimento e rentabilidade.

Os termos usados – rule of 40 e o rule of 50 – não são nada mais do que modos rápidos que o mercado usa para medir se uma empresa, geralmente de tecnologia, está em um patamar saudável para crescer e, ao mesmo tempo, caminhar para o lucro.

A conta é simples: soma o crescimento da receita com a margem de rentabilidade (geralmente EBITDA). Se der 40, a empresa passa no rule of 40; se der 50, a situação é melhor ainda.

Em linhas gerais, o método serve para separar o joio do trigo no mercado, apartando companhias que crescem rápido queimando caixa das que possuem um equilíbrio entre expansão e resultado. O rule of 50 é uma régua mais alta, muito usada hoje em dia, com investidores mais exigentes e menos tolerantes a prejuízo, se tornando praticamente um selo de qualidade para empresas que querem fazer IPO ou se destacar no mercado.

O ‘risco da insignificância’

Na contramão, Szapiro considera que há um grande risco para quem entra na bolsa antes da hora.

“Muitas empresas que abriram capital fora do Brasil em 2021 acabaram ficando insignificantes em seus mercados. Quando a empresa fica insignificante, ela perde liquidez e vira o que a gente chama de ghost stock“, diz o executivo.

“Uma empresa com um average daily trading volume (ADTV) muito baixo é quase como se fosse privada, mesmo estando listada”, completa.

Em outras palavras, há um risco inerente em abrir capital cedo demais, quando a empresa ainda não tem escala, maturidade operacional ou apelo consistente para investidores.

Com um ADTV baixo, os compradores e vendedores são poucos e a companhia vê ações com preço travado, sujeito a oscilações artificiais. Esse panorama faz com que grandes fundos e investidores institucionais evitem a companhia, dado que não conseguem montar ou desmontar posição – e aí a empresa perde visibilidade, cobertura de analistas e relevância no índice.

Algumas companhias trilharam esse caminho turbulento, como Wish (ContextLogic), que fez IPO nos EUA, virou queridinha na pandemia, mas perdeu tração rapidamente, perdendo liquidez e saindo da Nasdaq em meados de 2023.

A Allbirds, que ganhou holofotes por conta do storytelling ESG ao vender calçados entrou na bolsa em 2021, no boom dos IPOs, mas cresceu pouco nos anos seguintes e o volume de negociação despencou.

A Oatly também teve um IPO badalado nos EUA, mas crescimento abaixo do esperado e sucessivos prejuízos afastaram investidores, fazendo com que os papéis ficassem lateralizados em termos de performance.