14/10/2009 - 7:00

Rotina de apreensão: trabalhadores sul-coreanos fazem treinamento de sobrevivência, enquanto acompanham as negociações de paz com os vizinhos do Norte
Dias atrás, o alarme de emergência soou na fábrica da Cosy Electronics, em Paju, na Coreia do Sul. Os 3,6 mil funcionários esvaziaram o prédio em poucos minutos, e ficaram confinados por quase meia hora em três andares subterrâneos, onde estão encaixotados os estoques. Mas não havia nenhum problema real.
Tratava-se de um treinamento, como os que são realizados para casos de incêndio ou terremotos. A diferença é que desta vez o objetivo é outro. A companhia sul-coreana preparava os funcionários para uma eventual ofensiva militar dos vizinhos do Norte, que estão a menos de dez quilômetros dali com fome de guerra, arsenal duas vezes maior do que o da Coreia do Sul e um míssel nuclear capaz de alcançar o Estado americano do Alaska. A Cosy não é uma exceção.
O medo dos funcionários da fabricante de eletrônicos reflete a precaução com que as empresas do país têm acompanhado as oscilações de humor do líder norte-coreano Kim Jong-il. A cidade de Paju, que poderia ser comparada a uma zona franca de Manaus, abriga ainda a maior fábrica de tevês de LCD do mundo, da LG, além de um centro de produção da Samsung e centenas de fábricas fornecedoras de componentes.
Um ataque ao polo industrial seria um golpe na jugular da economia coreana, essencialmente exportadora. Treinamentos como este têm ocorrido frequentemente desde o início do ano, quando as ameaças tornaram-se uma rotina. O receio ficou mais concreto depois que o governo de Pyongyang, capital da Coreia do Norte, disse que considera uma declaração de guerra o fato de Seul ter aderido à iniciativa de não proliferação de armas nucleares, o que lhe permite, por exemplo, apreender navios norte-coreanos suspeitos de transportar armamento proibido.
E mais: na contramão da economia dos dois países, o Norte é militarmente mais poderoso que o Sul. Hoje, a Coreia do Norte mantém 1,12 milhão de soldados, 3,5 mil tanques de combate, 1,5 mil aviões de guerra e 420 navios. Já a Coreia do Sul possui 587 mil soldados, 2.330 tanques, 790 aviões e 162 navios.

a adesão da Coreia do Sul à iniciativa de não proliferação nuclear provocou as ameaças do líder do Norte, Kim Jong-IL
Apesar do clima de apreensão, no entanto, as empresas mantêm um discurso pacificador. “Acreditamos mais em uma futura reunificação do que em um combate. Somos da mesma raça, falamos a mesma língua e há um esforço para consolidar a paz na península coreana”, disse à DINHEIRO o vice-presidente de comunicação corporativa da LG, Paul Chung.
“Um ataque só aceleraria o colapso do governo norte-coreano. E não interessa a ninguém”, completou o professor de ciências políticas da Universidade Nacional de Seul, Lee Mun-Woong. De fato, a maioria dos analistas sul-coreanos considera a atitude bélica do regime de Kim Jong-il uma estratégia.
Pyongyang vive uma guerra interna pela sucessão do líder comunista, e procura ofuscar os problemas econômicos com provocações ao Conselho de Segurança da ONU. A comunidade internacional, incluindo a China e a Rússia, condena firmemente as recentes declarações do regime e prepara uma nova resolução e mais sanções. Por enquanto, um alento aos sul-coreanos. E também às empresas.