DRAGAR OS RIOS PINHEIROS E TIETÊ e pavimentar as marginais, criando 12 grandes pistas numa extensão de 24 quilômetros. Acusada de megalômana pelos adversários, a proposta das freeways de Paulo Maluf para desafogar o trânsito de São Paulo foi a forma encontrada pelo ex-prefeito para retornar em grande estilo às eleições. Mesmo distante do segundo turno, Maluf criou uma escola: a dos grandes projetos sem orçamento conhecido. O elefante branco, mesmo que saia do papel, serve também para esconder outras propostas, essas até importantes, mas que de tão comuns são oferecidas por quase todos os outros candidatos que disputam as eleições deste domingo. A ex-prefeita Marta Suplicy fala em oferecer internet banda larga para todo o município de São Paulo (leia reportagem à página 60). Gilberto Kassab, por sua vez, quer investir R$ 1 bilhão na ampliação do metrô e na nova Marginal Tietê. E, aproveitando o instinto de engenheiro dos candidatos, as principais construtoras do País montaram um pacote de obras viárias para São Paulo. São mais de 200 intervenções ao custo de R$ 15,6 bilhões que estão à disposição das equipes de governo. Mais uma vez, não há nenhuma indicação de onde poderia sair o dinheiro para tudo isso. “É corriqueiro na política brasileira prometer tudo e não garantir nada”, brinca o cientista político Murillo de Aragão, da Arko Advice.

 

Em outras regiões do Brasil o quadro se repete. A principal obra do plano de Beto Richa, que lidera a disputa em Curitiba, é iniciar a construção do metrô paranaense. O projeto está sendo elaborado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, mas, pelo sim, pelo não, tem uma salvaguarda: a viabilidade está ligada à “disponibilização de verbas federais e ao equacionamento de Parceria Público Privada”. Se não sair, a culpa é da União e dos empresários. Em Belo Horizonte, Marcio Lacerda também deve ser eleito em primeiro turno. O candidato é o mais rico do País, com R$ 55,5 milhões de patrimônio, e exibe um programa de obras que pode chegar a R$ 5 bilhões – mas que inclui recursos dos governos estadual e federal. “A prefeitura tem uma projeção de receitas e despesas para os próximos quatro anos que nos permite prever R$ 600 milhões de investimentos novos em média por ano, para os próximos quatro anos”, explica.

Na Bahia, o deputado ACM Neto quer transformar Salvador em um “Big Brother”, com sistema de câmeras móveis nos bairros mais violentos da capital. À frente nas pesquisas para a prefeitura soteropolitana, ele explica: “As câmeras serão móveis e focadas nas regiões mais perigosas.” Segundo na disputa, o atual prefeito, João Henrique Carneiro, é mais audacioso: garante que a cidade passará da 16ª posição no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, entre as capitais, para a 1ª posição, com os seus investimentos no sistema educacional. As obras também estão presentes no programa para Porto Alegre. José Fogaça, candidato à reeleição, promete pelo menos 15 obras em infra-estrutura e reduzir o trânsito no centro da cidade, com a criação de uma nova entrada pela freeway. Com possibilidades de embaralhar o resultado final da disputa, a jovem deputada Manuela D’Ávila usa o mesmo manual dos outros candidatos. Sua mais ousada proposta é a de criar parques tecnológicos – mesmo sabendo que, para isso, precisará da anuência do governo federal.

Ainda que saltem aos olhos dos eleitores por suas mirabolantes idéias aqui e ali, a verdade é que as cartilhas dos candidatos encontram-se na vala comum da política. Com o eleitor cada vez mais atento ao programa eleitoral, principalmente nas grandes capitais, o trabalho das equipes de governo ficou mais penoso. “Ganhar eleição, hoje, é saber muito mais conquistar o eleitor pelo que ele quer ouvir do que realmente ver”, analisa o antropólogo Roberto da Matta. O reflexo disso é a incrível semelhança nas propostas dos candidatos. Os quatro mais bem colocados para a disputa à Prefeitura de São Paulo listam a construção dos mesmos hospitais nos mesmos lugares. No Rio de Janeiro, as plataformas para segurança, saneamento, saúde e educação são praticamente cópias umas das outras. O líder das pesquisas, Eduardo Paes, se destaca com a promessa de urbanização das favelas. Mas o quadro de padronização das promessas se repete Brasil afora, com uma ou outra grande freeway para dar gás aos candidatos.