Congele a imagem do apressado almoço de negócios. Aquele em que, entre uma garfada e outra, o celular não pára de gritar enquanto você fica de olho no relógio, já pensando no próximo compromisso. Agora, imagine um cenário idílico onde é garantido o direito ao prazer de apreciar com calma os aromas e sabores de uma apetitosa comida, regada a um vinho de qualidade. Sem pressa, a ordem é render-se ao deleite da boa refeição. É isso o que prega o movimento Slow Food, que defende a preservação dos rituais tradicionais da gastronomia. Criado há 14 anos por um grupo de intelectuais, liderados pelo jornalista italiano Carlo Petrini, o Slow Food surgiu em Bra, pequena vila no Piemonte, norte da Itália, em reação à proliferação das redes de fast-food, como McDonald?s, que invadiam a Europa naquele momento.

Numa espécie de cruzada contra o ritmo estressante da vida moderna, o movimento ultrapassou as fronteiras européias e hoje conta com 70 mil associados no mundo inteiro. A internacionalização começou em 1989, quando o Manifesto Oficial do Slow Food foi assinado em Paris por integrantes de vários países, como Espanha, França, Alemanha, Estados Unidos, entre outros. O Brasil foi representado por Venanzio Ferrari, que junto com Massimo Ferrari é dono de um dos mais sofisticados restaurantes de São Paulo, o Massimo. Provenientes da região do Piemonte, os irmãos Ferrari foram introduzidos ao movimento por um amigo italiano, que pertencia ao grupo desde o início. ?O que mais me encantou foi a preocupação em resgatar os prazeres da vida em contraponto ao ritmo frenético das grandes cidades?, diz Massimo Ferrari.

Ao ler o Manifesto Oficial do Slow Food é quase impossível não se encantar com a filosofia que acredita ?que boas doses de prazer, de divertimento lento e de longa duração evitam a contaminação pela multidão que confunde eficiência com frenesi?. Quem garante que ao trocar o almoço num restaurante por um rápido sanduíche, engolido às pressas, sem arredar o pé do escritório, você está sendo mais produtivo? ?A parada para a refeição é fundamental para recarregar as baterias e encarar o segundo tempo da jornada de trabalho?, afirma Venanzio Ferrari. Essa luta contra a vida apressada, segundo os seguidores do Slow Food, começa à mesa, mas não pára por aí.

A última novidade são as chamadas ?slow cities?, cidades italianas que resolveram abraçar a causa de forma mais efetiva. Algumas, como a pequena Bra, chegaram a atrasar o relógio em meia hora para imprimir um ritmo mais lento ao dia-a-dia dos 27.866 habitantes. A teoria do direito ao prazer da refeição se ramificou em várias direções. Atualmente há mais de 40 livros sobre o tema, além de guias com produtos e restaurantes que seguem o movimento, todos publicados pela própria editora do Slow Food.

A entidade também promove uma série de eventos, como degustação de vinhos regionais e de comidas feitas de forma artesanal com alimentos orgânicos. Por mais que os membros garantam que o Slow Food não pretende ser um movimento para a elite, a adesão aos hábitos alimentares da confraria não é para qualquer um. A começar pelos produtos artesanais, que custam, em média, 40% a mais do que os produzidos em larga escala. Além disso, nem todo mundo pode abdicar do lanche rápido e se refestelar numa longa refeição, em pleno dia de semana. Aos interessados em ingressar nesse mundo plácido e saboroso, eis uma dica: reúnam alguns amigos que também queiram resgatar as tradições da boa refeição e estancar a pressão da vida moderna, e crie um ?convivia?, grupo de convivência que deverá seguir os mandamentos do Slow Food através de jantares, degustações e da redescoberta de pratos regionais. Atualmente, já existem ?convivias? no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia. Para formalizar essa espécie de filial do movimento, basta solicitar a aprovação do comitê central do Slow Food e, a partir daí, ter acesso à programação e às novidades internacionais dessa turma que sabe como viver bem.