13/12/2006 - 8:00
Foi um sonho de déca- das desta nação. Uma aventura épica que, para muitos, não passaria disso, uma aventura. Mas, em 22 de abril deste ano, o Brasil conquistou a auto-suficiência na produção de petróleo e, assim, a Petrobras atingiu o ápice de uma trajetória de 53 anos como símbolo da indústria do País. De seus campos espalhados pela costa brasileira e diversos outros países, jorram mais de 1,9 milhão de litros de óleo negro por dia, o suficiente para atender todo o consumo local do produto. Nesse momento histórico, encontra-se à frente da empresa um economista baiano de 57 anos, de larga experiência política e pouca bagagem empresarial. Seu nome: José Sérgio Gabrielli, o homem que o destino colocou no comando da Petrobras em um ano particularmente especial. Sim, porque, além da auto-suficiência, foi em sua gestão que a companhia reforçou, de forma inédita, sua aposta nos biocombustíveis. O mais auspicioso fruto desse esforço veio ao mercado em meados deste ano, com o lançamento da tecnologia HBio, que permitirá a mistura de óleo vegetal (extraído da soja, mamona, entre outros) com o diesel tradicional. ?Estamos criando um novo tipo de economia no mundo?, afirma Gabrielli. Enfim, sai um sonho, o da auto-suficiência, entra outro, o de uma revolucionária fonte de energia. São esses marcos históricos que levaram Gabrielli ao posto de Empreendedor do Ano da DINHEIRO, na Categoria Energia. ?Fizemos de 2006 um ano de sucesso?, diz ele.
Nem mesmo a crise detonada pela intervenção nas refinarias da Petrobras na Bolívia mancha, no entender de Gabrielli, o currículo da estatal ao longo de 2006. ?No final do ano, os novos contratos vão se revelar uma solução equilibrada para esse impasse?, afirma ele. Os ambiciosos planos de internacionalização também não sofreram com os percalços em terras bolivianas. Nos últimos tempos, a Petrobras fincou seus pés em países de todos os continentes. Passou a atuar, por exemplo, na Tanzânia, na Turquia e no Irã. Na América Latina, reforçou a presença na distribuição de combustíveis nos mercados uruguaio, paraguaio e colombiano. Nos EUA, arrematou 50% do capital da refinaria de Pasadena, pertencente à Astra Oil. Valor da operação: US$ 360 milhões. ?Vamos continuar ampliando nossa participação no Exterior?, garante Gabrielli. Até 2011, a companhia investirá mais de US$ 12 bilhões em seus projetos internacionais. Não se impressione com os valores. Todos os números na Petrobras são superlativos. Nos nove primeiros meses deste ano, o lucro, recorde, bateu em quase R$ 21 bilhões para uma receita líquida operacional superior a R$ 117 bilhões, o que a coloca, de longe, como a maior companhia brasileira. O plano de investimentos até 2011 soma impressionantes US$ 87 bilhões. Parte da dinheirama já está carimbada: seu destino será o que Gabrielli chama de ?sustentabilidade da auto-suficiência?, ou seja, investimentos para garantir que a produção acompanhe o crescimento da economia. A Petrobras aumentará seu volume anual entre 5,3% e 7,5% até 2015. A empresa projeta uma expansão do PIB em torno de 4%. ?É uma das maiores taxas de crescimento da indústria petrolífera no mundo?, orgulha-se ele. ?Nossas metas estão 20% acima das estimativas de crescimento do consumo brasileiro. Temos um bom colchão para não perder o trabalho realizado nos últimos três anos.?
Nesse período, a equipe da qual Gabrielli faz parte (antes como diretor financeiro, agora no papel de presidente) tratou de ?destravar? o projeto de auto-suficiência. Os executivos da estatal sentaram-se com os fornecedores e eliminaram os gargalos que provocavam atrasos de até dois anos na construção de três plataformas, as P-43, P-48 e P-50. Uma comissão de profissionais de primeiro nível da companhia foi formada para desatar nós operacionais que impediam os aumentos de produção. A cada 15 dias a diretoria se reunia para acompanhar a situação. Além disso, a estatal voltou a participar com apetite das licitações de campos de petróleo. ?Nossa atuação era mais tímida e perdemos muito espaço?, diz ele. ?A Petrobras retomou o papel que lhe cabe.?
A frase carrega um traço nacionalista ? e issonão deveria surpreender quem conhece seu autor. Formado em Economia pela Universidade Federal da Bahia, com pós-graduação na Universidade de Boston, Gabrielli é petista histórico. Pelo PT, foi candidato a deputado federal e a governador. Sua militância, porém, começou bem antes do nascimento do partido. Nos anos 60, Gabrielli era membro da Ação Popular, ou AP, organização de esquerda que lutava contra o regime militar. Por conta dessa participação, amargou um período na cadeia. Foi anistiado em 1979. Desde então, dedicou-se à vida acadêmica, sempre na universidade onde se formou. A carreira só foi interrompida em 2003, quando, por indicação do recém-eleito governador da Bahia, Jaques Wagner, assumiu a diretoria financeira da Petrobras. Dois anos depois, foi guindado à presidência. Sua atuação e os resultados colhidos levaram seu nome à bolsa de apostas para o Ministério da Fazenda no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Qualquer tentativa de tirar uma declaração dele sobre o assunto é infrutífera.
Falar do futuro, só se for o da Petrobras. Nesse capítulo, o biocombustível merece atenção especial. Até 2009, a meta é substituir 25% do diesel importado pelo País, o que vai gerar uma economia anual de US$ 145 milhões. Hoje, mais de 700 postos da BR Distribuidora, uma subsidiária da Petrobras, já comercializam o produto. ?Estamos criando um setor de combustíveis novos na empresa?, afirma Gabrielli. É um trabalho colossal, mas que ninguém duvide de uma companhia que dedicou mais de 50 anos a concretizar um sonho que muitos chamavam de aventura. ![]()