26/02/2026 - 7:00
Para Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e Sócio Fundador da Tendências Consultoria, o governo Lula, em seu terceiro mandato, é mais heterodoxo do que os dois primeiros. Enquanto no passado o “Lulismo” se caracterizou pelo tripé macroeconômico e superávits primários robustos, a gestão atual parece priorizar a expansão do gasto público como motor do crescimento, negligenciando sinais de exaustão fiscal.
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A avaliação de Maílson é que o Brasil ‘caminha para o colapso fiscal’ por conta do desenho do orçamento público, dado que os gastos obrigatórios devem chegar a 100% do PIB nos próximos anos.
Desde a promulgação da Constituição, o Brasil optou por um modelo que, apesar de visar a redução de desigualdade, criou obrigações financeiras crescentes. Atualmente, os gastos obrigatórios – que incluem previdência social, salários de servidores e benefícios assistenciais como o BPC (Benefício de Prestação Continuada) – já consomem a vasta maioria da arrecadação federal.
Nesse contexto, o Brasil pode viver um shutdown técnico do Estado, com o governo perdendo totalmente o poder de manejo sobre as chamadas despesas discricionárias.
Maílson lançou no dia 10 de fevereiro seu novo livro, intitulado ‘O Brasil ainda pode ser um país rico?: o desafio da produtividade’, obra na qual o economista remonta eventos históricos que moldaram a economia brasileira e detalha o que considera fatores fundamentais para o Brasil se tornar um país próspero.
“Ele [Lula] não se preocupa com gasto público. Nós estamos numa crise fiscal que vem desde a Constituição de 1988. Nós podemos estar caminhando para um colapso fiscal com graves consequências para a economia brasileira, porque os cálculos estão indicando que em 2027, 100% gastos primários do governo federal terão natureza obrigatória. Então, não sobrará um tostão para financiar ciência, tecnologia, cultura, investimentos, e o funcionamento de modo geral da máquina pública”, diz Maílson da Nóbrega.
“Isso não pode acontecer. Então, quando chegar 2027, se o governo não agir, ele vai ter que abandonar de vez o o arcabouço fiscal, que já não tem muita serventia ou credibilidade hoje. O Lula já abriu o governo dele derrubando o teto de gastos, que tinha congelado os gastos com educação e saúde, ele restabeleceu a vinculação de recursos de impostos para educação e saúde, que é algo que só acontece no Brasil”, completa.
O ex-ministro diz que Lula ‘não quer saber de déficit público’ e apenas alega ‘governar para o Brasil’ – o que categoriza com uma postura negligente, dado os problemas fiscais que batem na porta.
“O Lula tem quase um ímpeto, um desejo, de deixar claro que ele não concorda com essas ideias, mas são ideias consagradas há séculos, de responsabilidade fiscal. Se ele for reeleito, ele vai enfrentar uma situação muito grave, ele pode até se arrepender de ser reeleito. Ele poderia sair como Pelé, no auge, agora no terceiro mandato, mas ele tem pressões para concorrer novamente e quando ele ganhar ficar claro que ele não vai fazer reformas – porque ele é contra desvincular salário mínimo de aposentadorias, contra rever BPC – quando ele assumir e tudo isso se tornar uma certeza para os mercados e os mercados começarem a colapsar……ele não é burro e vai tentar fazer [reformas]”, diz.
“Provavelmente, pode ser tarde. A perda de capital político já terá sido bastante para inibir a própria revisão que ele deveria ter feito no início de mandato”, conclui.
A avaliação é de que reformas só serão implementadas com o agravamento da situação.
Maílson relembra que, historicamente, reformas de teor análogo só são aprovadas em situação de crise, com um senso de urgência azeitando aprovação popular por reforças fiscais.
Como exemplo, cita as reformas do ‘milagre brasileiro’, da época da ditadura militar, o Plano Real e também as reformas implementadas pelo governo Temer no pós-impeachment.
A preocupação é que o governo Lula 3 esteja esperando o ‘colapso dos mercados’ para admitir a necessidade de reformas.
Na eventualidade desse cenário se concretizar, o Brasil viveria um ambiente de juros futuros em escalada, câmbio derretendo e a inflação voltando a ameaçar o poder de compra.
