Um sobrenome de peso pode representar muito mais que apenas tradição. Para algumas das mais poderosas e influentes famílias, a força do nome sempre significou também um método próprio de administrar fortunas e transmiti-las às novas gerações. Assim foi com os Rockefeller, nos Estados Unidos, e com os Prado, no Brasil. Duas dinastias e o mesmo roteiro: riqueza construída com base em formação educacional elitista, vasta rede de relacionamentos, casamentos arranjados e dedicação à filantropia. A história da família Rockefeller, cujo patrimônio foi iniciado com petróleo no século XIX, é um paralelo perfeito da evolução econômica e política recente dos EUA, contada pelo magnata David Rockefeller em seu recém-lançado livro Memórias (Editora Rocco, 536 páginas, R$ 59). A exemplo dos americanos, a riqueza da família Prado, de São Paulo, foi baseada numa commodity, o café, que fez dos herdeiros comerciantes e políticos influentes entre os séculos XVIII e XX. Sua história está no livro Dona Veridiana ? A trajetória de uma dinastia paulista, do jornalista Luiz Felipe D?Ávila (Editora A Girafa, 496 páginas, R$ 56).

 

Um dos aspectos centrais para o sucesso das dinastias passa pela educação e cultura de seus representantes, que usam suas relações sociais privilegiadas para ter uma visão de mundo pluralista. A mansão Rockefeller em Nova York era freqüentada por intelectuais, empresários e políticos, o que deu aos herdeiros familiaridade com os círculos mais altos do poder. David desde a infância conviveu com personalidades de sua época, como o célebre economista John Maynard Keynes. A formação educacional também foi um trunfo dos Prado. Havia uma grande diferença entre eles e o restante da elite da época: a isenção na educação dos filhos em relação ao sexo. Estavam, nesse capítulo, à frente de seu tempo. ?Antonio Prado admirava as mulheres de personalidade forte e tinha horror à idéia de educar uma filha para se tornar criada de luxo do marido?, diz D?Ávila em seu livro. A admiração pela força feminina não excluía, é claro, o incentivo aos casamentos arranjados e às uniões estáveis. O divórcio é pecado capital na lei dos endinheirados. O pai de Veridiana Prado, a mecenas e a dama dos salões lustrosos, casou-a com o tio, Martinho da Silva Prado, para evitar que seu poder e dinheiro fossem divididos. Ele tinha 27 anos e ela, 13. O político Nelson Rockefeller foi duramente criticado pelos irmãos por ter se separado de sua primeira esposa.

Ambas as dinastias parecem ainda perenemente fadadas a uma noção de dívida com a sociedade. Entre os Rockefeller, essa preocupação transformou-se em atividade filantrópica, que John Rockefeller I chamava de ?a arte de doar? e permitiu a construção do acervo de museus como o MoMa, em Manhattan. Seu conceito era de que as atividades de benemerência não deveriam tratar os sintomas de problemas sociais e sim eliminar suas causas. Entre os Prado, o mesmo senso de dever era reivindicado. Veridiana Prado patrocinou cientistas, intelectuais, artistas e atletas. Também promoveu um concorrido salão cultural em São Paulo, que contribuiu para transformar a provinciana cidade numa capital cosmopolita. É um legado que extrapola o valor do saldo bancário, mesmo que este
seja dos mais polpudos. Entender os caminhos dos Rockefeller e
dos Prado oferece algumas boas lições para quem pretende
ganhar muito e perder pouco.