Nos dias que se seguiram ao atentado de 11 de setembro, o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger publicou um artigo em que dizia que os autores do crime, seus protetores e aliados, deveriam pagar um preço ?desproporcionalmente alto? pelo que haviam feito. Era a única maneira, insistia, de evitar que os Estados Unidos fossem alvo de ataque semelhante no futuro. Na semana passada, seis meses depois da queda das torres do World Trade Center, o mundo podia constatar, consternado, que o preço da revanche do Império está sendo pago por todos, não apenas pelos terroristas e seus patrocinadores. A nação mais rica do mundo, que faz sozinha 40% do gasto militar do planeta, mergulhou-se numa guerra sem fronteiras e sem limites para impor sua visão de segurança ao resto do mundo. Segurança militar e econômica.

Na quarta-feira 13, o presidente George W. Bush deu sua primeira entrevista coletiva em seis meses para anunciar que o Iraque é o próximo alvo da lista, depois do Afeganistão. ?Não vou permitir que uma nação como o Iraque ameace o nosso futuro com armas de destruição de massa?, disse o presidente. Na seqüência da conversa, não descartou sequer o uso de armamento nuclear contra o país de Saddan Hussein: ?Todas as opções estão sobre a mesa?. No mesmo dia, em São Paulo, o secretário do Comércio de Bush, embaixador Robert Zoellick, dava uma entrevista para reafirmar os termos da restrição americana à importação de aço estrangeiro ? uma medida unilateral, tomada em benefício de um setor decadente da indústria dos EUA, que foi recebida como bofetada em países tão distintos como Rússia, Grã-Bretanha e Brasil. ?A liderança é muitas vezes confundida com unilateralismo?, argumentou Zoellick. ?Existe excesso de oferta de aço no mundo e nós achamos importante lidar com esse problema.?

Os cínicos dirão que nada é novo. Lembrarão que desde o século 19, com a formulação da Doutrina Monroe (?A América para os americanos?), os Estados Unidos têm confundido suas próprias razões e preferências com as necessidades dos vizinhos. Mas o fato é que desde 11 de setembro o messianismo americano mudou de escala. O historiador Immanuel Walerstein, um dos maiores estudiosos do capitalismo mundial, acredita que os terroristas de Osama Bin Ladem conseguiram colocar no poder a direita mais belicosa que já freqüentou a Casa Branca. Com ele concorda o economista brasileiro Paulo Singer. ?Os atentados fortaleceram a direita mais alucinada?, diz o professor da PUC. ?Nem o Nixon foi tão longe quanto Bush. É assustador.? Nixon, soube-se há pouco, cogitou a portas fechadas jogar uma bomba nuclear sobre o Vietnã. Bush fez o mesmo em entrevista pública, falando de um país com o qual os EUA sequer estão em guerra. Ainda. É a isso que a União Européia se refere quando fala do ?unilateralismo galopante? dos EUA.

?A arrogância americana não passa despercebida?, afirma David Fleischer, cientista político e professor da Universidade de Brasília. ?A atitude dos Estados Unidos hoje é: temos o poder e vamos usá-lo?. Fleischer nasceu nos Estados Unidos, mas se naturalizou brasileiro recentemente. O aço, diz ele, foi apenas o último exemplo do descaso pelo resto do mundo. Antes disso foi a recusa americana em assinar o Protocolo de Kyoto, que definiria normas globais de redução de poluentes. Há poucos meses, em outra demonstração da política de ?eu primeiro?, veio a público a lista de exigências colocadas pelo Congresso americano para dar ao presidente autorização para negociações comerciais, a chamada Trade Promotion Authority. Seus termos são tão rigidamente protecionistas, suas concessões tão limitadas, que o governo brasileiro viu-se obrigado a repelir o documento como ?inaceitável?. E os americanos nem ligaram. ?Vamos seguir em frente com nossa responsabilidade e obrigação de proteger o produtor americano?, disse o senador Larry Combest, presidente da Comissão de Agricultura da Câmara ? durante uma visita ao Brasil…

Nos anos que se seguiram à queda do Muro de Berlim, em 1989, imaginou-se que seria diferente. Única potência mundial, hegemônico na economia e na política, os EUA de George Bush Pai podiam alardear uma nova ordem mundial, baseada na democracia, na economia de mercado e na deposição generalizada das armas. Agora esse idílio terminou. Os anos 90 viram uma expansão sem precedentes da economia americana e o aumento da prosperidade européia. Mas o sucesso do capitalismo financeiro e tecnológico não chegou às economias emergentes. Nem atingiu aqueles pedaços calcinados do mundo onde a pobreza e a guerra são modo de vida permanente. Em 11 de setembro, os Estados Unidos despertaram para a existência desse outro planeta Terra, rancoroso. E estão se mobilizando para esmagá-lo. ?A impressão geral que os EUA transmitem, nos últimos tempos, é a de que simplesmente não nos importamos com o que o resto do mundo pensa?, escreveu, recentemente, o historiado Paul Kennedy. ?Quando pedimos assistência para apanhar terroristas, jogamos em equipe. Quando não gostamos dos planos internacionais, saímos de campo.?

Na semana passada, a forças americanas estavam atuando nas Filipinas, na antiga república soviética da Geórgia e no Iêmen. Se o ataque ao Iraque se confirmar, os EUA estarão travando guerra em duas frentes simultâneas, algo que não ocorre desde a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um grau de violência que mesmo a sociedade americana ? que dá 84% de apoio ao presidente Bush ? reluta em aceitar com docilidade. Mas os tempos estão difíceis para os pacifistas. Há duas semanas, o senador Tom Daschle, democrata, criticou os planos de Bush de transformar o mundo em campo de batalha e foi interpelado pelo líder republicano: ?Como o senador ousa criticar o presidente num momento em que estamos em guerra contra o terror?? É isso. O mundo está à mercê de Bush e nem seus compatriotas podem questioná-lo. O imperador não pode estar errado.