Andrew e Tristan Tate respondem por sequestro, estupro e exploração sexual, entre outros crimes. Lentidão e corrupção do Judiciário da Romênia podem ser salvação para os dois machos tóxicos.Os influenciadores Andrew e Tristan Tate chegaram acompanhados por cinco guarda-costas; um dos irmãos vestia uma camiseta preta apertada, o outro, um pulôver de capuz com “TopG” – abreviatura para “Top Gangster” – estampado em dourado. Devido à ordem de registro compulsório emitida por um tribunal, tiveram que se apresentar na delegacia. Em seguida, com seu usual jeito prepotente, deram uma coletiva de imprensa.

O mais velho, Andrew, ameaçou ir embora imediatamente, caso os jornalistas não fizessem “perguntas respeitosas”. O episódio se desenrolou na segunda-feira (24/03), em Voluntari, um subúrbio abastado de Bucareste, onde ambos mantêm sua luxuosa mansão.

Depois de passar várias semanas nos Estados Unidos, os ex-lutadores profissionais e misóginos declarados, estavam de volta à Europa para mais um episódio de seu reality show de masculinidade tóxica. “Eu sou uma das pessoas mais importantes do mundo”, gabou-se Andrew Tate. “Por isso todas essas queixas contra mim.” Mais tarde, posta um vídeo em que dispara num supercarro esporte pela capital romena, a 150 quilômetros por hora.

Os irmãos respondem a processo na Romênia, sob suspeita tanto de ter sequestrado, molestado e estuprado pelo menos 34 mulheres, em parte menores de idade, quanto de formação de organização criminosa. Desde 2022, Andrew, de 38 anos, e Tristan, de 36, estiveram diversas vezes sob prisão preventiva e ficaram em prisão domiciliar.

No fim de fevereiro de 2025, porém, um tribunal de Bucareste inesperadamente suspendeu a proibição de deixarem o país, e os irmãos puderam viajar para os EUA. Mas não perderam a oportunidade de postar nas mídias sociais um vídeo de sua partida noturna, num luxuoso jato particular – embora oficialmente os aeroportos da capital fiquem fechados à noite.

Fortuna à custa de exploração feminina e drogas

Interpelado por jornalistas, o ministro romeno da Justiça, Radu Marinescu, comentou sumariamente que “é no melhor interesse deles estar de volta”. Afinal, asseguraram ser inocentes e, caso contrário, estariam sujeitos a um processo adicional. O chefe de pasta não foi capaz de explicar sobre que base legal que os Tate obtiveram permissão para ir aos EUA.

Segundo a Promotoria Extraordinária para Investigação de Criminalidade Organizada e Crimes de Terrorismo (Diicot), responsável pelo caso Tate, os anglo-americanos teriam apresentado um requerimento de viagem que um procurador deferiu. Não foram divulgados publicamente nem a justificativa do pedido, nem o nome do procurador.

Em 22 de março, ambos voltaram da Flórida para Bucareste, igualmente num jato particular. Andrew postou: “Pagar 185 mil dólares para um jato atravessar o Atlântico, por uma assinatura num pedaço de papel. Homens inocentes não fogem. Eles lavam seu nome no tribunal.”

“Lavagem”, neste caso, parece significar, antes, procrastinar e ludibriar a Justiça. Os Tate ficaram multimilionários com vídeos, cassinos e custosos cursos online de caráter misógino. Além disso, teriam lucrado com a exploração sexual de mulheres em chats de vídeo e plataformas pornô, e com o tráfico de drogas. Em 2016 mudaram-se para a Romênia. Antes, Andrew fora preso diversas vezes por suspeita de estupro no Reino Unido, seu país de origem.

Odisseia judicial

O Ministério Público romeno parte do princípio de que os irmãos Tate fundaram uma organização criminosa no início de 2021 com o fim de explorar sexualmente, em plataformas online, mulheres e meninas de diversos países. Segundo a Promotoria, as vítimas eram atraídas para a Romênia e lá “exploradas sexualmente pelos membros do grupo, através de violência física e pressão psicológica – intimidação, vigilância constante, controle e cobrança de supostas dívidas”.

O caso logo se transformou numa odisseia judicial. Após as primeiras detenções, os influenciadores foram colocados sob prisão domiciliar; mais tarde, sob condição de se apresentar regularmente à polícia, tiveram permissão para mover-se livremente em Bucareste, e depois em todo o país.

Ao todo, os juízes adiaram seis vezes a decisão sobre o início de um processo, até finalmente enviá-lo de volta ao Ministério Público – uma tática de procrastinação comum na Justiça romena, que muitas vezes desperta a suspeita de influências externas.

Até o momento, não há provas de que a dupla tenha subornado políticos ou funcionários do Judiciário. Certo está que, em 2024 a Tribunal de Apelação da capital eliminou diversos elementos de prova do caso, e em dezembro o reenviou ao Ministério Público – portanto os inquéritos recomeçaram do zero.

Recepção fria na Flórida, “amor” pela Romênia

Os dois trumpistas declarados contavam originalmente que, após a posse de Donald Trump, poderiam se refugiar nos EUA. O ministro do Exterior da Romênia, Emil Hurezeanu, admitiu que durante a Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2025, o enviado especial da Casa Branca Richard Grenell abordara o caso, frisando que os EUA “continuam interessados no destino dos irmão Tate”. Embora Hurezeanu negasse que dessa forma seu país tivesse sido pressionado, o fato é que pouco depois os influenciadores tiveram permissão para viajar.

Ao chegar na Flórida, contudo, Andrew e Tristan não foram recebidos com honras de heróis – como se queixaria o mais velho, irado. O governador Ron DeSantis, apesar de republicano como Trump, declarou que eles “não eram bem-vindos”. Em 5 de março, o procurador-geral do estado, James Uthmeier, anunciou que fora aberto um inquérito penal contra os Tate, pois “a Flórida não tem tolerância com indivíduos que abusam de mulheres e meninas”.

Trump tampouco expressou boa vontade com os investigados: numa coletiva de imprensa conjunta com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, no dia da chegada dos Tate nos EUA, declarou não saber de “nada” sobre o caso.

Assim, os irmãos calcularam que, no fim das contas, um processo na Romênia seria mais brando para eles do que um em solo americano. Além de seu óbvio sucesso em despistar a Justiça romena, há anos o país é o membro da União Europeia com mais vítimas de tráfico humano: segundo a Comissão Europeia, de 7 mil mulheres afetadas a cada ano, 3 mil são da Romênia.

Quando se trata de crimes contra mulheres, a polícia romena sabidamente tende a olhar para o outro lado. Assim, quando, em outubro de 2021, uma jovem conseguiu fugir do estúdio de videochat da mansão dos Tate e apresentou queixa na delegacia de Voluntari, os agentes tentaram convencê-la a voltar. Sua queixa acabou sendo registrada – mas sumiu numa gaveta.

Vista assim, a resposta de Andrew Tate a um jornalista na segunda-feira, diante da delegacia de Voluntari, em vez de respeitosa, soa cínica: “Estou contente de estar na Romênia. Eu vivo aqui, e eu amo a Romênia.”