O crescimento do franchising brasileiro começa a revelar uma mudança no perfil de quem investe no setor. Mais do que uma alternativa para abrir o próprio negócio, a franquia passou a disputar espaço com outras formas de alocação de capital, especialmente em modelos com operação enxuta, automação e possibilidade de expansão por meio de múltiplas unidades.

No primeiro trimestre de 2026, as franquias movimentaram R$ 72,7 bilhões no país, alta de 10,1% em relação ao mesmo período do ano passado. Em 12 meses, o faturamento chegou a R$ 308,4 bilhões, avanço de 10,7%. O número de operações também cresceu: eram 204.908 unidades ao fim de março, 6.178 a mais que um ano antes, enquanto o setor empregava cerca de 1,788 milhão de pessoas.

Entre os segmentos acompanhados pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), Limpeza e Conservação apresentou uma das maiores taxas de expansão, com alta de 13,8% no trimestre. Segundo a entidade, o desempenho foi favorecido pelo avanço das lavanderias expressas e de autosserviço, além da procura por serviços mais convenientes e das mudanças no perfil das moradias urbanas.

É nesse mercado que a Lavanderia 60 Minutos, rede do Grupo Hi, vem ampliando sua presença. A companhia encerrou o período com 821 unidades ativas e outras 92 em implantação, totalizando 913 operações entre lojas abertas e em processo de expansão. Segundo dados da empresa, o faturamento anual chegou a R$ 200 milhões.

O crescimento modifica também a lógica de expansão da rede. Em vez de depender apenas da abertura de novas unidades por empreendedores individuais, o modelo passa a atrair investidores interessados em administrar mais de uma operação e distribuir o capital por uma carteira de lojas.

“O novo franqueado compara franquia com investimento. Ele quer saber qual é a eficiência da operação, qual é o suporte real da rede, se existe tecnologia para reduzir erros e se aquele negócio pode crescer além da primeira unidade. Quem não entrega inovação, tecnologia, praticidade e economia fica para trás”, afirma Isaelson Oliveira, fundador e CEO do Grupo Hi.

A escala alcançada pela rede ajuda a dimensionar esse movimento. Em abril, a Lavanderia 60 Minutos aparecia na 30ª posição entre as maiores franquias do país no levantamento da ABF, com 765 unidades. Desde então, a companhia informa ter ampliado a base para 821 operações em funcionamento.

A expansão ocorre em um segmento no qual a automação reduz a necessidade de mão de obra e permite que parte da operação seja realizada diretamente pelo consumidor. Para o franqueado, isso pode significar uma estrutura operacional diferente daquela encontrada em negócios tradicionais de varejo e serviços.

A tecnologia também passou a fazer parte da estratégia do Grupo Hi. A companhia desenvolveu soluções próprias para pagamentos, atendimento e operação das lojas, além de armários automatizados e produtos para o processo de lavagem. Entre as ferramentas estão o BolePix, sistema de pagamentos do grupo, e o HiChat, plataforma de atendimento baseada em inteligência artificial.

O movimento ocorre em um momento de maior seletividade do capital. Com juros elevados e crédito mais caro, o investidor que considera uma franquia precisa comparar o desembolso inicial e a perspectiva de retorno com outras alternativas disponíveis no mercado. Questões como prazo de retorno do investimento, margem, demanda, custos de implantação e despesas operacionais ganham peso na decisão.

Os próprios números do franchising mostram que a expansão não ocorre apenas pelo aumento da abertura de unidades. No primeiro trimestre, foram abertas 3,1% mais operações, enquanto os fechamentos representaram 1,6% da base, resultando em crescimento líquido de 1,5%.

Para as redes, o desafio passa a ser transformar a expansão em produtividade. Isso exige oferecer aos franqueados não apenas uma marca e um modelo de negócio, mas também tecnologia, gestão de fornecedores, manutenção, meios de pagamento, treinamento, marketing e acompanhamento de indicadores capazes de sustentar operações maiores.

“Com juros altos, ninguém pode vender franquia apenas com promessa de faturamento. O investidor quer uma equação completa: custo de implantação, previsibilidade de demanda, automação, suporte, dados e possibilidade de abrir novas unidades sem multiplicar complexidade na mesma proporção”, afirma Oliveira.

A estratégia do Grupo Hi inclui ainda a expansão da Lavanderia 60 Minutos para outros mercados. A companhia afirma ter encerrado 2024 com quase 3 milhões de clientes fidelizados, faturamento de R$ 150 milhões e 890 unidades ativas — números que refletem uma base operacional diferente da informada atualmente pela empresa e que indica a velocidade de expansão do negócio. O grupo também mantém planos de chegar a 1.400 lojas até o fim de 2026 e avançar para mercados internacionais.

O objetivo de longo prazo é transformar a rede em uma operação de maior escala. A companhia projeta alcançar valuation de R$ 1 bilhão nos próximos três anos e avalia a possibilidade de realizar uma oferta pública inicial de ações (IPO).

Mais do que o desempenho de uma rede específica, a expansão das lavanderias de autosserviço evidencia uma transformação no próprio franchising. Em modelos baseados em automação e recorrência, o ponto comercial deixa de ser o único ativo relevante. Tecnologia, marca, escala, dados e capacidade de replicar operações passam a fazer parte da equação que define o valor do negócio — e também o tipo de investidor que o setor pretende atrair.