A inflação medida pelo IPCA, do IBGE, aponta os preços das joias subiram 27% no acumulado em 12 meses até o mês de março. O principal vetor desse aumento foi a cotação do ouro, que saltou mais de 50% no último ano.

O impacto chega diretamente ao consumidor final: dados da “Mordor Intelligence” indicam que a compra de joias pela classe média recuou 15% em um ano, afetando as redes de shopping. Em contrapartida, marcas com design autoral para as classes A e B cresceram 18% no período, de acordo com o IBGM (Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos).

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Da produção em escala industrial à ourivesaria artesanal, a valorização do metal mais precioso do mundo alterou a dinâmica do mercado. Setores da indústria vêm apostando em inovação e pesquisa para conceber joias mais leves e com apelo estético.

Peças mais leves e formatos côncavos

Uma das saídas do setor é o emprego de métodos de fabricação para mitigar o repasse integral de custos e preservar as margens de lucro. Rômulo Vianna, proprietário da Vianna — companhia que atua no atacado industrial —, explica que é possível produzir peças utilizando cerca de 30% menos ouro do que há cinco anos.

“Hoje, reduzimos ao máximo a quantidade de ouro. Atualizamos as técnicas de fabricação para fazer joias até 30% mais leves do que fazíamos há uma década”, aponta Vianna.

O empresário revela que, nos primeiros meses de 2026, houve uma queda de 50% na venda de peças de ouro em grandes redes. A tendência de redução de peso é replicada no alto luxo. Márcio Granatowicz, designer e sócio-diretor da Art’G, afirma que, por meio da engenharia de design, trabalha-se com chapas de ouro mais finas, mantendo o impacto visual.

“Desenvolvemos técnicas para trabalhar manualmente com chapas muito finas. Entra a inteligência do designer em usar formatos côncavos ou posicionar brilhantes para dar volume com peso menor”, explica Granatowicz. O designer ressalta que os brilhantes funcionam como pontos de luz que preenchem a volumetria espacial da joia.

Peças de prata em alta

Acompanhando a tendência do ouro, o preço da prata também disparou. Segundo dados da LSEG (London Stock Exchange Group), a valorização do metal foi de 147% no ano passado. Mesmo assim, a prata tornou-se uma alternativa para os fabricantes de joias, que observam um aumento na demanda do varejo nacional por peças que, anteriormente, eram destinadas majoritariamente à exportação.

“Clientes do atacado, antes resistentes à prata, passaram a aceitar o material. Esperamos um crescimento expressivo, saindo de um cenário de baixa demanda interna para um mercado promissor”, afirma o proprietário da Vianna. Para enfrentar a concorrência chinesa, a empresa foca em peças de maior valor agregado.

‘Quiet luxury’

O quiet luxury (luxo silencioso) consolidou-se como tendência ao valorizar a discrição em oposição à ostentação de logotipos e peças excessivamente chamativas. O mercado de luxo agora foca no consumidor que prioriza a exclusividade e o conceito artístico em detrimento da quantidade de ouro.

“O quiet luxury é o fim da ostentação óbvia. É a opulência silenciosa. O público quer mostrar que usa ouro apenas para quem entende o código, valorizando o design invisível”, finaliza Granatowicz.