02/07/2008 - 7:00

CENA DA CITY: crise do subprime chegou até o distrito financeiro de Londres
O MERCADO FINANCEIRO DE LONDRES é um dos mais movimentados do mundo. Pela famosa City of London, um pequeno quadrado na capital do Reino Unido, passam cerca de 20% de todos os empréstimos feitos no planeta. Lá, são negociadas 30% de todas as transações com moedas. Todo financista inglês nascido depois dos anos 80 do século passado diz que a taxa de juros mais importante do globo é a Libor. Provavelmente, eles estão certos, já que a principal concorrente americana, a prime-rate, anda em baixa com a crise do subprime. O problema é que a própria Libor está sob suspeita. O motivo? A crise das hipotecas de alto risco, que tem ceifado o lucro dos bancos nos Estados Unidos e na Inglaterra nos últimos meses. Diariamente, a Libor é divulgada pouco antes do meio-dia pela British Banker’s Association (BBA), associação que reúne os banqueiros britânicos. Sigla de London Interbank Offered Rate, é a taxa média de juros dos empréstimos de um banco para outro. No Brasil, seria representada pelo CDI. Às 11 da manhã, 16 bancos informam seus números à BBA, que faz as contas e divulga a Libor em diversos prazos e em dez moedas diferentes. E o que uma simples taxa interbancária tem de tão importante?

“As mudanças vão fortalecer ainda mais a Libor e a confiança de seus usuários” ANGELA KNIGHT, EXECUTIVA-CHEFE DA ASSOCIAÇÃO DOS BANQUEIROS BRITÂNICOS
Uma dica: a Libor é usada como indexador de referência para empréstimos e contratos e influencia o valor de dívidas de US$ 350 trilhões. Afeta a vida de bancos e empresas internacionais. Ou seja, o meu, o seu, o nosso bolso. Muitas companhias brasileiras têm compromissos financeiros atrelados à Libor. Se ela sobe ou desce, todas são afetadas. “É óbvio que a Libor é importante para as pessoas no Brasil”, diz o financista britânico Stephen Rose, sócio da LatinCo, que aproxima investidores ingleses de empresas no Brasil.
Tudo ia muito bem com a Libor até que a crise do subprime levantou suspeitas nos mercados de Londres e Nova York de que os bancos não estavam informando os dados corretos à BBA. A lógica da trama é a seguinte: as instituições financeiras com sérios problemas de crédito (hipotecas de alto risco e nenhum valor) devem estar pagando mais caro para tomar recursos emprestados, já que o dinheiro é covarde e cobra pelo risco adicional. Mas a Libor não subiu tanto quanto se esperava em alguns casos. Logo, as taxas informadas à BBA não estariam refletindo a realidade. Em outras críticas, ouviu-se que a Libor subiu demais em dólares, já que os bancos europeus com problemas de crédito tomaram mais empréstimos nos EUA. “Teme-se que a Libor esteja sendo distorcida pelos efeitos da crise de crédito”, explica Rose. É um problema que pode colocar em xeque a legalidade de trilhões de dólares em operações que não têm nada a ver com o subprime – inclusive empréstimos e emissões de empresas com sede no Brasil.

Os ingleses bem que tentaram manter a fleuma. As primeiras reportagens sobre o assunto foram publicadas nos Estados Unidos pelo diário financeiro The Wall Street Journal. No início, a BBA negou que iria fazer algo a respeito. Mas no dia 10 de junho, vencida pelos fatos, a associação dos banqueiros anunciou mudanças para resgatar a credibilidade da Libor. A idéia é aumentar o número de bancos que informam suas taxas e policiar melhor a veracidade dessas informações. “A Libor passou no teste do tempo e, desde 1985, é um dos índices mais transparentes do mundo”, afirmou a principal executiva da BBA, Angela Knight. “As mudanças vão fortalecer ainda mais a Libor e a confiança de seus usuários.” Por via das dúvidas, a corretora londrina Icap anunciou o lançamento de uma nova taxa de captação, a NYRF Fixings. Será páreo para a Libor?