Júlio Oliveira trabalhava como técnico na siderúrgica Gerdau, no Rio de Janeiro. Há oito anos, largou tudo para voltar à sua cidade natal, Juiz de Fora, Minas Gerais, atraído por uma proposta irrecusável: ser mecânico da nova fábrica da Mercedes. ?Adorei a idéia de voltar e morar perto da minha família?, diz, lembrando um tempo em que traçava planos de casar, comprar a casa própria e ter filhos. Hoje, com 35 anos, pai de uma menina de cinco, seu semblante denuncia a preocupação. ?Tenho medo de perder o emprego e não conseguir outro.? As ilusões de Júlio e mais 1,6 mil trabalhadores começaram a se dissipar na sexta-feira, 1, quando a DaimlerChrysler, em Stuttgart, Alemanha, cancelou o projeto de fabricação do Smart Formore, que começaria a ser produzido na fábrica mineira em 2006. Substituiria o Classe A, um modelo que não emplacou e cujas vendas vêm sendo decepcionantes, para dizer o mínimo. Projetada para produzir 70 mil modelos, a fábrica de Juiz de Fora não irá entregar mais do que 4 mil veículos este ano. Por isso, a matriz na Alemanha decidiu interromper a produção. Com um carro sendo retirado de linha e um outro projeto cancelado, a perspectiva de fechamento da fábrica, que recebeu R$ 200 milhões em incentivos fiscais do governo mineiro, tornou-se concreta. ?Queremos sugerir a produção de um outro modelo?, disse o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Juiz de Fora, Geraldo Werneck. O desejo não é só dele. Luiz Marinho, presidente da CUT, planeja ir pessoalmente a Stuttgart pedir a manutenção da fábrica mineira. O governador Aécio Neves tem um trunfo na mão. ?Se fecharem, terão de devolver os incentivos?, ameaça.

Oficialmente, a filial brasileira mantém um fio de esperança e afirma estar estudando alternativas. Na quinta-feira 7, da Alemanha saiu uma nota informando da desistência de fechar a fábrica ? mas sem dizer como ela seria ocupada. Juiz de Fora não dormiu melhor. ?Há risco de fechamento sim e vamos cobrar responsabilidade, pois a montadora recebeu muitos benefícios fiscais?, diz Carlos Bejani, prefeito da cidade. A assinatura do contrato da Mercedes com o governo de Minas aconteceu em dezembro de 1996, no auge da guerra fiscal. Sonhando com os benefícios econômicos que a instalação de uma fábrica desse porte geraria, os governos estadual e municipal deram isenção por 10 anos do pagamento de IPTU e de ISS e ressarcimentos de ICMS ? a Prefeitura ainda doou o terreno de 2,6 milhões de metros quadrados, avaliado em US$ 13 milhões. Pagou ainda pelos serviços de terraplenagem, instalou redes de esgoto e construiu acessos rodoviários. Estima-se que os gastos superaram R$ 40 milhões. Houve ainda um financiamento de US$ 180 milhões do BNDES e a construção de um aeroporto de cargas, orçado em R$ 200 milhões. ?Eles prometeram criar mais de 5 mil empregos, mas esse sonho nunca se realizou?, disse Vicente Oliveira, presidente da Câmara dos Vereadores. ?Não valeu a pena.? Os contribuintes da cidade bancaram também as indenizações que a Prefeitura foi obrigada a pagar pela desapropriação do terreno escolhido pela Mercedes. No local da fábrica viviam 200 famílias, que foram praticamente ?expulsas?. ?Nos deram terreno e dinheiro para construir uma outra casa, mas até hoje não temos a escritura oficial?, disse à DINHEIRO Nair Carvalho, de 52 anos, que foi removida a toque de caixa quando começaram as obras. ?Lá eu tinha um jardim com uma hortinha. Aqui, eu mal consigo me mexer dentro do banheiro?, reclama. Custódio Matos, que era o prefeito da cidade na época, defende os incentivos: ?Fizemos o que achamos ser melhor para a cidade?.

Naquela época, a notícia da chegada da Mercedes provocou uma febre germânica na cidade que, no passado, era chamada de Manchester mineira em razão do seu poderio industrial. As duas principais escolas particulares contrataram tradutores e professores que falavam alemão para poder atender aos filhos dos executivos. O setor imobiliário também lançou uma série de condomínios de luxo, muitos deles com obras agora paralisadas. O comércio investiu e centenas de famílias migraram de outras cidades com a esperança de uma vida melhor. ?O sonho virou pesadelo?, resume o comerciante Walter Rodrigues, que se endividou para ampliar o mercadinho localizado nas proximidades da Mercedes. Com a saída de cena do Classe A e o cancelamento do pequeno Formore, o ambiente em Juiz de Fora é dos piores. A DaimlerChrysler descarta a alternativa de transformar a planta mineira em uma montadora de caminhões ou utilitários ? veículos em que a marca continua sendo bem-sucedida nas vendas internas e nas exportações. Outra opção seria procurar algum outro modelo da marca que tivesse empatia com o mercado brasileiro. Isto é: um carro barato. Mas o repórter Eduardo Pincigher, da DINHEIRO, conversou com executivos de cinco das principais fabricantes de autopeças do País e descobriu que nenhuma delas foi consultada sobre um novo possível fornecimento. ?Não, a Mercedes não nos procurou para desenvolver qualquer coisa nova?, dizem. Fechar os portões parece ser a aposta mais provável, apesar do investimento de US$ 800 milhões e da multa de R$ 200 milhões que a empresa terá de pagar ao governo estadual de Minas caso faça as malas antes de 2016. Se a Mercedes mantiver a fábrica aberta, o fará apenas para protelar o pagamento da multa.