O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, tem uma reputação que combina com sua barba grisalha: a de um conservador disciplinado e sem brilho, que usa para aparentar ser um “homem sério” e prever a “falência” caso um inexperiente lidere o país.

“Pareço tão chato como dizem?”, perguntou o líder de 60 anos – candidato à reeleição no domingo – durante um jogo de futebol na televisão, onde nunca aparece à vontade.

Os piadistas riem de suas famosas obviedades – “realmente, um vaso é um vaso e um prato é um prato” -, seu inglês precário – “it’s difficult todo esto” – ou sua propensão a deixar os problemas definharem, partidário do “às vezes, a melhor decisão é não tomar nenhuma decisão”.

Mas, sobretudo, enfrentou uma grande façta de popularidade, num país afetado pela crise, que critica, desde 2012, seu programa drástico de austeridade.

Mas “nada nem ninguém consegue desviá-lo de seu roteiro”, disse o autor do ensaio “Código Mariano”, Antón Losada. Uma das chaves para seu sucesso, é que “todos os seus rivais caíram na mesma armadilha: a de subestimá-lo”, alertou o cientista político.

Nascido há 60 anos em Santiago de Compostela (noroeste), na conservadora Galícia, Rajoy é o filho mais velho de um presidente de um tribunal provincial.

Estudou num colégio de freiras e mais tarde com os jesuítas, antes de se formar em Direito para se tornar, aos 23 anos, o mais jovem notário da Espanha.

Logo ele se juntou à Aliança Popular, partido fundado por ex-ministros franquistas, que depois virou o Partido Popular (PP).

Discreto sobre sua vida privada, é casado com uma galega e tem dois filhos, além de cuidar de seu pai 94 anos, e tem em grande valor os 34 anos de carreira política – que lhe ensinaram a lidar com todos os golpes.

Cinco vezes ministro no governo de José María Aznar, foi seu escudo como porta-voz do governo diante da avalanche de críticas pela gestão do derrame de petróleo do “Prestige” em 2002 ou a entrada da Espanha na guerra do Iraque em 2003.

Depois que Aznar nomeou seu sucessor, sofreu duas derrotas eleitorais em 2004 e 2008, antes de conseguir maioria absoluta no final de 2011.

“Rajoy levou muito a sério o tema do resgate” global da economia espanhola, e “conseguiu que a Espanha não fosse resgatada” em 2012, embora a União Europeia tenha tido que financiar 41 bilhões de euros para resgatar os bancos, observa o cientista político Fernando Vallespín.

Mas também “apareceu como um tecnocrata, distante da realidade social do país, mas preocupado em cumprir com o que pedia” Bruxelas em matéria de austeridade.

Liberal na economia, Rajoy é um conservador convicto: só retirou o projeto de reforma que proibia o aborto em praticamente todos os casos pela onda de pressão que veio das ruas.

Diante da perspectiva de perder a maioria, recuperou para esta campanha o papel que tão bem lhe serviu em 2011: “o homem previsível”.

“Ou o PP governa, ou voltamos à falência!”, afirma a porta-voz de seu governo, Soraya Saénz de Santamaría, a seu lado quando afirma que é o único capaz de garantir a “recuperação econômica” iniciada.

Um único problema o incomoda: os escândalos de corrupção que afetam muitos dos membros do partido que dirige há dez anos, incluído o ex-vice-presidente do governo, Rodrigo Rato, que acabaram respingando em Rajoy.

A corrupção de seu partido foi um dos motivos que supostamente levaram um jovem de 17 anos a dar-lhe um soco enquanto passava por Pontevedra (Galícia, noroeste), embora o chefe do executivo não tenha perdido a calma.

Rajoy só perdeu a compostura durante a campanha quando seu rival socialista, Pedro Sánchez, questionou sua honra. “Miserável”, repetiu seis vezes, “sou um político honrado”.

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