11/04/2026 - 9:00
A XP anunciou um novo passo na diversificação de sua prateleira de produtos internacionais. Por meio de uma parceria com a Kalshi, principal plataforma de mercados preditivos (‘prediction markets’) dos EUA, a corretora passará a oferecer aos clientes da marca Clear a possibilidade de negociar contratos baseados no desfecho de eventos econômicos e financeiros globais.
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Diferente dos ativos tradicionais, como ações ou títulos de renda fixa, os mercados preditivos permitem que o investidor monetize sua visão sobre eventos específicos. O movimento posiciona a XP como pioneira na introdução desta classe de ativos no ecossistema de investimentos brasileiro.
Essa modalidade de investimento tem diferenças essenciais com o chamado mercado futuro, já que ele apenas negocia a expectativa do mercado para aquele ativo. O economista Presley Vasconcellos explica que a negociação de contratos futuros pode servir para a empresa se proteger de flutuações futuras de diversos ativos, o famoso hedge.
“No mercado de preditivos, o investidor não negocia diretamente um ativo, mas sim a chance de algo acontecer. Esses eventos podem ir de decisões econômicas, como a taxa de juros, até eleições, conflitos geopolíticos, eventos climáticos e até acontecimentos de cultura pop, como o Oscar. A principal diferença em relação a futuros e opções é que, enquanto esses negociam preços de ativos, também utilizados para proteção (hedge) ou alavancagem, o mercado de previsões negocia a expectativas das pessoas sobre eventos diversos”, apontou.
Foco em eventos econômicos
Nesta fase inicial, o acesso será restrito a clientes com conta de investimento internacional na XP, já que o produto financeiro não é regulamentado no Brasil, e o foco será estritamente macroeconômico, rejeitando a compra de contratos sobre eventos esportivos. A XP informou à reportagem que que o cliente poderá invetir em previsões como:
- Nível de fechamento do índice S&P 500 em 2026;
- Próximos passos da taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed);
- Data em que o Bitcoin atingirá a marca de US$ 150 mil;
- Teto da cotação do dólar (USD/BRL) no horizonte de 2026.
Resultados eleitorais como ‘galinha dos ovos de ouro’
Para a fundadora da Kalshi, Luana Lopes Lara, o grande ‘pulo do gato’ para esse mercado não está nos eventos econômicos, mas nos resultados eleitorais. Ela afirmou que vê as eleições como a “galinha dos ovos de ouro” para esse mercado, em um evento na cidade de Sunnyvale, na Califórnia.
Foi depois das eleições norte-americanas de 2024 que a Kalshi atingiu um valor de mercado de US$ 22 bilhões, o que fez com que Luana se tornasse a bilionária self-made mais jovem do mundo, de acordo com a Forbes.
A empresária declarou no evento que a operação foi feita com autorização das autoridades, embora o regulador do setor, a CFTC (Comissão de Negociação de Futuros de Commodities), fosse contrário à oferta desse tipo de contrato.
“Mas esse segmento é muito importante para os mercados de previsão, e nós sabíamos que precisávamos deles por serem muito grandes. Por isso, nós tivemos que processar o regulador”, disse.

Como funciona a estrutura da operação
Os contratos de eventos funcionam de forma binária: o investidor adquire um contrato que paga um valor fixo (geralmente US$ 1,00) caso o evento ocorra. Se a previsão não se concretizar, o contrato perde o valor. O preço de negociação desses ativos flutua conforme a probabilidade estimada pelo mercado para aquele desfecho.
Regulamentação ainda engatinha no Brasil
Embora o Brasil ainda não possua um arcabouço regulatório específico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para mercados de previsão, a XP estruturou a oferta via jurisdição dos Estados Unidos.
A Kalshi é regulamentada pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), o órgão que supervisiona o mercado de derivativos americano. Isso garante que os contratos sigam regras de formação de preço, liquidação e governança, assemelhando-se à operação de derivativos tradicionais e bonds.
A B3 anunciou que vai começar a oferecer contratos dessa natureza à partir do dia 27 de abril, mas somente para investidores profissionais, que tenham mais de R$ 10 milhões investidos. Os ativos serão referenciados no Ibovespa, no dólar e no bitcoin, com tickers específicos para cada modalidade, como o BWI (Futuro Míni de Ibovespa) e o BBC (Bitcoin à Vista).
Mercados preditivos x bets
A chegada dessa modalidade reacende o debate sobre a fronteira entre investimento e aposta. Com a explosão das plataformas de apostas esportivas, as chamadas bets no Brasil, a XP busca distanciar o novo produto do puro entretenimento.
A tese defendida pela instituição é a da utilidade econômica. Enquanto as apostas tradicionais são baseadas em eventos de lazer, os mercados preditivos servem como agregadores de informação.
“Além disso, para investidores institucionais e corporativos, esses contratos podem funcionar como instrumentos de hedge (proteção) contra volatilidades específicas, como uma variação abrupta no câmbio ou nos juros”, apontou a XP em nota.
Vasconcellos explica, porém, que enquanto esses contratos estiverem ligados a eventos econômicos, é possível argumentar que há uma utilidade prática para a sociedade, na medida que eles podem ser usados como termômetro para outras decisões ou para gestão de risco. Essa utilidade começa a ser questionada quando esses contratos passam para outros eventos, como clima e esportes.
“No investimento tradicional, você está financiando atividade produtiva ou se expondo a ativos que geram valor ao longo do tempo. Já nas apostas, o dinheiro apenas muda de mão entre as pessoas, sem gerar crescimento, emprego e renda, por exemplo. Nos mercados de previsões, quando o contrato está ligado a eventos econômicos é possível argumentar que há utilidade, mas à medida que você avança para eventos como clima, esportes ou cultura pop, essa utilidade econômica praticamente desaparece. O retorno passa a depender exclusivamente de motivos abstratos, o que é exatamente a lógica das apostas”, criticou.
Um uma das principais plataformas que atuam no mercado norte-americano, a Polymarket, os usuários poderiam comprar contratos sobre eventos da guerra dos Estados Unidos contra o Irã, como o dia que um piloto norte-americano desaparecido seria encontrado. A aposta foi retirada do ar após denúncias nas redes sociais.
Contudo, a AP divulgou na quinta-feira, 9, que uma análise de dados da blockchain via plataforma Dune revelou um padrão incomum na Polymarket, em que, pelo menos 50 novas contas, ou carteiras digitais, fizeram apostas substanciais no “Sim”, ou seja, de que haveria um cessar-fogo, antes do post de Trump na Truth Social, que foi feito às 18h30. Outro ponto de atenção é que muitas dessas contas estavam fazendo sua primeira interação na plataforma.
Uma carteira criada às 10h da manhã investiu US$ 72 mil a um preço de 8,8 centavos de dólar por cota. Após o anúncio, o usuário lucrou US$ 200 mil. Outra carteira, que entrou na plataforma em 6 de abril e negociou exatamente esse evento, registrou um lucro de US$ 125,5 mil. Foi identificada uma carteira, aberta apenas 12 minutos antes do anúncio de Trump, que investiu cerca de US$ 32 mil e embolsou US$ 48,5 mil de lucro, após apostar no “Sim”.
