04/08/2001 - 7:00
Só se fala naquilo: será que ele é? O ministro da Fazenda, Pedro Malan, alterna irritação e bom humor a cada vez que lhe perguntam, e de tanto negar já coleciona explicações. ?Não tenho aptidão, vocação, predestinação, determinação, disposição, filiação e, por último, votação?, justifica. É inútil. Da última vez que um político negou com os dedos cruzados sua vontade de concorrer a um cargo eletivo, ganhou a parada de forma espetacular. ?Minha decisão é firme e irredutível, não sou candidato?, repetia o tucano Mário Covas, às vésperas de aceitar concorrer à reeleição para o governo de São Paulo, em 1998, e atropelar um a um seus adversários. Contra a fileira de ?ãos? do ministro pesa, também, sua própria postura. Nos últimos meses, ele aproveitou cada oportunidade para fazer inflamados discursos contra as posições econômicas dos seus adversários. ?Eu sempre entro no site do PT?, diverte-se. ?Se querem politizar a discussão, vamos politizar. Não temo o debate.?
Malan-2002 está na boca de todos. No mercado financeiro, de
Wall Street às mesas de operação da Bovespa, a alternativa é
vista como uma chance de ouro. ?Tê-lo entre os candidatos
seria um sonho?, diz o economista Paulo Leme, do banco de investimentos Goldman Sachs, de Nova York. ?Malan é brilhante,
o melhor economista da nossa geração.? Nesse meio, já há quem faça contas que dão viabilidade eleitoral ao projeto. ?Dizer que
Malan é ruim de voto é precipitado?, contabiliza o economista-chefe do BankBoston, José Antônio Penna. ?Pesquisas mostram que
9% das pessoas votariam num candidato indicado por Fernando Henrique, enquanto mais 23% dizem que podem vir a votar em um nome do governo. Se o Malan conseguir aqueles 9%, mais a
metade dos 23%, está no segundo turno.? Penna lembra, ainda,
que à frente da coligação PSDB-PFL, o ministro teria 44% do
tempo disponível no horário eleitoral gratuito. Só para comparar,
Ciro Gomes hoje não tem mais do que 7% e Itamar Franco, que
corre riscos de perder o PMDB, também pode acabar patinando. ?Malan tem o meu voto?, crava o ex-ministro Maílson da Nóbrega.
?O Brasil precisa de continuidade na política econômica.?
Entre os capitães da indústria se fala de Malan candidato com intensidade. Mas a conversa é outra. ?Não gostaria sequer de imaginar esse governo?, rechaça o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Carlos Eduardo Moreira Ferreira. ?Ele é
inviável eleitoralmente.? O ministro carrega ainda o peso de não
ser muito bem aceito em São Paulo, centro das articulações empresariais do País. Na reunião de empresários com Fernando Henrique, na casa do banqueiro Olavo Setúbal, o nome de Malan
foi discutido, mas chegou-se à conclusão de que é preciso esperar uma melhor definição do quadro sucessório. Para Malan, abraçar
as bandeiras da indústria é um gesto que pode ser realizado com rápidas canetadas. Como se sabe, num palanque do qual se pode avistar a esquerda com chance de chegar ao poder, os discursos mudam. ?Malan tem credenciais para o cargo, especialmente se estimular a reforma tributária?, diz Antônio de Oliveira Santos, da Confederação Nacional do Comércio.
Nos últimos meses, Malan executou à perfeição uma longa manobra para atrair a esquerda ao complexo debate macroeconômico. No terreno em que reina soberano há sete anos, montou várias armadilhas. Polarizou o debate e cunhou seu cacife de mais nítido representante do governo. ?Malan adora bancos, detesta pobres, é a cara desse governo?, ataca o deputado Aloizio Mercandante, cujo PT chegou à conclusão que o melhor, a partir de agora, é fugir das provocações do ministro. Só Malan saia ganhando. Suas habilidades são antigas. Quem com ele conviveu na PUC do Rio no início dos anos 60, quando ainda estudava engenharia, traça-lhe o seguinte perfil: ?Malan é fruto da classe média carioca culta, elegante e preparada. Nas nossas reuniões estudantis, falava pouco, mas já sabia apoiar o queixo no cachimbo. Ele é da safra de engenheiros que se converteram em economistas, como o José Serra?, diz o consultor João Guilherme Vargas Neto. ?No governo, ele virou carrasco do povo brasileiro.?
Entre os tucanos, enquanto o ministro da Saúde, José Serra, ainda parece tímido em assumir sua postulação, seu colega Paulo Renato, da Educação, é quem mais demonstra ?querer muito? a candidatura, qualidade destacada por Fernando Henrique para definir qual será o nome do governo. Malan, enquanto isso, defende o governo a cada chance, o que também agrada o presidente. Malan é o tipo de quadro que consegue anunciar uma ida ao FMI parecer um piquenique de veraneio, com fez na semana passada. Ele é mesmo a bola da vez, mesmo sem ter, ainda, filiação partidária. Para ter condições políticas de assinar a ficha, Malan precisa apenas de um gesto mínimo: que FHC peça para ele ingressar no PSDB. Se isso acontecer até o dia 5 de outubro, quando termina o prazo legal para quem quer concorrer em 2002, essa carta nova vai embaralhar toda a sucessão presidencial.