28/12/2005 - 8:00
Tudo indicava que 2005 seria o melhor ano da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. A economia vinha de um crescimento excelente, de 4,92% em 2004; a indústria prometia investir mais; o desemprego diminuía; as exportações batiam recordes atrás de recordes e as reservas internacionais só aumentavam. O cenário externo, por sua vez, há décadas não era tão favorável. Na Esplanada dos Ministérios, os projetos de investimentos em infraestrutura prometiam a deslanchar. ?Vamos restaurar mais estradas do que todos os presidentes anteriores?, prometia Lula. Diante dos brasileiros, o presidente usufruía de popularidade fantástica, de 62% – e os analistas davam como certa e definitiva sua reeleição. Mas quando 2005 chegou ao fim, Lula descobriu que este foi o pior ano de sua vida, um annus terribilis, como certa feita definiu a rainha Elizabeth II, ao falar de suas próprias agruras. A economia derrapou e deve fechar o período crescendo medíocres 2,5%, metade da média mundial, um terço da Argentina. Seu governo derrapa sem obras, sem rumo, sem coesão. O PT, seu partido, se perdeu em lambanças. A base política governista virou pó. Diante dos eleitores, a aprovação de Lula desaba – está abaixo dos 30%. A rejeição, por sua vez, ultrapassou a barreira dos 50%. O presidente perdeu ao longo do ano nada menos que 20 milhões de eleitores. Nas simulações de votos, perderia hoje para José Serra já no primeiro turno e amargaria um empate técnico com Geraldo Alckmin. Enfim, a esta altura, já não é certo sequer que o presidente será candidato à reeleição ? embora ele claramente queira tentar.
?Outros presidentes passaram por momentos difíceis?, disse a seus ministros, na última reunião de governo do ano, no dia 20 de dezembro. ?JK sofreu tentativas de golpe e foi chamado de ladrão. Depois de morto, foi reconhecido como um dos melhores presidentes do Brasil. Eu não quero ser Juscelino. Quero ser reconhecido em vida”, acrescentou. Mas afinal, como é possível tamanha reviravolta na vida de um presidente em tão pouco tempo? Em parte, o acaso, fatores alheios à vontade do príncipe ?como o episódio no qual um funcionário de quinto escalão de uma estatal foi filmado embolsando R$ 3 mil de propina. Essa imagem deu origem à CPI dos Correios, que se revelou fatal para o governo. Mas foi o próprio presidente Lula, contudo, o responsável por alguns erros que chamuscaram a sua imagem. Lula errou na economia, na administração e na política. Na economia, deu carta branca para que a dupla Antônio Palocci e Henrique Meirelles prosseguisse com o monetarismo de retranca implantado por Pedro Malan. Foi alertado por todos, o tempo inteiro, que o malanismo estava esgarçado, que era preciso baixar os juros e investir em infraestrutura ? mas Lula atravessou 2005 amuado, sem conselheiros, escutando somente Palocci. Foi preciso que o PIB do terceiro trimestre sofresse uma queda de 1,2% para que Lula começasse a cobrar mudanças na economia. Desesperado, ensaia agora uma derrama de gastos casuísticos – como aumentos para funcionários públicos, bilhões para os sindicatos e um salário mínimo de R$ 350. ?O ano de 2006 será melhor?, prometeu Lula a seus ministros. ?Será mais parecido com 2004 do que com 2005?.
Lula errou sobretudo na administração do governo. Desde o início, ele vinha invertendo prioridades. Mas foi ao longo de 2005 que ficou patente que este é um governo que peca pela cautela nos investimentos e pela esbórnia nos gastos supérfluos. Já nos primeiros dias de janeiro, o presidente estreou aquele que representa sua maior inovação no governo até o momento – o novo avião presidencial, um Air Bus A-319, que custou US$ 57 milhões à vista. Na seqüência, descobriu-se que o Planalto havia comprado 18 motocicletas Harley Davidson, R$ 70 mil cada, que serviriam na escolta às autoridades em Brasília. Em novembro, quando ficou pronta a obra de reforma do Palácio do Planalto (custou R$ 18,4 milhões, dinheiro de empresas com interesses públicos), o governo só havia executado 14,6% dos investimentos previstos no Orçamento. Enquanto isso, o presidente usava aviões oficiais para transportar amigos dos filhos e a primeira-dama era alvo de críticas pelos presentes que se permitia receber de estilistas famosos.
Foram, porém, os erros políticos que mais apareceram nos últimos meses. Ao romper 2005, o presidente prometia uma reforma ministerial urgente para dar agilidade a um governo com imagem de ineficiente. Indeciso, agonizou em negociações por dois meses e, ao fim e ao cabo, elevou à Esplanada políticos marcados por casos de corrupção – como Romero Jucá, nomeado para a Previdência. No Congresso, Lula achou que estava tão forte que resolveu impor, sem consultar nem o próprio partido, o nome deputado Luiz Eduardo Greenhalgh para a presidência da Câmara ? e acabou tendo que engolir um desastre chamado Severino Cavalcanti. Em maio, quando um funcionário dos Correios foi filmado pegando uma propina, que teve início a atual crise política. Era um caso banal, simples de resolver. Bastava afastar os suspeitos e mandar apurar. Mas o que fez Lula? Tentou proteger o político envolvido, Roberto Jefferson. Teria dito que, para Jefferson, assinaria um cheque em branco. Pois Jefferson denunciou a compra de parlamentares, o mensalão. Desde então, já lá se vão oito meses ininterruptos de crise.
Curioso como Lula tem reagido às adversidades. Primeiro disse: “Eu não sabia de nada do que acontecia”. Depois acrescentou. “Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído”. Quando a crise se agravou, prometeu: ?Precisamos punir corruptos e corruptores”. Nos últimos dias, em outra guinada infeliz, o presidente começou a se comparar a Hugo Chávez e chamar a oposição brasileira de ?golpista?. Se seguir assim, entrará em 2006, segundo sua própria metáfora, dentro da UTI. E ainda não se sabe se nos nove meses que lhe restam até a eleição ele poderá receber alta.