28/03/2007 - 7:00

MIGUEL JORGE Depois da Volks e do Santander, seu destino é Brasília
Na véspera de completar 62 anos, o executivo Miguel Jorge, vice-presidene do Santander, foi chamado para uma reunião em Brasília. Ao entrar no Palácio do Planalto, na tarde da quarta-feira 21, o presidente Lula o esperava ansioso. Queria definir uma peça estratégica no tabuleiro da reforma ministerial. Assim que o viu, Lula o chamou de ?Miguelão? e o abraçou. Em seguida, os dois fizeram uma breve viagem no tempo. Primeiro, voltaram à década de 70, quando Lula organizava greves e o jornalista Miguel Jorge, então no comando de O Estado de S. Paulo, dedicava páginas e mais páginas ao promissor sindicalista. Depois, relembraram uma história dos anos 90, quando Miguel já havia trocado as redações pelo mundo corporativo e estava na Volkswagen. Em meio a uma greve duríssima, ele recorreu a Lula, que foi seu interlocutor secreto para apagar o incêndio. Naquele momento, o sindicalismo moderado prevaleceu sobre a ala radical e a Volks pôde implementar seu projeto de automação industrial. De volta ao presente, Lula foi direto ao ponto. ?Preciso de você no governo?, disse ele. Miguel, que já planejava se mudar para o litoral da Bahia, não titubeou. Adiou a aposentadoria e aceitou o convite para ser ministro do Desenvolvimento. ?Foi uma convocação?, disse a um amigo. Em seguida, Lula telefonou para Luiz Fernando Furlan, o titular da pasta, e o chamou a participar da conversa. Ficou acertado que os dois embarcam juntos para o Uruguai no domingo 25, antes da posse de Miguel Jorge em Brasília, que será na quarta-feira 28. ?Ele vai começar a trabalhar antes mesmo de receber?, brincou Furlan.

LUIZ FERNANDO FURLAN Ministro do Desenvolvimento até a quarta-feira 28
Miguel Jorge não foi a primeira opção para o Desenvolvimento. O presidente já havia sondado Jorge Gerdau, o barão do aço, e Maurício Botelho, da Embraer. Ainda assim, Miguel tem um perfil bem próximo ao que Lula vem buscando. Depois de uma gestão eficiente na área internacional, que fez com que as exportações saltassem de US$ 60 bilhões para US$ 142 bilhões e elevou o superávit de US$ 13 bilhões para US$ 45 bilhões, o governo procurava alguém que pudesse liderar uma agenda voltada para os desafios internos. Miguel, que foi executivo da Autolatina e da Volks no tempo das câmaras setoriais, oferecia essas qualidades. Não se espere dele, no governo, um discurso contra a valorização do real em relação ao dólar. ?Ele não vai entrar em guerras perdidas?, diz um amigo. Mas pode-se cobrar de Miguel uma atividade intensa no sentido da desoneração tributária de várias cadeias produtivas. ?Ele tem vários talentos que eu mesmo não possuo?, admite Furlan.

MINISTÉRIO ENCOLHIDO Miguel Jorge não terá o comando do BNDES
Além de uma amizade com o presidente Lula que já dura mais de 30 anos, Miguel Jorge contou com dois grandes aliados para chegar ao Desenvolvimento. Um deles foi o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, com quem Miguel é unha e carne. Em várias ocasiões, eles estiveram na mesma mesa de negociações, ainda que em lados opostos. ?O Miguel é uma pessoa que constrói consensos sem criar conflitos e que tem o perfil ideal nesse novo desenho do ministério?, diz o empresário Mário Garnero, que já trabalhou com ele na Volkswagen. Seu outro aliado, tão importante quanto Luiz Marinho, foi o ex-ministro Antônio Palocci, hoje deputado federal. Em 2002, antes da disputa presidencial, Miguel já estava no Santander e aproximou Palocci dos grandes banqueiros nacionais. Isso ajudou o PT a arrecadar recursos de campanha e também deu ao Santander importantes vitórias. O banco, que comprou o Banespa, conseguiu manter as contas do funcionalismo nas prefeituras administradas pelo PT e, quando surgiu a oportunidade do crédito consignado, o Santander teve uma postura francamente favorável, ao contrário dos grandes bancos nacionais, como o Itaú e o Bradesco.
Alto, encorpado e dono de um bigode que impõe respeito logo de cara, Miguel está acostumado a mandar desde jovem. Foi chamado pela família Mesquita para chefiar o tradicional O Estado de S. Paulo com pouco mais de 30 anos de idade. Apesar da experiência de comando, distribuir ordens não é do seu feitio. Seu estilo é muito mais suave e discreto. Ao longo de sua carreira corporativa, ele comprou apenas duas brigas públicas. Uma delas foi com o ex-presidente Fernando Collor, quando ele definiu os veículos nacionais como ?carroças?. A outra foi com o executivo italiano Pacífico Paoli, que fez a Fiat superar a Volkswagen com o sucesso do carro popular, que contava com um regime tributário diferenciado. Neste caso, Miguel Jorge derrapou ao dar vazão a uma certa xenofobia, dizendo que um estrangeiro não poderia ditar as regras da indústria automobilística. ?Brigávamos em campos opostos e ele tinha que defender os interesses da Volks?, disse Paoli à DINHEIRO. ?Desejo muito sucesso e acho que ele está à altura do cargo.?
O desempenho de Miguel Jorge no Desenvolvimento, porém, pode ser prejudicado pela falta de instrumentos. Assim como seus antecessores, ele não terá nas mãos o BNDES, que é a principal jóia da coroa. Com um orçamento da ordem de R$ 50 bilhões, o banco de fomento deve continuar comandado por Demian Fiocca, que é ligado ao ministro da Fazenda, Guido Mantega. Sob as asas de Miguel, ficariam a Suframa, que cuida da Zona Franca de Manaus, e a Agência de Promoção das Exportações. No entanto, ele poderá ganhar espaço aos poucos, com paciência e habilidade. Nos artigos quinzenais que publica nos jornais Gazeta Mercantil e Correio Braziliense, Miguel tem feito elogios rasgados ao Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. Com isso, ganhou pontos com Lula e Mantega.
Pego de surpresa pelo convite, Miguel não teve tempo sequer de festejar o aniversário com a esposa, Charlotte, com quem é casado há 37 anos. Na quinta-feira 22, ele amanheceu na ante-sala de Gabriel Jaramillo, presidente do Santander, a quem comunicou sua saída. Jaramillo entendeu suas razões e agradeceu a Miguel pelos seis anos de dedicação ao banco, que hoje é a instituição estrangeira com melhores condições de competir com Itaú e Bradesco. Difícil mesmo será adiar a mudança para a mansão que ele acaba de construir na paradisíaca península de Maraú, na Bahia. Lá, ele planejava levar uma vida de pescador, enquanto Charlotte assumiria uma escola municipal que o casal construiu. ?A vida me deu muito mais do que eu merecia e chegou a hora de devolver?, dizia Miguel. Depois do convite de Lula, ele terá de retribuir no setor público.
US$ 45 bilhões é o superávit comercial acumulado em 12 meses |