10/12/2003 - 8:00
As largas avenidas e os arranha-céus de Dubai, a maior zona franca do mundo, um porto capaz de receber mais de 100 petroleiros, e o hotel Burj al Arab de Jumeirah, cuja arquitetura lembra um veleiro ancorado em pleno mar, são os sinais mais evidentes de um mercado bilionário ? e ainda inexplorado pelas empresas brasileiras. Nos Emirados Árabes, a opulência e o fausto surpreendem até mesmo os que se deixaram encantar pela fantasia das Mil e Uma Noites. Nas joalherias, o ouro é negociado a peso, de acordo com a cotação do dia ? no Jumeirah, vende-se até um casaco todo dourado, cravejado de diamantes.
Nas ruas, só se vêem jipes 4×4 chamados de Land Cruiser, que rodam no asfalto e nas areias do deserto. E um dos novos projetos de Dubai, a cidade mais rica dos Emirados, é a construção de uma ilha artificial, Palm Islands, onde serão erguidas novas torres comerciais e mansões para os milionários. É neste pequeno país onde o sol brilha durante 363 dias por ano, com renda per capita oficial de 18 mil dólares e estimada em 35 mil dólares (a ausência total de impostos impede uma contabilização mais precisa), que se consolida uma etapa crucial da política externa brasileira: a aproximação com o mundo árabe. ?O Brasil será a porta de entrada para os países árabes na América Latina?, disse Lula em Damasco, primeira etapa de sua viagem, ao encerrar um seminário comercial sírio-brasileiro. O presidente convidou os líderes árabes para uma conferência com seus colegas latino-americanos em 2004 e sugeriu a formação de um bloco econômico intra-regional. ?Podemos criar um bloco capaz de se fazer notar no mundo globalizado?, enfatizou o presidente, que, depois de ir à Síria e ao Líbano, desembarcou nos Emirados no sábado 6. Até 11 de dezembro visitará também o Egito e a Líbia. ?A relação comercial com os árabes pode ser dividida em duas etapas: antes e depois de Lula?, reforça Flávio Sapha, embaixador em Abu Dhabi, capital dos Emirados.
A comitiva de Lula, com nada menos que 130 empresários, compõe a maior missão comercial de toda a história do País. Hoje, dos US$ 150 bilhões que os países árabes importam por ano, apenas US$ 2,6 bilhões são produzidos no Brasil. E um estudo da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB) aponta espaço para um salto de 270% até 2006, com as exportações chegando a US$ 7 bilhões. ?Nos últimos dias, só se fala de Brasil por aqui?, garante Paulo Atallah, presidente da CCAB, que organizou a Semana do Brasil, em Dubai, que vai até a terça-feira 9 no Jumeirah, o hotel mais caro do mundo.
Um dos empresários é Ricardo Tavares, da Mais Indústria de Alimentos, que produz os Sucos
Mais. ?Os árabes adoram os nos-
sos sabores tropicais?, garante Tavares. Além das exportações,
o governo brasileiro espera trazer
na bagagem bilhões em investimentos. ?Eles têm disponibilidade de capital e nós oferecemos oportunidades em vários setores, como energia e petroquímica?, avalia o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, entusiasta da missão. A Sadia, empresa que Furlan pre-
sidiu, tem negócios com o Oriente Médio desde os anos 70
e vende mais de US$ 300 milhões para a região.
Além do aspecto econômico, a aproximação do Brasil com o Oriente Médio e com os países do Golfo Pérsico tem grande relevância geopolítica. Nos encontros que teve com Bashar Al-Assad, chefe de governo da Síria, Lula pediu apoio à pretensão brasileira de obter um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em troca, assinou um documento pedindo a retirada das tropas americanas do Iraque ? fato que não agradou o governo americano. No Líbano, que é o grande centro de distribuição comercial do Oriente, Lula esteve com o primeiro-ministro Rafik Hariri e arrancou aplausos dos participantes de um seminário comercial ao afirmar que ?somos primos de verdade, como vocês dizem?. Para alguns especialistas, como o professor Reginaldo Nasser, do Departamento de Relações Internacionais da PUC de São Paulo, esse aceno diplomático simboliza uma retomada da estratégia ado-
tada pelos governos militares, que tentaram libertar o País da influência das grandes potências.
Essa diplomacia independente despertou críticas no Exterior. ?A viagem tem cunho político e pode causar danos nas relações entre o Brasil e Washington?, alertou o diário britânico Financial Times, criticando especialmente a ida à Síria, que faz parte do ?eixo do mal? de George W. Bush, e à Líbia, do ditador Muammar Kadafi. Ocorre que a visita presidencial desta terça-feira 9 à Líbia pode selar contratos de um bilhão de euros para que um consórcio de 21 empresas brasileiras construa 500 prédios residenciais em Trípoli. ?Os Estados Unidos diziam que o Brasil não podia falar com a Líbia, e o Brasil não fa-
lava?, disse Lula. ?Mas a França e a Itália falavam e faziam negócios.? É justamente na Líbia e no Egito que o governo espera abrir as maiores oportunidades. O governo de Kadafi está iniciando um
dos maiores programas de privatização do mundo ? serão vendidas mais de 300 empresas. O mascate Furlan também vislumbra par-
cerias nas proximidades das pirâmides do Cairo. ?Nós somos grandes produtores de alimentos e os egípcios são fortes em insumos agrícolas?, avalia. ?Tudo combina muito bem.? De certa forma, o presidente Lula, com seu giro pelo Oriente, refaz o percurso do soldado inglês T. E. Lawrence, que no início do século XX juntou-
se aos árabes para combater o império da época, o dos turcos, e ficou conhecido como Lawrence das Arábias. ?Estamos indo ao encontro do mundo, ao invés de esperar que o mundo venha ao
nosso encontro?, diz o presidente.