A chanceler alemã, Angela Merkel, defendeu neste sábado a integridade territorial da Ucrânia e advertiu para a possibilidade de novas sanções contra a Rússia, durante uma visita altamente simbólica a Kiev, em plena escalada da tensão no leste separatista pró-Rússia.

“O significado de minha visita é demonstrar que a integridade territorial da Ucrânia é crucial”, disse em uma entrevista coletiva conjunta com o presidente ucraniano, Petro Poroshenko.

“Não podemos descartar refletir sobre novas sanções se não observarmos progressos”, disse Merkel sobre a busca de uma saída para crise no leste do país, onde as forças ucranianas lutam contra os separatistas pró-Rússia.

Entre os dois lados beligerantes é necessário um “cessar-fogo bilateral e um controle efetivo da fronteira” entre Rússia e Ucrânia, completou.

Em Kiev, a viagem de Merkel, a líder ocidental mais influente a visitar o governo ucraniano pró-Ocidente desde o início da crise, é interpretada como um gesto de apoio, sobretudo porque acontece na véspera do feriado nacional da independência da Ucrânia.

Ao ser questionada sobre a Crimeia, península ucraniana anexada pela Rússia em março, Merkel chamou a medida de “ilegal” e destacou que se a Europa considerasse as ações legítimas, toda a integridade territorial do continente estaria ameaçada.

A visita acontece em meio às condenações internacionais à entrada na Ucrânia de um comboio de quase 300 caminhões russos com ajuda humanitária para a população do reduto separatista de Lugansk.

Todos os caminhões do comboio humanitário russo com ajuda para os territórios controlados pelos separatistas pró-Rússia no leste da Ucrânia retornaram para a Rússia neste sábado, anunciou a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE).

Depois de uma semana de espera, Moscou ordenou na sexta-feira a entrada na Ucrânia do comboio com a ajuda humanitária, sem a permissão das autoridades ucranianas nem a verificação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

Segundo os observadores da OSCE, 227 veículos atravessaram a fronteira em seis grupos.

O comboio transportava, segundo o Kremlin, 1.800 toneladas de alimentos, água, medicamentos e geradores de energia elétrica.

Os veículos descarregaram a ajuda em Lugansk na sexta-feira à noite, informou a televisão pública, mas a distribuição ainda não teve início.

“A visita de Angela Merkel a Kiev na véspera do Dia da Independência ucraniana e durante o conflito armado no qual a Rússia está envolvida é um sinal de apoio”, afirma Vassyl Filiptchuk, analista político independente.

Para alguns analistas, Merkel deseja convencer a Ucrânia a fazer concessões para ajudar Vladimir Putin a salvar as aparências e evitar mais sanções contra Moscou, que começam a pesar sobre a economia alemã.

A visita antecede uma reunião regional na terça-feira em Minsk, capital de Belarus, que deve ter as presenças de Vladimir Putin e Petro Poroshenko, além de dirigentes da União Europeia.

“Ucrânia e União Europeia atuam de maneira coordenada, assim será em 26 de agosto em Minsk”, disse Poroshenko.

O presidente ucraniano declarou que não sacrificará a soberania do país em troca da paz no leste da Ucrânia, onde o conflito deixou mais de 2.000 mortos em quatro meses, além de 400.000 deslocados.

Merkel e Poroshenko anunciaram a criação em breve de um fundo especial de 500 milhões de euros para a reconstrução da infraestrutura de Donbas, a bacia de mineração do leste da Ucrânia devastada pelo conflito entre insurgentes pró-Rússia e as forças governamentais.

Seis civis, incluindo três membros da mesma família, morreram neste sábado em um bombardeio no leste da cidade ucraniana de Donetsk, reduto dos separatistas pró-russos.

Nesta cidade que contava com um milhão de habitantes antes do conflito, os barulhos das bombas não pararam durante todo o dia. Durante a tarde, os combates eram intensos e uma fumaça negra e espessa podia ser vista sobre o bairro de Kalininski, no leste da cidade.

Vários morteiros atingiram um conjunto residencial nessa área.