02/03/2005 - 7:00
Após depositar o cheque de US$ 1,3 bilhão assinado pela GM, o grupo Fiat pôs-se a trabalhar em ritmo frenético. A bolada encerrou um impasse de dois meses. A montadora americana concordou em pagar US$ 2 bilhões para se desobrigar de comprar 90% das ações da Fiat Auto, que compreende as marcas Fiat, Alfa Romeo e Lancia ? US$ 700 milhões serão quitados até maio. Em março de 2000, a GM havia adquirido 20% da Fiat, que se tornaram 10% após aportes dos outros sócios. Uma cláusula condicionava a compra do restante até 2004, prorrogáveis até este ano. Como a GM não quis, a cifra bilionária foi a ?multa rescisória?. Se a venda integral parecia a única saída da Fiat, o epílogo dessa pendenga significou uma ótima alternativa: a marca manteve a soberania, reassumiu a totalidade das ações, tranqüilizou os credores, botou a casa em ordem e, de quebra, montou um belo caixa. Um dia após a divulgação do acordo, as ações da Fiat subiram 4,9% na Bolsa de Milão. No balanço de 2004, ainda não divulgado, estima-se que se tenha estancado os prejuízos, ótimo para quem amargou US$ 2,4 bilhões no vermelho em 2003. Além do impacto do US$ 1,3 bilhão, o divórcio soluciona um problema levantado por analistas: o marasmo corporativo do grupo desde a venda das ações, traduzido por poucos lançamentos e nenhuma parceria com outras montadoras. ?Estávamos esperando a venda definitiva?, explica um executivo da filial brasileira, informando que a Powertrain, operação conjunta de GM e Fiat para produzir motores e câmbios por aqui, não sofrerá alterações tão cedo. Compensado o cheque, entretanto, as ações foram imediatas: em menos de quinze dias, caiu o presidente da Fiat Auto, Herbert Demel, a marca Maserati separou-se da Ferrari e uniu-se à Alfa Romeo, além de ganhar novo chefe. Mas aí reside a questão: para a empresa que vinha no vermelho desde 1999, mal zerou seu déficit anual e recebeu um bilhete de loteria de US$ 2 bi, tantas novidades não podem levá-la a perder o foco?
Para Sergio Marchionne, braço direito do CEO Luca di Montezemolo, não. ?Crescemos 3,4% em 2004, passando de 1,85 milhão para 1,91 milhão de unidades vendidas?, diz, inebriado com os resultados de quem foi empossado em junho passado sem experiência na área automotiva. Ao demitir o Eng. Demel, contudo, Marchionne justificou: ?A Fiat passa por mudanças culturais e reorganizações administrativas que resultaram em uma estrutura ágil e eficiente, baseada em responsabilidade e rapidez nas decisões?. Nas entrelinhas: Demel não vinha sendo suficientemente veloz. O detalhe é que ele não contratou ou promoveu ninguém para o cargo. Acumulou-o. ?Tomar a responsabilidade direta pela Fiat Auto se insere na lógica de concentrar os esforços da Fiat SpA para recuperá-la?, disse. ?Zerar prejuízos é um talento comum a administradores. Mas lançar carros exige que se entenda do assunto?, adverte um importante ex-executivo da Fiat brasileira nos anos 90.
As demais marcas do grupo também trazem boas novas. Ao desmembrar a Maserati da Ferrari e aproximá-la à Alfa Romeo, espera-se diminuir custos na Maserati e gerar cooperação técnica e comercial que retome as vendas da Alfa, que caíram 7% em 2004. Logo quando a marca planeja revisitar o mercado americano e reforçar a presença no chinês. Para amarrar essa estratégia, Marchionne designou Karl Heinz Kalbfell, ex-presidente da Rolls-Royce e profundo conhecedor do mercado de ?alto luxo?. Em suma, o grupo já sabe o que falta em seu portfólio de veículos: carros com alto valor agregado que vendam bem, motivo primordial que alçou Luca di Montezemolo, sinônimo de Ferrari, ao cargo de CEO do grupo.
US$ 20 bilhões é o valor que a GM pagaria
na compra da Fiat. Livrou-se com US$ 2 bi