31/03/2004 - 7:00
O mercado financeiro vive um inferno astral. No ano passado, a Bolsa de Valores subiu 98% e os fundos de renda fixa renderam 23%. Foi um ano fácil para os investidores ganharem dinheiro e tudo indicava que 2004 seria um ano tranquilo. Só em janeiro deste ano, a indústria de fundos registrou aportes de R$ 14,8 bilhões. Nas últimas duas semanas, o tom de otimismo foi dissipado. Agora, nas mesas de operações financeiras o clima é de nervosismo e incerteza. A indústria de fundos de investimento sofreu uma perda de R$ 1,1 bilhão de recursos em fevereiro. Foi a primeira fuga de investidores desde dezembro de 2002, logo após as eleições presidenciais e depois de 13 meses de entrada ininterrupta de recursos. Além disso, os fundos tiveram perdas e a Bolsa acumula prejuízo de quase 5% no ano.
Para completar o cenário, bancos e empresas estão com dificuldade de captar recursos no exterior. A onda de insegurança começou com o caso Waldomiro Diniz, acusado de negociar com bicheiros em troca de propina. ?Está tudo muito incerto ainda?, diz Marcelo Karvelis, sócio da Claritas, administradora de fundos de investimento.
Nas últimas semanas, os gestores reduziram posições de investimentos e se desdobraram para atender os telefonemas de investidores temerosos em perder dinheiro. Mas nem assim os aplicadores se acalmaram. Só os fundos cambiais, que apostam na cotação da moeda, registraram saques de R$ 1,4 bilhão. Na escala de maiores perdas estão os multimercados, fundos que podem investir em juros, ações, dólar e dívida externa. Saíram desses fundos R$ 1,2 bilhão. Em terceiro lugar, na ordem dos que mais tiveram perdas, estão os fundos de ações. ?Estes fundos são os que mais sofreram porque investem em mercados mais arriscados?, diz Francisco da Costa, sócio da administradora de recursos Gap. A saída de recursos balançou o mercado depois de um período longo de calmaria. Durante todo o ano de 2003, a indústria de fundos registrou apenas resultados positivos. Surgiram várias administradoras independentes, especializadas em aplicações de risco, e quase todas elas apresentaram bons resultados. Este ano, porém, as primeiras perdas já começam a aparecer.
Até a semana passada, a Claritas, uma das estrelas do mercado de fundos agressivos, registrava resultado negativo de 1,9%. A administradora foi pega de surpresa na condução da política monetária. ?Achávamos que os juros iria cair mais rapidamente?, diz Karvelis. O Pactual, outra grife do mercado financeiro, registrou prejuízo no fundo Pactual FX Alavancado, que aplica em dólar. No ano, acumula perda de 2,58%. O Abn Amro, um dos maiores administradores de recursos, teve queda no fundo ABN Amro Ativo I, que segue o mercado de ações. O fundo caiu 3,34% no ano. O francês BNP também apresentou prejuízo. No ano, acumula queda de 1,24% no fundo BNP Paribas Euro Classique, que segue as variações do câmbio. A administradora ARX Capital adotou uma posição de investimentos defensiva a partir de meados de fevereiro. No mês passado, os fundos multimercados da ARX não chegaram a registrar perdas, mas fecharam o mês com performance semelhante a um fundo DI, a categoria mais conservadora da indústria. A Mellon Global Investment resolveu reduzir sua participação em Bolsa de 16% para 6% para não correr risco de perdas.
Tanto conservadorismo tem uma explicação. Além da crise política interna, outros indicadores têm ajudado a deixar gestores e investidores cautelosos: a decisão do Comitê de Política Monetária de reduzir lentamente os juros, os atentados terroristas no mundo e a possível elevação da taxa de juros nos Estados Unidos são os principais fatores. Na semana passada, durante a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Henrique Meirelles disse que não houve hesitação. ?É normal que se dê uma parada de vez em quando para olhar os efeitos nos níveis de inflação.? Vladimir Caramaschi, economista-chefe da Fator Corretora, recomenda cautela. ?O risco País aumentou e é hora de ficar só observando sem fazer grandes apostas?, diz. O risco País voltou a ficar acima dos 550 pontos e o custo para empresas e bancos captarem recursos no exterior aumentou. Em 2003, o mercado brasileiro captou US$ 26,4 bilhões no exterior. ?Este ano não deve ter o mesmo ritmo de captações. Agora ficou bem mais caro lançar papéis no exterior?, diz Fábio Solferini, presidente do Standard Bank, uma das instituições que mais fazem emissões de terceiros fora do País. Uma saída para empresas e bancos que precisam de recursos é pegar empréstimos no mercado interno via debêntures. Neste caso, as maiores empresas têm mais chance. Para as demais, não há outra saída a não ser esperar o inferno astral passar. ![]()