Vêm aí mais uma empresa e um novo setor para a Bolsa de Valores. A Localiza, líder do mercado de locação de automóveis, prepara-se para abrir seu capital. Vai lançar 21,477 milhões de ações com direito a voto no chamado Novo Mercado, área nobre da Bovespa com regras mais rígidas para o relacionamento com acionistas minoritários. A largada para o processo foi dada no último dia 15, quando a companhia mineira protocolou na CVM um pedido de autorização para emitir os papéis. A expectativa é de que o ?ok? seja dado dentro de um mês. Até lá, a Localiza espera concluir uma operação preliminar considerada determinante para o sucesso da abertura de capital: o lançamento de debêntures no valor de R$ 350 milhões. Impedidos pelas regras da CVM de falar publicamente sobre a emissão de ações, os controladores da companhia, José Salim Mattar e Antônio Cláudio Resende, embarcaram na semana passada para um encontro com seu sócio estrangeiro, um fundo de investimentos administrado pelo Credit Suisse First Boston, que detém um terço do capital da Localiza. O local da reunião não foi revelado, mas sabe-se que a pauta seria dominada pelos acertos finais para a emissão das debêntures, movimento que definirá com que cara a companhia se apresentará ao mercado.

Hoje, o passivo é grande o bastante para assustar os investidores. A dívida líquida da empresa passou de R$ 340 milhões em 2003 para quase R$ 500 milhões no ano passado. O salto é creditado, principalmente, aos investimentos na ampliação de sua frota de carros, que totalizaram R$ 654 milhões em 2004. Embora preocupe, o aumento do endividamento da empresa é reversível. Com os R$ 200 milhões que tem disponível em aplicações financeiras somados aos R$ 350 milhões que pretende captar com o lançamento das debêntures, a Localiza calcula que poderá pôr suas contas em ordem antes da estréia no pregão. ?A dívida, tal como está hoje, não chega a ameaçar a companhia. Mas, se ela conseguir sucesso com as debêntures, terá melhores chances de conseguir um bom preço por suas ações?, avalia Alexandre Póvoa, diretor do banco de investimentos Modal.

Dívida à parte, os últimos números da companhia são bons. Seu faturamento cresceu 19% em 2004, chegando a R$ 638 milhões. Com isso, o lucro aumentou 59%, batendo em R$ 102 milhões. ?A Localiza tem duas qualidades fundamentais para os investidores em Bolsa: alta geração de caixa e significativo retorno sobre patrimônio?, nota Póvoa. Estes dois indicadores, junto com a opção pelo Novo Mercado, agradam aos analistas de investimentos. Mas não são suficientes para eliminar todas as dúvidas diante da chegada à Bolsa de uma empresa de um setor desconhecido dos investidores e considerado ?nebuloso? por quem o analisa. Por isso, qualquer estimativa sobre qual será o valor de mercado da Localiza é considerada chute. ?Não temos referência na Bolsa para avaliar o preço da empresa?, afirma Haroldo Levy Neto, presidente da seção paulista da Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais). De todo modo, em um meio como o mercado de locação de automóveis, em que informações básicas como participações de mercado e até faturamentos são mantidos em segredo ou viram objeto de controvérsia entre os concorrentes, a Localiza tem pontos importantes a seu favor. A companhia já divulga balanços conforme as regras da CVM e conta com auditoria independente desde 1997, quando abriu espaço para o sócio estrangeiro. O verdadeiro grau de confiança do investidor, porém, só será conhecido dentro de alguns meses, quando a Localiza debutar no mercado.

A MAIOR DO SETOR
Dados financeiros da Localiza em 2004

Faturamento R$ 638 milhões
Lucro R$ 102 milhões
Dívida R$ 500 milhões