Ao longo de pouco mais de quatro décadas, o SoftBank consolidou uma estratégia baseada em visão de longo prazo, capacidade operacional e apostas concentradas em tendências tecnológicas. Segundo Alex Szapiro, Head da gestora no Brasil e Managing Partner para a América Latina, existe, sim, um ‘jeito SoftBank de Investir’.

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Isso, não só no Brasil e na América Latina, mas obviamente de forma global, com cheques polpudos indo para companhias em estágio avançado – late stage, no jargão do mercado de venture capital – e, em um passado mais recente, prioridade para inteligência artificial como motor de transformação.

Ao Dinheiro Entrevista, Alex Szapiro frisa que o padrão próprio de atuação das alocações ainda segue a influência do fundador da companhia, Masayoshi Son.

“Sim, eu acho que existe um jeito de investir e isso é muito levado pelo fundador.”

A história do grupo ajuda a compreender essa cultura. O SoftBank começou como operador de tecnologia no Japão, expandiu para telecomunicações e, com o tempo, tornou-se um dos maiores investidores globais em empresas de tecnologia.

Atualmente, é o principal acionista da ARM, por exemplo, uma companhia estratégica na cadeia de semicondutores, setor que ganhou destaque com o avanço de chips voltados à inteligência artificial.

Segundo o executivo, Masayoshi Son combinou experiência operacional com leitura de ciclos tecnológicos. Ele citou a aposta em computadores pessoais no fim dos anos 1970, quando ainda eram restritos a grandes empresas, e a entrada antecipada na telefonia móvel no Japão nos anos 1990.

Outro caso mencionado foi o investimento inicial no Alibaba. Com aporte estimado entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões antes do IPO, a participação chegou a valer centenas de bilhões de dólares no pico.

Para ele, o episódio evidencia tanto a importância do timing quanto o custo de deixar oportunidades passarem.

“Temos duas falhas na indústria de venture capital. Uma é fazer um investimento que não gera retorno. A outra é não investir e depois ver a empresa crescer. As duas doem, talvez a segunda até mais”, disse.

Em 2015, o grupo anunciou um fundo de US$ 100 bilhões, valor acima da média do mercado na época. O movimento consolidou o SoftBank como um dos principais investidores globais em inovação.

Como o SoftBak atua em solo latino

Na América Latina, a prioridade são empresas em estágio avançado, com modelo validado e necessidade de capital para expansão. O SoftBank não atua em rodadas seed ou early stage.

“Nosso cheque varia entre US$ 30 milhões e US$ 50 milhões. Se investirmos em uma empresa muito pequena, diluímos demais investidores e fundadores”, explicou.

A preferência recai sobre companhias que já demonstraram unit economics consistentes e estejam preparadas para ampliar operações. O fundo se define como agnóstico em relação a setores – ou seja, investe desde educação e logística até varejo e fintechs, desde que enxergue potencial.

Há anos, IA deixou de ser um adicional e passou a ser um atributo praticamente mandatário.

“A nossa tese hoje está muito focada em como olhamos uma indústria ou um negócio onde haja um papel relevante de IA”, afirmou.

Não é necessário que a empresa tenha nascido com essa tecnologia, mas que disponha de dados, escala e estrutura para incorporar soluções que impactem eficiência, margens e receita.

Entre os exemplos citados estão a Blip, plataforma de conversação que integra CRM, sistemas e canais digitais com uso de inteligência artificial para automatizar interações e realizar transações, e a ASA, empresa de ERP voltada a soluções de cobrança que já utilizava IA para aprimorar processos.

Veja algumas das investidas da gestora na América Latina:

  • QuintoAndar
  • MadeiraMadeira
  • Olist
  • Mercado Bitcoin
  • WellHub (antiga Gympass)
  • Loft
  • Loggi
  • Rappi
  • VTEX
  • Creditas
  • Merama

Liberdade para definir o momento de saída

Ao contrário de muitos fundos de venture capital, o SoftBank investe majoritariamente capital próprio, sem obrigação de devolver recursos a investidores externos em prazos definidos. Isso altera a lógica de desinvestimento.

“Como não temos capital externo, todos os recursos são do próprio SoftBank. Não precisamos criar um novo fundo para captar de LPs, o que nos dá liberdade para não ter prazo a cumprir”, afirmou.

Essa estrutura permite manter participação por mais tempo, inclusive após a abertura de capital. A VTEX foi citada por Szapiro como exemplo: o grupo continuou como acionista mesmo depois do IPO.

“O IPO é apenas um ponto na história da empresa. Não significa que precisamos sair.”

Quando decide vender integralmente a posição, o foco é maximizar retorno. O último desinvestimento total divulgado foi a venda da Pismo para a Visa, por US$ 1 bilhão. Segundo o executivo, a operação gerou taxa interna de retorno superior a 50%.

IPO como etapa, não como destino

Sobre companhias próximas de abrir capital na região, o executivo não mencionou nomes, mas reiterou que a listagem não é obrigação nem sinônimo de saída imediata.

Ele lembrou que empresas como Amazon, Google, Meta e Nvidia multiplicaram valor após o IPO.

“Se IPO fosse considerado momento de saída para estas empresas, quanto dinheiro teria sido deixado na mesa? Essas empresas multiplicaram 300, 400 vezes desde o IPO. Então a gente precisa tomar cuidado com essa ideia de que abrir capital é o ponto final”, disse o Head do SoftBank no Brasil.