José Orlando Lobo é sócio do Goulart Penteado, Iervolino e Lefosse, um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, associado ao londrino Linklaters ? por sua vez, uma das principais firmas do mundo. Especializado em direito empresarial, Lobo é conhecido no mercado como advogado de grupos como Coca-Cola, Daimler-Chrysler e Volkswagen. Mas isso é no horário comercial, de segunda a sexta. Quando tira o terno e a gravata, Lobo é um amante dos automóveis, que há décadas coleciona carros e está prestes a entrar na indústria. Ele montou um time de engenheiros e designers e está construindo um carro esportivo. É o Lobini H1, que tem projeto de carroceria e suspensão próprios e motor e câmbio da Volkswagen. Lobo está gastando por volta de US$ 1 milhão do próprio bolso. Não tem e não quer sócios. O carro já tem 50 encomendas ? suficientes para absorver o primeiro ano e meio de produção ? e será vendido no Brasil e na Inglaterra. Entre os futuros donos, estão empresários de peso, como Antônio Ermírio de Moraes Filho e o dono da Gradiente, Eugênio Staub. O lançamento está previsto para abril.

O projeto Lobini nasceu em 1998, com o início da parceria de Lobo com o engenheiro Fábio Birolini, da Chamonix, fabricante de réplicas de Porsche dos anos 50. A meta comum: desenvolver e construir o melhor carro esportivo já fabricado no Brasil, com performance comparável à dos importados. Da fusão de Lobo com Birolini, saiu o nome Lobini. O motor é o VW 1.8 turbo de 180 cavalos usado no Audi A3. Quase todo o restante foi desenvolvido sob medida. A carroceria é de plástico reforçado com fibra de vidro e terá de provar seu valor.

Por trás do projeto Lobini, há um time com origens e experiências bem distintas. Lobo é moçambicano e está no Brasil desde os 15 anos. Newton Masteguim, o sócio-fundador da Chamonix, é filho de Milton Masteguim, criador do Puma, considerado por muitos o melhor esportivo brasileiro de todos os tempos. No time de engenheiros está o inglês Graham Holmes, com 30 anos de experiência na fabricação de automóveis de série limitada. O design é assinado por Birolini. ?É um conjunto perfeito: um designer italiano, um engenheiro inglês e um português pagando a conta?, brinca Lobo.

Responsável pela produção do Lobini ? e por um investimento de
US$ 300 mil em sua linha de produção ?, a Chamonix é a sobrevivente entre um grupo de fabricantes de carros esportivos nacionais que marcou época nos anos 80. Puma, Miúra, Santa Matilde e outros não suportaram a abertura da economia a partir do governo Collor e fecharam as portas. A mera lembrança dessas histórias põe em dúvida as perspectivas de sucesso do Lobini em um mercado aberto aos importados. Lobo, no entanto, aponta três diferenciais de seu projeto: consultas prévias ao mercado, terceirização do pacote de motor e câmbio e a supervisão de um engenheiro inglês especializado. ?Projetos como este não dão certo. Nós queremos ser a exceção que comprova a regra?, diz.

Diga-se em favor do Lobini que, ao contrário de seus antecessores, ele é um carro realmente esportivo, com tecnologia de ponta e voltado para um nicho muito específico de mercado. Seu interior é quase como o cockpit de um carro de corrida e um ?piloto? acima do peso tem dificuldade para entrar e sair do automóvel, como constatou a reportagem de DINHEIRO. Mas a performance compensa o desconforto. O Lobini acelera de 0 a 100 quilômetros por hora em menos de seis segundos e supera os 220 km/h. ?Já é o carro brasileiro mais rápido de todos os tempos?, orgulha-se Lobo. Se fosse vendido hoje, custaria cerca de R$ 120 mil. É caro? ?É, mas para comprar um carro esporte importado do mesmo nível você gasta o dobro?, compara Lobo, um ávido colecionador com 16 automóveis na garagem. O objetivo é fabricar 35 veículos no primeiro ano e, daí em diante, elevar a produção para 50 unidades anuais, sendo 20 destinadas ao mercado inglês. ?Vendendo 300 carros eu recupero o investimento?, calcula Lobo. Se chegar lá, além de abrir uma garrafa de champanhe, o advogado vai considerar opções como lançar um novo modelo. E expandir a marca Lobini.