O lema é ?crescer 50 anos em cinco?, mas nada tem a ver com o ex-presidente Juscelino Kubitschek. O mote que marcou o Brasil dos anos 50 agora pertence a outro chefe de Estado: o presidente argentino, Néstor Kirchner. A frase faz parte da estratégia que o vizinho vem impondo à sua economia e que tem rendido frutos mais do que favoráveis. O último deles foi anunciado na terça-feira, 13, exatamente no número 1001 da avenida Juan Domingo Perón, em Palomar, Grande Buenos Aires. Foi nesse dia e nesse endereço que o presidente mundial da montadora francesa Peugeot, Jean-Martin Folz, anunciou, ao lado de Kirchner e vários ministros de Estado, um investimento de 450 milhões de pesos para a instalação da linha de produção de um novo carro que será exportado para toda a América Latina, inclusive para o Brasil. Ali, será criado um terceiro turno de trabalho para produzir 100 mil unidades por ano. A meta é gerar 4,9 mil empregos que ajudarão a ampliar o saldo com exportações do país vizinho, que cresceu 20,8% de janeiro a maio deste ano. ?Essa é a resposta para os que diziam que a Argentina não conseguiria sair da crise e atrair investimentos?, conclamou Kirchner. A frase responde aos críticos ortodoxos que afirmavam que a sua estratégia agressiva de conduzir a economia ? enfrentando o FMI, credores, mercado financeiro e investidores estrangeiros ? não renderia frutos positivos para um país que perdeu 20% de sua economia em quatro anos de grave crise e chegou a ter mais de 50% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza.

O presidente argentino se respalda em números, que desafiam a lógica ortodoxa. Lá, a taxa de investimento produtivo é de 23% do PIB ? maior do que a brasileira, estacionada em 20% há vários anos. E isso apesar de uma inflação que é quase o triplo da nacional. Em 12 meses, os preços subiram 12% na Argentina e, ainda assim, os empresários continuam investindo no aumento da produção. Graças a isso, foram criados 2,5 milhões de empregos formais nos últimos três anos e a economia cresce em média 9% ao ano desde 2003. ?Existe uma notável recuperação do investimento?, afirma o ex-ministro de Planejamento Juan Llach. No ano passado, o investimento em formação de capital fixo (aquele que estimula a economia real) somou 60 bilhões de pesos. Junte-se a isso os quase 10 bilhões que foram empregados pelo setor público ? que vem elevando numa média de 50% ao ano os gastos com habitação e serviços prestados à população, como saúde e educação. ?Apesar desses números pujantes, o investimento de qualidade é pequeno?, rebate o economista Pablo Rojo, contestando o futuro do ?milagre? argentino. Ele lembra que a expansão da economia vivida até agora se sustenta porque a Argentina tem se beneficiado do cenário internacional favorável à compra de suas commodities agrícolas e a setores exportadores, como o automobilístico, que cresce em média 30% ao ano. ?Não há investimento em energia e a inflação não explodiu porque há controle de preços?, diz. Desde 2001, as concessionárias de água, esgoto, telefone e energia estão proibidas de elevar preços. Kirchner rebate: “É apenas uma forma racional de conduzir a economia?. Isso talvez explique o nível de popularidade do presidente, que no mês passado era de 80%, e que pode garantir sua reeleição.