19/04/2006 - 7:00
Na curta tradição das eleições presidenciais brasileiras existe uma regra sobre pesquisas eleitorais: elas começam a pesar a três meses do pleito, quando a disputa se afunila. Este ano, graças à crise política e às incertezas geradas por ela, o quadro mudou. O calor das urnas foi antecipado para o outono e os institutos de pesquisa passaram a faturar antes da hora. ?O mercado amadureceu mais cedo?, confirma Ricardo Guedes, fundador do instituto Sensus, de Belo Horizonte. Com uma estrutura de 20 pessoas, ele tem um faturamento anual de R$ 2,5 milhões. Este ano planeja contratar 300 pesquisadores temporários e dobrar sua receita. ?Estamos esperando mais encomendas?, diz ele. O mercado de sondagens movimenta R$ 750 milhões e têm crescido 10% ao ano. Incluem-se nesse montante pesquisas de audiência e de mercado, encomendadas por empresas. Pesquisas políticas são responsáveis por algo entre 10% e 20% do faturamento do setor, dependendo do ciclo eleitoral. O preço de uma pesquisa nacional com duas mil entrevistas varia de R$ 90 mil no Sensus a R$ 130 mil no Datafolha. ?Este é um ano gordo?, resume Marcos Coimbra, do VoxPopuli. O instituto mineiro prevê fazer em 2006 umas 30 rodadas de pesquisas nacionais. Fará sondagens também em 10 eleições estaduais. Seu faturamento deve atingir R$ 25 milhões, muito acima dos R$ 15 milhões de anos normais. Apenas no Ibope, maior instituto brasileiro, o quadro não é o mesmo. Embora o número de pesquisas nacionais tenha dobrado em relação à última eleição ? até abril deste ano foram quatro, contra duas em abril de 2002 ? a diretora Marcia Cavallari não prevê faturamento maior. Ainda assim, o Ibope, a quem se atribui um faturamento total de cerca de R$ 120 milhões, vai contratar 550 entrevistadores para o pleito de novembro.
Cena de rua: Institutos como o Datafolha farão este ano pelo menos 20 rodadas de pesquisa nacional
Esse cenário de abundância tem pouco em comum com a primeira sondagem eleitoral brasileira, realizada pelo Ibope no início de 1964. O questionário era sobre a eleição presidencial de 1965. O ex-presidente Juscelino Kubistchek ganhou folgadamente, reforçando em setores do Exército e na UDN de Carlos Lacerda convicções golpistas. Elas desembocariam no golpe de 1º de abril de 1964. Quando voltaram a ocorrer, em 1979, as eleições presidenciais tiveram como vencedor Fernando Collor de Mello, construído com base em pesquisas eleitorais e programas de propaganda política. Desde então a importância desse instrumento não parou de crescer. ?A atual crise política aumentou o interesse pelas pesquisas porque elas permitem entender o País”, diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. Ele explica, por exemplo, que as pessoas mais pobres atribuem diretamente ao governo federal a melhoria de suas condições de vida. Por isso a popularidade do presidente não cai, apesar das denúncias. Para entender esse tipo de nuança, a novidade no mundo político é o uso intensivo de ?pesquisas qualitativas?. São grupos de discussão que se reúnem ao longo da campanha para avaliar os candidatos. Cada rodada de discussão custa uns R$ 8 mil. Este ano, com o encolhimento do número de candidatos, o cenário ficou simples. O governo busca reeleição com um candidato fortalecido pelo cargo enquanto a oposição está enfraquecida por rachas. Postulações vicejam e fenecem ao sabor das pranchetas, independente do debate das idéias. ?A influência das pesquisas tornou-se excessiva?, opina o historiador Marco Villa. ?Assim como o poder dos marqueteiros, ela é nefasta para a democracia.? Nefasta, talvez. Mas eficiente para quem usa e lucrativa para quem faz. Logo, inevitável.
NÚMEROS DA ELEIÇÃO
R$ 750 milhões é o valor anual do mercado de pesquisas, do qual 20% é política
R$ 90 mil é o menor valor cobrado por uma pesquisa eleitoral de 2 mil entrevistas