20/03/2002 - 7:00
No próximo mês, os franceses vão às urnas para o primeiro turno da eleição presidencial em uma disputa acirrada entre a esquerda e a direita. De um lado está o socialista Lionel Jospin, primeiro-ministro desde 1997. Do lado oposto encontra-se o conservador Jacques Chirac, que é presidente há sete anos e luta pela reeleição. As últimas pesquisas indicam uma pequena vantagem de Jospin sobre Chirac. Ao vencedor, o prêmio é um país em plena transformação. Uma das nações mais protecionistas do mundo, a França agora tem de dançar ao som do hino da União Européia, da qual faz parte. Desde que trocou o franco pelo euro, a moeda única européia, em janeiro último, a França definitivamente deixou de ser a irredutível aldeia gaulesa do famoso personagem Asterix, que resistia bravamente à invasão romana.
Quem assumir a Presidência tem pela frente uma França rendida, que ainda tenta digerir o novo formato de bloco econômico único. Cada um dos candidatos tem a sua fórmula para gerenciar esse impacto. Chirac quer apagar a imagem de nação que resistiu o quanto pôde à União Européia e fazer do país ?o motor desse novo bloco econômico.? De olho nesse posto, Chirac promete uma aproximação efetiva com os outros blocos econômicos, como o Mercosul. O socialista Jospin, que chegou a ser visto como uma ameaça à adesão da França à União Européia, também acena de forma positiva em direção ao livre comércio. Quando esteve no Brasil, em abril do ano passado, Jospin disse a uma platéia de empresários: ?Por favor, tirem todo o clichê ou imagem estereotipada que tenham sobre a França. Vocês vão encontrar um parceiro aberto.?
O meloso discurso de integração econômica de ambos os candidatos só emperra quando o assunto é o protecionismo agrícola. Aí não tem conversa. Chirac e Jospin não arredam os pés. Certa vez, Chirac chegou a afirmar que o protecionismo europeu era lenda. Os resultados práticos, porém, são bem reais. Graças às pressões políticas francesas, a União Européia só deverá tratar da questão agrícola na Organização Mundial do Comércio (OMC) durante a revisão da Política Agrícola Comum em 2006. Até lá, os dois candidatos garantem o sono tranqüilo (e os votos) dos agricultores franceses.
Telhado de vidro. Tranqüilidade essa que nem Chirac, nem Jospin podem se dar ao luxo de ter desde que os dois se enroscaram em denúncias de corrupção. Primeiro foi Chirac. Em dezembro de 2000, Michel Roussin, um de seus amigos mais próximos, foi preso por causa das milionárias arrecadações de fundos que fazia para o partido de Chirac. No ano seguinte, foi a vez de Jospin ter de se explicar na Justiça sobre acusações de financiamento ilícito em favor do Partido Socialista. Como os dois têm telhado de vidro, por enquanto ninguém atirou a primeira pedra. Analistas políticos franceses acreditam que logo, logo, esses assuntos serão trazidos à tona para esquentar a disputa.
Toda essa ebulição política não chegou às ruas da França. Parece que os franceses encaram as eleições presidenciais com a mesma naturalidade com que aguardam a chegada da primavera, ou seja, mais uma mudança de estação. A indiferença dos franceses está traduzida numa recente pesquisa do respeitado jornal Libération mostrando que 74% dos entrevistados quase não vêem diferença entre Jospin e Chirac. Ironia do destino. Essa
imagem homogênea é vista como uma verdadeira maldição pelos políticos de ambos os partidos. Durante os cinco anos em que dividiram o poder, Chirac e Jospin se empenharam tanto em governar num regime batizado de coabitação, com um presidente de direita, Chirac e um primeiro-ministro de esquerda, Lionel Jospin, que a emenda saiu pior que o soneto.
Agora, disparam farpas mútuas para resgatar a identidade política de seus partidos. Na semana passada, Jospin criticou a promessa de Chirac de cortar impostos em um terço dentro dos próximos cinco anos, afirmando que ela ?é injusta e um pouco irreal.? Chirac rebateu acusando a polêmica política das 35 horas semanais, base do programa do Partido Socialista, de ser responsável pela desaceleração econômica da França. Um recente estudo mostra que a principal preocupação da população francesa hoje não é o desemprego, cuja taxa de 5% está em queda, e sim com a qualidade dos postos de trabalho existentes atualmente no mercado. Coisas de país de Primeiro Mundo.