06/03/2014 - 20:37
Londres, o refúgio preferido dos multimilionários russos, teria muito a perder em caso de sanções à Rússia por sua ingerência na Ucrânia, consideram os analistas. “As sanções contra a Rússia poderiam prejudicar Londres e, portanto, a Grã-Bretanha, porque Londres é o coração da economia britânica”, considerou Joshua Raymond, da City Index. O país seria afetado “porque, em primeiro lugar, uma quantidade considerável de ativos russos se encontra na Grã-Bretanha”, disse o analista. As grandes empresas de hidrocarbonetos Gazprom, Rosneft ou Lukoil, a operadora de telefonia celular MegaFon ou o banco Sberbank, são algumas das 70 empresas russas que são cotadas em parte na bolsa de Londres. As luxuosas residências de Kensington e Chelsea, cuja equipe de futebol pertence ao magnata Roman Abramovich, são o lar de muitos russos. A grande presença russa já tinha sido objeto de um reality show, “Meet the Russians” (Conheça os russos). Segundo um estudo publicado recentemente pelo fabricante de jatos privados Beechcraft Corporation, os russos são os primeiros no pódio dos estrangeiros que, em 2013, compraram um bem imobiliário superior a um milhão de libras. Duzentos e sessenta e quatro russos gastaram 650 milhões de euros. “Se esses ativos ficarem congelados” pelas sanções “e os russos não puderem comprar bens imobiliários em Londres, isso colocaria fim a uma das fontes da bolha de preços de Londres, pondo em perigo o preço dos bens” da capital e correndo o risco de se formar uma bola de neve que acabe afetando a economia britânica em conjunto, alertou Joshua Raymond. – Não fechar a City aos russos – Seria tudo isso um bom motivo para que o governo de David Cameron tente evitar sanções que possam afetar a City? Isso parece se deduzir do documento de um de seus conselheiros, que foi fotografado com zoom diante de Downing Street: o governo “não teria que apoiar, no momento, sanções comerciais (…) ou fechar o centro financeiro de Londres aos russos”, dizia o texto. Uma visão compartilhada pela comunidade financeira. “Têm que proteger o mercado imobiliário, têm que proteger a City de uma forma ou de outra”, considerou Ishaq Siddiqi, da ETX Capital. Para silenciar as críticas que poderiam provocar um país mais interessado em seu distrito financeiro que no direito internacional, o ministro das Relações Exteriores, William Hague, disse na terça-feira no Parlamento que esse documento “não é necessariamente uma guia das decisões que o governo de Sua Majestade tomará”. “Nossas opções neste tema continuam muito abertas”, afirmou. Se forem evitadas as sanções e a situação na Ucrânia continuar igual, Londres poderia sair até beneficiada, porque a instabilidade poderia fazer com que mais ricos russos e ucranianos se voltassem para a capital britânica, anteciparam os analistas. Seria “algo bom para o mercado londrino”, cujos “preços continuariam aumentando”, considerou Ishaq Siddiqi. “O mercado imobiliário londrino parece ser ‘o lugar’ para os oligarcas russos”, um refúgio, e “muitos russos veem Londres como a segunda cidade depois de Moscou”, explicou Siddiqi. “O que vamos ver é uma intensificação” deste fenômeno com “a chegada de capital fresco”, projetou. A queda do rublo, que se acentuou com a crise ucraniana, provocou nos últimos meses fugas em massa de capital da Rússia, lembrou o analista. Segundo um relatório do grupo imobiliário britânico Knight Frank, 37% dos ricos da Rússia e das antigas repúblicas soviéticas querem mudar de país e de residência, por 15% em média em outros países. E seu destino favorito é a Grã-Bretanha. mg/dh/rhl/al/me/mv