24/08/2005 - 7:00
No momento em que levas de empresários têm desembarcado em Brasília com propostas de agenda mínima para a economia não parar diante da crise política, o comando do Iedi, principal centro de ideologia empresarial do País, muda de mãos. O empresário Josué Gomes da Silva, acionista da Coteminas, maior grupo têxtil da América Latina, assumiu na semana passada a presidência da entidade. A escolha de seu nome está carregada de significados. Aos 41 anos Josué, como é chamado por seus pares, é filho do vice-presidente da República, José Alencar, a mais enfática voz do governo contra a política econômica desse mesmo governo. Josué também é um legítimo representante de uma geração de empresários formados no ambiente de abertura do mercado brasileiro na década de 90 ? e é o primeiro deles a chegar ao comando do Iedi. Um de seus mais notórios parceiros é o atual presidente da Fiesp, Paulo Skaf, a quem sucedeu na liderança da Abit, a associação que reúne os fabricantes têxteis. Josué parece ser a pessoa certa no lugar certo ? o Iedi é hoje um dos núcleos mais organizados de críticas à política econômica da última década. O mote de sua atuação à frente do Iedi está definido. ?Precisamos democratizar o crescimento econômico?, afirma ele.
Em sua opinião, a visão econômica recorrente dos últimos anos criou ilhas de lucratividade num mercado estagnado. Os bancos batem recordes de resultados positivos. No primeiro semestre de 2005, os balanços de Vale do Rio Doce e Petrobras, juntos, registraram lucro de R$ 15 bilhões (leia matéria nessa edição). A Ambev ganha dinheiro como nunca. ?Criou-se uma situação onde cresce quem é monopolista, tem participação hegemônica no mercado ou trabalha com commodities?, afirma Josué. Cerca de 65% das exportações ficam por conta de commodities ou produtos primários. ?Estamos ao sabor dos preços internacionais desses produtos?, diz ele. Isso tem garantido resultados raquíticos: nas duas últimas décadas o crescimento anual não tem superado 2,2%. ?É um índice medíocre?, afirma. ?No século passado, entre 1900 e 1976, tínhamos o PIB que mais crescia no mundo. Perdemos o passo.? Nada indica mudança. Em 2005, a estimativa do PIB alcança 3%, contra uma média de 7 % no Cone Sul, segundo a Cepal. ?Estamos sem capacidade de crescimento. Somos um país em desenvolvimento que não se desenvolve.?
Josué encontra no Iedi o cenário ideal para suas críticas à política econômica do governo. Criado há 16 anos por um grupo de empresários ligados à indústria, o Iedi se tornou, ao longo do tempo, um centro de estudos do pensamento empresarial. Por conta disso, seus presidentes assumiram o papelo de porta-vozes do inconformismo diante do tsumani neo-liberal que tomou conta da economia nos últimos dez anos. De tempos em tempos, entravam em choque com a equipe de Pedro Malan. Mesmo assim, o Iedi teve mais de um representante no governo. Alcides Tápias foi ministro do Desenvolvimento na era FHC. O atual ocupante da pasta, Luiz Fernando Furlan, também participava da entidade.
Mas a presença na Esplanada dos Ministérios não significou que as idéias do Iedi provocassem qualquer mudança no rumo da economia. ?Há atualmente no Brasil um pensamento econômico hegemônico, que não deixa espaço para alternativas?, queixa-se Josué. ?Existe uma censura contra qualquer modelo que não seja o que foi implantado há mais de 10 anos e apresentou resultados pífios até hoje. Basta aparecer um plano diferente que a equipe econômica e seus defensores tratam de desqualificar seu autor.? Para ele, o maior prejuízo da ausência de debate revela-se na estagnação do País. Apaixonado por números, Josué, mais uma vez, lança mão das estatísticas. ?O nível de investimentos no Brasil encontra-se em 18% do PIB. Na China é de 34%. Por quê??, pergunta, para responder em seguida. ?Porque não há crescimento no País e, portanto, não há perspectiva de retorno.? O que fazer? ?Falar, falar e falar?, responde. Bem, ao assumir a presidência do Iedi, Josué ganhou um palanque qualificado.