Se você investe no mercado acionário é bem provável que já tenha passado pela dúvida cruel para escolher entre uma ou outra ação. O dilema fica maior ainda quando a aplicação é de longo prazo. É justamente nesta hora que muitos investidores se esquecem de considerar o índice de liquidez. Afinal, eles não pretendem comprar e vender com freqüência. Porém, em qualquer situação, quem olha apenas o preço e o potencial de valorização pode sair perdendo. Segundo estudo da Economática, empresa de dados financeiros de São Paulo, do total de 405 papéis presentes na Bovespa, apenas 37 participaram de todos os pregões realizados nos últimos três anos (desde de 20 de novembro de 98 à mesma data de 2001). O número mostra que poucos conseguiram a proeza de ser negociados diariamente. No entanto, o seleto grupo rendeu grandes lucros. Para se ter uma idéia, quem montou uma carteira apenas com as ações que tiveram 100% de presença na Bolsa passou ileso pelas quedas do índice. No final do período, acumulou rendimento médio de 129,4%. Ou seja, ganhou mais que o dobro do Ibovespa, que ficou com 50%.

Das 37 ações com 100% de liquidez, a grande maioria (30) teve desempenho positivo. Apenas sete fecharam no vermelho nos últimos três anos. Assim, em maior proporção as rentáveis puxaram os lucros para cima. Do grupo, a campeã de rentabilidade foi a Tele Nordeste Celular ON, que acumulou ganhos em reais de 570% e teve média diária de negócios de R$ 531 mil. Em seguida, vem os papéis da Gerdau PN com lucro de 389%. Depois, mais duas de telecomunicações, a Tele Nordeste Celular, que valorizou 347% e a Telemar ON, 252%. Do total das 30 ações mais líquidas que fecharam no azul, dez foram de telefonia.

Porém, por ser o setor com mais papéis e volatilidade no pregão da Bovespa, as telecomunicações foram marcantes também na lista dos prejuízos. Entre as sete ações mais líquidas que acumularam rentabilidade negativa nos últimos três anos, cinco são de telefonia (Tele Sudeste Celular PN, Embratel Participação ON, Telesp Celular Participação ON e PN e Embratel ON). No período, a pior performance foi da Embratel ON. Nem mesmo o grande volume de negócios diários, de R$ 13 milhões, foi suficiente para amenizar a queda de 53,2%.

Petrobras. Depois de conhecer os papéis mais líquidos da Bolsa, você deve estar se perguntando por que a principal blue chip, a Petrobras, não aparece na lista ? mesmo tendo o maior volume de negócios. O motivo é simples. No período, o papel faltou a um pregão, quando a empresa, em 98, solicitou a suspensão dos negócios. Por isso, a sua participação caiu para 99% de presença. A irrisória ausência, é claro, em nada prejudicou o seu rendimento, que chegou 197,7% no acumulado dos últimos três anos.

Os números retratam que não é só a perspectiva de valorização que interfere nos investimentos acionários. ?Entre duas ações com o mesmo potencial de alta, a mais líquida sai ganhando. A falta de liquidez é um fator de risco descontado do preço?, explica Alexandre Póvoa, diretor de investimento do ABN Amro Asset Management. Afinal, quando você compra um papel com maior volume de negócios, se o desempenho não corresponder às suas expectativas, poderá se desfazer da posição facilmente. O mesmo não acontece quando o número de transações é pequeno, e por isso vira um empecilho. Afinal, dificilmente a ação irá atingir o valor ideal se não há investidores comprando e vendendo.

Outro ponto a favor das mais negociadas, enumera Póvoa, é a participação dos estrangeiros. ?É a porta de entrada dos investimentos internacionais.?Assim, com os cobiçados parceiros, o risco de perda diminui. Diante dos números, a conclusão é que o indicador de liquidez sempre precisa ser considerado. Mesmo se você deixar o papel guardado na carteira por muitos anos, o mercado se encarregará de ajustar o preço.