11/12/2002 - 8:00
Repare no que diz o cartaz abaixo. ?Perigo! Rodovia mal conservada. Responsabilidade: governo federal?. Provocações desse tipo, há dois anos, foram espalhadas em quase todas as estradas federais que passam por Minas Gerais. Numa campanha publicitária inusual, paga com o dinheiro dos contribuintes mineiros, o governador Itamar Franco alertou os motoristas sobre os riscos das rodovias. Com os outdoors, Itamar também deixou claro que estava tirando seu corpo fora. Como eram rodovias federais, não caberia a Minas investir um só centavo na sua conservação. Agora avance o relógio para 2002. O mesmo Itamar Franco, que deixou as estradas ao relento, hoje cobra da União uma fatura de nada menos que R$ 1,2 bilhão. O motivo? Reparação pelo que o governo mineiro diz ter gasto na conservação das rodovias. Fiel ao seu estilo, o ex-presidente briga, esperneia, faz chantagens e dá ultimatos. ?Vamos esperar alguns dias?, disse Itamar, na terça-feira 4, em frente ao Palácio da Liberdade, com seu topete esvoaçante. ?Se nada for resolvido, processo o governo federal e revelo os bastidores das negociações da dívida?. Pronto. Estava aberta a primeira crise entre os aliados do futuro governo. O futuro ministro da Fazenda, Antônio Palocci, disse que sua tarefa não é acalmar governadores, mas Lula chamou a questão para si. É provável que Itamar consiga pelo menos R$ 550 milhões, recursos com os quais pagaria o 13º salário dos servidores públicos mineiros.
Aberta a possibilidade de um precedente, fez-se a fila. O prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, logo avisou que buscará o ressarcimento de R$ 400 milhões que teriam sido investidos na Avenida Brasil, um bem que pertence à União. Outros governadores, como Geraldo Alckmin, de São Paulo, e Benedita da Silva, do Rio de Janeiro, também vieram a público para dizer que Minas não pode receber tratamento privilegiado. ?Já mandei calcular quanto investimos em estradas federais?, disse Alckmin. O fato, porém, é que, entre todos os Estados brasileiros, nenhum é tão perdulário quanto o administrado por Itamar Franco. Enquanto a Lei Camata fixa um teto de 60% para os gastos com pessoal, Minas destina 73% da sua arrecadação para esse fim ? é o pior desempenho nacional. ?Itamar quer ganhar no grito e, se vencer a briga, será um péssimo exemplo?, diz o ex-ministro Maílson da Nóbrega, da consultoria Tendências. E o pior é que, apesar da briga, as estradas que cruzam Minas continuam péssimas. O Censo Rodoviário de 2002, elaborado pela Confederação Nacional dos Transportes, aponta que no Estado há três ligações federais em boa conservação, enquanto 11 são deficientes. Ou seja: se Itamar investiu algo além do que gastou nos outdoors, os resultados não apareceram. E ele ainda criou mais um problema. A votação da Medida Provisória 66, que trata da minirreforma tributária, tema de grande relevância econômica, foi adiada por tempo indeterminado, até que se resolva a questão dos Estados. Um adiamento com o dedo de Aécio Neves, presidente da Câmara e futuro governador de Minas, que não pretende assumir com o 13º salário em atraso.