“Não podemos dirigir nossos times, nem nossas empresas e, muito menos, nossas vidas e carreiras olhando pelo espelho retrovisor!”. Com essas palavras, cortei uma longa pergunta de um dos participantes da reunião de diretoria de um cliente, logo após o jogo derradeiro da seleção na Copa, que me questionava sobre quais erros Tite teria cometido para causar o fiasco no Catar. Para não ser indelicado disse que poderia enumerar erros na convocação, na escalação do time, nas substituições feitas durante as partidas e nas táticas de jogo, bem como no apadrinhamento de certos jogadores e paternalismo provinciano do treinador. Porém, deixei claro que preferia focar no futuro. Também expliquei que em meu novo livro, “Passaporte para o Futuro”, advogo a tese de que não podemos viver de nostalgias ou, tampouco, “ficar chorando o leite derramado”.

Sucessão, mentoria e estratégia andam de mãos dadas

Precisamos, sim, olhar pra frente e pensar em como fazer a travessia visando chegarmos à Copa de 2026 mais competitivos, evitando repetir as derrotas nos últimos cinco certames mundiais. Sugeri, então, ao meu interlocutor na reunião da empresa, três iniciativas que podem ajudar a carimbar o passaporte para o futuro da seleção brasileira de futebol:

1. Investir fortemente na nova geração de talentos muito promissores, que já despontaram nessa Copa e em alguns times: Rodrygo, Vini Jr, Richarlison, Martinelli e Paquetá, além daquele que me deixou sem palavras e sem fôlego ao vê-lo atuar por apenas dez minutos com a camisa do Palmeiras – o fenômeno – Endrick, dentre vários outros. Precisamos investir nessa turminha não apenas enquanto craques de futebol, mas como cidadãos, responsabilizando-os para assumirem atitudes que os blinde das tentações do sucesso, que têm destruído a carreira de muitos craques ao se deslumbrarem, passando a valorizar mais o corte do cabelo, os piercings, os penduricalhos e a cor das chuteiras do que o futebol em si;

2. Identificar um treinador mais moderno que os últimos e conhecedor, de fato, do futebol na arena global. Alguém mais cosmopolita e com autoridade técnica, mas também elevado índice de inteligência emocional. Perdemos as quartas de final
para França, Holanda, Bélgica e Croácia, além de termos chegado à semifinal contra a Alemanha, jogando em casa, em uma partida que seria preferível apagar da nossa história nos mundiais. Qual o fator comum a essas derrotas em cinco Copas consecutivas? (Qual é a resposta? Seria contar com um treinador brasileiro?) Podemos romper o tabu e trazer um técnico estrangeiro para aportar oxigênio novo no nosso esquadrão. Penso em Pep Guardiola, no Mourinho ou Jorge Jesus, que seriam bons candidatos. Não vejo nenhum técnico brasileiro ou atuando no Brasil, no momento, com a estatura que nossa Seleção exige. Abel Ferreira que me perdoe, mas ser bom não é suficiente. Precisamos do Ótimo!

3. Transformar nossos clubes em Sociedades Anônimas de Futebol (SAFs). Só assim vamos profissionalizar a gestão dos nossos times e aposentar os tradicionais “cartolas” – aqueles espertos navegando amadoristicamente numa estrutura de
associativismo clubístico que precisa ser superada. Muitos outros fatores poderiam ser enumerados, mas essas três iniciativas já fariam uma revolução e trariam oxigênio novo para revitalizar um modus operandi que funcionou, mas numa realidade que não existe mais. Precisamos mudar rapidamente se desejamos ver o futebol brasileiro e nossos clubes voltando a brilhar na arena internacional.  Adicionalmente, os pontos enumerados podem servir de metáfora inspiradora para alguns empreendedores, com necessidade de virar o jogo se desejam garantir o amanhã das suas empresas. De novo as três premissas: cuidar dos novos talentos; escolher líderes que façam a diferença; e profissionalização cada vez maior nas suas empresas. O esporte é uma poderosa fonte de aprendizagem para o mundo dos negócios e para os líderes empresariais

* César Souza é presidente da Empreenda, consultor e palestrante em Estratégia, Liderança, Clientividade e Inovação. Mentor de diversos CEOs e dirigentes do C-Level. Autor de diversos bestsellers, acabou de lançar o livro “Passaporte para o Futuro”, pela Editora Record, selo Best Business.