?Meu filho tem uma aptidão especial para investir?, diz, orgulhoso, o aposentado Maurice E. Mathie. ?Ele é muito talentoso.? Também, pudera. Qualquer pai que tenha um filho que nos últimos dois anos movimentou sozinho mais de US$ 8 milhões na compra e venda de títulos e ações tem mesmo do que se gabar. A atividade do filho de seu Maurice resultou no ano passado numa renda bruta de US$ 900 mil ? quantia que muito executivo chefe de grande companhia só ganha depois de suar bastante a camisa. O que torna a história mais extraordinária é que o milionário em questão não está à frente de companhia nenhuma, não é estrela do mercado financeiro e muito menos dispõe de um time de analistas de investimento para assessorá-lo. Michael Mathie é um presidiário que cumpre 30 anos em uma penitenciária de segurança máxima por assassinato. Ou seja, sua fortuna está sendo construída de uma maneira no mínimo inédita: atrás das grades. ?Essa atividade está sendo muito importante para ocupar o tempo dele?, disse o pai à DINHEIRO.

As condições para um investidor são as piores possíveis. Presos americanos, ao contrário dos brasileiros, não têm celular. Terminantemente proibido de atender ligações ao telefone (DINHEIRO conseguiu fazer um breve contato telefônico com Mathie, mas ele não pôde falar à vontade sob risco de ser punido), sua única comunicação com o mundo exterior são chamadas a cobrar para a casa do pai. Num dia de mercado mais agitado chega a fazer 10 ligações, o que o transforma em um cliente rentável para a telefônica, com contas mensais de US$ 500 a US$ 1.200. ?Eu poderia pagar uma prestação da casa própria com o que pago à MCI?, comparou o preso, em entrevista recente. Hoje, com a economia à beira de uma recessão, não vai além de uma chamada por dia. Depois de ouvir o filho, seu Maurice faz a compra e venda de ações pela Internet. ?Ajudo da maneira que posso?, diz o pai.

O acesso à informação em sua ?residência?, o presídio de Elmira, no Estado de Nova York, é difícil. O acesso à Internet é proibido. Mathie toma suas decisões baseado em notícias de uma dúzia de jornais e revistas de finanças que recebe em sua cela. Os funcionários reclamam de excesso de correspondência, mas ele compensa a seu modo. ?Eles pedem dicas de investimento para garantir suas aposentadorias?, conta o preso investidor. Sua rotina começa às 4 da manhã, quando acorda para acompanhar o mercado europeu e o japonês pela tevê. Isso tem dado munição para Mathie operar. Não raro ele tem conseguido muito retorno em pouco tempo. Numa manhã, por exemplo, o investidor comprou US$ 50 mil em ações de uma empresa chinesa de tecnologia. Eram 8 da manhã e o papel valia US$ 18. Duas horas e meia depois a ação estava cotada a US$ 70. Mathie recuperou seus US$ 50 mil e ainda apurou outros US$ 150 mil.

Vai levar um bom tempo para que o dinheiro possa ser desfrutado pelo milionário interno de Elmira. Todos os pedidos de perdão feitos pelo advogado de Mathie foram negados. Para a família, o fato de ele ter descoberto uma nova vocação atrás das grades deveria ser levado em conta na revisão da pena. ?Meu filho é o perfeito exemplo da reabilitação?, diz o pai. Por ora, os parentes são os maiores beneficiados pela fortuna. Mathie comprou uma casa para a família na cidade litorânea de Long Island e quatro carros: um para cada uma de suas duas irmãs, um para o pai e um para si próprio. O seu é um Dodge Viper, conversível avaliado em US$ 97 mil.

À medida que prospera e ganha fama na cadeia de mago das finanças, Mathie se distancia de um passado conturbado. Ele foi condenado em 1989 por homicídio culposo. Tinha 21 anos e acabava de se livrar de uma dependência química. Ao ser preso, foi enviado para uma penitenciária onde sofreu abuso sexual. Em virtude disso, em 1996 Mathie ganhou uma ação contra o governo federal e recebeu uma indenização de US$ 500 mil, dos quais US$ 75 mil foram transformados em 1998 em capital inicial para entrar na bolsa. Ele, como o pai, se orgulha da nova função. Numa página da Internet que escreveu a seu próprio respeito, ele se apresenta como ?financeiramente independente e investidor do mercado de ações?. E em sua declaração de imposto de renda, esbanjou confiança: no campo ?ocupação?, Mathie não hesitou e se identificou para a receita como ?investidor?.