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KHERLAKIAN: “Até 2010, estaremos presentes em mais de 180 lojas multimarcas”

RENATO KHERLAKIAN ANDA VAGAROSAMENTE ao redor da exuberante modelo, fitando cada centímetro do seu corpo. Ajusta os óculos sobre o nariz, agacha para medir o comprimento da barra, solta um pouco a cintura e dá os últimos retoques no quadril. Ele não emite um som. Calado, segue atento aos detalhes de sua cria, uma calça jeans que, como ele mesmo diz, é “de extrema qualidade”. A cena se passa em um pequeno escritório no 12º andar de um prédio comercial no bairro paulistano dos Jardins e nada lembra os tempos em que o estilista, hoje aos 59 anos, era considerado um dos homens mais poderosos da moda brasileira. Houve uma época em que Kherlakian, fundador da grife Zoomp, famosa pelo logotipo do raio amarelo, comandava mais de 800 funcionários e possuía metade das 84 lojas da marca espalhadas em dez países. Kherlakian ainda tem prestígio, mas seu atual negócio – que funciona com apenas oito funcionários – representa uma pequena fração do que ele teve no passado. Mas é um recomeço. Depois de ter vendido a Zoomp em 2006 para o grupo Identidade Moda, ter visto a marca que criou afundar com pedido de falência decretado na segunda semana de fevereiro, ter ficado dois anos fora do mercado e ainda ter levado o calote dos compradores, Kherlakian volta às origens. Na próxima semana, ele inaugura a RK Denim, uma grife de jeans premium para mulheres. “O plano é estar em 180 lojas multimarcas até o fim de 2010”, disse Kherlakian à DINHEIRO (leia entrevista na página 71).

Para voltar ao universo fashion, Kherlakian investiu R$ 1,5 milhão e contará com a ajuda das fabricantes de roupas Conasc e Rayleusa. O novo alvo de Kherlakian são as mulheres, mas não todas. Suas calças, cujos preços vão de R$ 450 a R$ 750, serão fabricadas para silhuetas que se encaixem entre os números 34 e 42. As matérias-primas são a sarja e o denim, misturados a fios importados do Egito e lycra brasileira. Já as etiquetas são de cristais Swarovski ou de couro com o logo da RK bordado à mão. As primeiras butiques a receber as peças da nova marca de Kherlakian são a Daslu e a Jeans Hall, em São Paulo; a Via Flores, no Rio de Janeiro; Marta Paiva, em Salvador; e a Bazar, em Curitiba. Ele não pretende ter loja própria tão cedo. “Ainda tenho que consolidar a marca”, diz o estilista. A coleção, de 45 calças, foi dividida em três linhas. A primeira, Miss Bardot, é inspirada na atriz francesa Brigitte Bardot, em especial na sua imagem dos anos 60. A segunda, batizada de Miss Taylor, vem de um conceito de alfaiataria, conforme o nome sugere em inglês. Já a terceira, a Miss Privê, é para mulheres magras que ostentam corpo definido. “Renato Kherlakian é uma figura carismática. Ele tem muito acesso a investidores e lojistas, o que aumenta a chance de a marca dar certo”, afirma André Robic, diretor executivo do Instituto Brasileiro de Moda.

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LOJA DA ZOOMP: no auge, a grife chegou a ter 84 endereços no Brasil e presença em mais dez países. Hoje, os pontosde- venda sofrem com a falta de produtos e estoque

 

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OS HOMENS DO IDENTIDADE MODA: Conrado Will, Vicente Mello e Enzo Monzani (da esq. para a dir.) fizeram estardalhaço ao comprar as principais marcas do País

O retorno do estilista ao mercado é quase um grito de liberdade. Durante os últimos dois anos, Kherlakian ficou impossibilitado de trabalhar no setor, devido ao contrato que havia firmado com a Identidade Moda. “Fiquei dois anos como consultor sem ter sido consultado para nada”, diz o estilista, com uma ponta de mágoa. Kherlakian e o sócio Álvaro Neiva venderam a Zoomp para o grupo Identidade Moda, dos empresários Enzo Monzani e Conrado Will, pois a Zoomp e a Zapping, grife de moda jovem, possuíam uma dívida de R$ 130 milhões. Pelo acordo, os empresários honrariam as dívidas e ainda pagariam R$ 56 milhões a Kherlakian. “Quando vendi a marca, achava que estava em uma situação difícil”, desabafa. “Mas aquilo era um guaraná em festa infantil diante dessa gafieira de malandros do morro do Rio”, diz Kherlakian, referindo- se à empresa que comprou a Zoomp. Do dinheiro que tinha a receber, só R$ 1 milhão entrou na sua conta. A imagem e os negócios da Zoomp, por sua vez, só pioraram. Estima-se que a Zoomp tenha um rombo de mais de R$ 200 milhões e cerca de 2,5 mil protestos na Justiça. “Estou fechando minhas lojas da Zoomp, pois sinto insegurança em relação ao futuro”, conta Jorge Saad, dono de duas filiais em Curitiba, no Paraná. A lista de reclamações é longa. Após a venda, profissionais experientes foram substituídos por outros sem vivência de mercado. Logo, as coleções ficaram menos variadas e os pedidos de entrega começaram a se perder pela corporação. A falta de transparência nas operações também é um ponto lembrado pelos lojistas, que ficam sabendo das ações das empresa através da imprensa.

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O Identidade Moda surgiu com estardalhaço e promessas de criar o maior grupo de moda do País. A Zoomp foi a primeira grife a ser comprada pelo grupo e por trás do investimento estava a administradora de fundos Global Capital, que possui ativos de R$ 1,5 bilhão. Ao longo de 2007 o grupo negociou com outras etiquetas como Alexandre Herchcovitch, Fause Haten, Cúmplice e Clube Chocolate. A desconfiança veio quando, em março de 2008, Paulo Junqueira, da Cúmplice, exigiu garantias dos R$ 6 milhões pela compra de sua marca. Como as garantias não vieram, uma a uma, as empresas recém-adquiridas saíram do grupo. Algumas delas com prejuízo. O estilista Fause Haten, por exemplo, perdeu o direito de usar seu nome e teve que fundar uma outra marca denominada FH. Entre as várias acusações contra Enzo Monzani, Conrado Will e Vicente Mello, este último o ex-CEO do Identidade Moda, a mais leve é a de incompetência na administração do grupo. “Sabe quando você percebe que o sujeito que o levou para dançar era um canalha? Provavelmente quando você já estava de banho tomado”, diz Kherlakian.

Diante de tantos problemas, a Global Capital exigiu a saída de Monzani e Will da direção do grupo como condição para um aporte de R$ 50 milhões. Mas não foi suficiente. Um dos credores da Zoomp, a Allen Comércio e Produtos de Informática, processou a marca para receber uma dívida de R$ 423 mil. No dia 6 de fevereiro, a empresa ganhou o processo em primeira instância e foi decretada a falência da Zoomp. Os administradores da Global Capital, entretanto, conseguiram suspender a decisão. “A empresa não está em processo de falência e nem perto disso. Desde que entramos, mais de R$ 70 milhões já foram pagos e parte das dívidas negociadas”, afirma Julius Buchenrode, diretor da Capital Global, que pretende ficar na Zoomp até 2012, quando os investidores acreditam recuperar os gastos. Essa é uma tarefa dificílima, pois a Zoomp não nem de longe o prestígio que possuía. No fim dos anos 80, a grife foi fundamental no processo de trazer glamour ao jeans. “Tudo isso foi uma infelicidade, mas a ideia de aproximar o mundo financeiro com a moda continua interessante”, aposta Gloria Kalil, especialista em moda. “Não existe mais a Zoomp que conhecemos. Temos, sim, é o Renato recomeçando”, diz.

“Vivi uma crise existencial, depressiva e financeira”
Em entrevista à DINHEIRO, o empresário Renato Kherlakian revela os planos de sua nova marca e conta como foi o período em que entrou em depressão após a venda da Zoomp

DINHEIRO – Como será a RK Denim?
RENATO KHERLAKIAN – Será uma marca premium de jeans para mulheres. Apresentaremos calças com qualidade superior ao que vem sendo apresentado no mercado.

DINHEIRO – A crise financeira mundial se apresenta como um obstáculo em seu novo negócio?
KHERLAKIAN –
Em todos esses anos, pude vivenciar várias crises. Mas a maior crise de todas foi a que passei, nos últimos dois anos, vendo a Zoomp perder todo o seu potencial. Entrei em uma crise depressiva, existencial e financeira. O período em que fiquei lá, só cumprindo contrato de não competição com a própria Zoomp, foi o mais forte que eu vivi e superei. Já a crise do mercado financeiro pode ser encarada como um alerta para que enxerguemos as necessidades mais urgentes do que a busca obsessiva pelo dinheiro.

DINHEIRO – Neste contexto, como ficará o mercado de luxo?
KHERLAKIAN – É possível que haja uma revisão do mercado de luxo. Talvez com valores mais brandos. Uma bolsa de R$ 12 mil que não dá para usar na estação seguinte não é o mercado de luxo. Ter um par de sapatos do estilista Manolo Blahnik virou quase como comprar carne no açougue. Tudo está muito banalizado. Estou interessado em um mercado de mais qualidade, com mais requinte e um tempo de vida maior para os produtos.

DINHEIRO – O que o sr. traz de experiência da Zoomp?
KHERLAKIAN – Trago a minha pessoa, minha capacidade de marketing, de estratégia e de boa visão de mercado. Agora, estou indo na contramão do mercado, prezando pela qualidade, pelo requinte e absoluto conforto.

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DINHEIRO – O que o sr. sentiu com as notícias de falência da Zoomp?
KHERLAKIAN – Meus advogados é que estão sentindo. Não tenho nem lágrimas e nem palavras. É uma perda lamentável. Ninguém imaginaria que um império gigante como foi a Zoomp pudesse ter este fim.

DINHEIRO – Por que o sr. vendeu a Zoomp em 2006?
KHERLAKIAN – Meu projeto sempre foi perpetuar a marca Zoomp. Quando me vi numa situação que era complicada, a ideia de vender me pareceu extremamente favorável.

DINHEIRO – Quando o sr. percebeu que havia feito um mau negócio?
KHERLAKIAN – Eu vendi a empresa no dia 14 de julho de 2006 e, de lá até bem pouco tempo atrás, foram mais de 2.500 protestos. Sabe quando você percebe que o sujeito que o levou para dançar era um canalha? Provavelmente quando você já estava de banho tomado.

DINHEIRO – O sr. acredita na possibilidade de que os investidores queriam vender a marca? KHERLAKIAN – Um grupo de ladrões para assaltar um banco tem um planejamento extraordinário. Agora parece que este assalto não foi nem bem planejado, sem armas e muito menos munições para reagir. Talvez tenha sido um golpe fracassado. Não creio que tinham nenhum plano consolidado. Se eles pensaram em vender a marca por um preço maior do que pagaram, foi realmente um plano infantil.

DINHEIRO – Mas após a venda o sr. ainda ficou na Zoomp.
KHERLAKIAN – Fiquei dois anos lá dentro. Eu tinha um contrato em que eu não podia competir com eles. Mas nunca fui consultado para nada.

DINHEIRO – O sr. acha que conseguiria viver longe do mundo da moda?
KHERLAKIAN – Acredito que não. Tenho um fascínio pela estética, pela evolução, pelo exercício do bom gosto. Não só na moda, mas acho que o bom gosto tem de ser praticado diariamente: na culinária, no conforto, no bem-estar. Talvez seja um vício para o qual eu não tenha nenhum remédio ou motivo para me afastar.