30/04/2008 - 7:00
O ANO DE 1968 É UM DIVISOR de águas para toda uma geração. Marcado por protestos de ruas, por modismos e comportamentos revolucionários, tanto no Brasil quanto no Exterior, ele não se contém em seus 12 meses. Já se afirmou, em livro, que “nunca terminou”, por causa das repercussões de seus acontecimentos. Parece que ele condensou toda a necessidade de mudanças de uma geração. No Brasil, jovens estudantes foram às ruas lutar contra o regime militar e o sistema capitalista, apontado então como o vilão da exploração do homem pelo homem. A palavra de ordem era pôr fim à “mais valia”, expressão retirada dos textos de Karl Marx. O mundo estava em plena Guerra Fria, polarizado entre capitalistas e comunistas. Havia o muro de Berlim, a União Soviética e Fidel Castro, que prometia prosperidade a uma ilha. Em maio, estourou a greve geral em Paris, o ponto culminante de todo um processo.
Quarenta anos depois, 1968 mostra que deu, ao mundo e ao País, inúmeras contribuições. Há quem diga que o anseio por liberdade daquela geração pavimentou a economia de mercado que predomina hoje no planeta. É interessante saber que daquelas fileiras esquerdistas e passeatas barulhentas surgiram empresários bemsucedidos hoje no Brasil. São líderes corporativos de peso. Eles mudaram o mundo? Ou o mundo os mudou? “Mudanças são positivas e certas ideologias não são compatíveis com o amadurecimento do indivíduo”, diz Glauco Arbix, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), sobre a geração 68. “A visão mais romântica dos fatos, com o tempo, se dissipa”, acrescentou. Mas alterações no cenário político foram decisivas. “No Brasil, por exemplo, o movimento das Diretas Já mostrou que a sociedade pode ser modificada por dentro, por meio dos partidos, e não mais por meio da revolução”, afirma Marco Antônio Teixeira, cientista político. DINHEIRO entrevistou cinco empresários brasileiros que foram protagonistas dos acontecimentos de 1968. Com maior ou menor grau de envolvimento com as idéias de esquerda da época, hoje eles se apresentam orgulhosamente como fundadores de negócios. Eles são os militantes do capitalismo.
CONGRESSO DE IBIÚNA
A Método Engenharia é uma das mais renomadas empresas de construção do País. É difícil imaginarmos que seu dono, o empresário Hugo Marques da Rosa, estava há 40 anos no congresso que a União Nacional dos Estudantes (UNE) realizou em Ibiúna. Jovens estudantes tiveram de encarar uma chuva danada e a polícia, que apareceu por lá. Muitos foram presos, Rosa inclusive. Matriculado no curso de engenharia da USP e morando no conjunto residencial do campus, Rosa conta que foi detido também quando a Polícia Militar invadiu o alojamento. “Todas as grandes manifestações da época em São Paulo eram organizadas lá”, diz Rosa, levado com os amigos para o presídio Tiradentes. A extinção dos diretórios estudantis, no final de 1968, colocou Rosa diante de um dilema: cair na clandestinidade ou seguir com a luta pelos ideais de liberdade e democracia no mundo corporativo. Rosa optou pelo segundo caminho e fundou a Método Engenharia, em 1973. Ironicamente, uma das primeiras obras da empresa foi a demolição do presídio Tiradentes. No local foram erguidos uma agência da Caixa Econômica Federal e um teatro. A luta contra a ditadura ajudou a moldar o caráter e o estilo de gestão de Rosa. “Meu engajamento no movimento estudantil tinha como objetivo a luta pela democracia”, diz. “E isso faz parte do DNA da companhia.” Para ilustrar, ele cita que a Método foi pioneira na adoção da gestão participativa. A empresa liderou também o processo de instalação de classes de alfabetização em canteiros de obra.
O professor Oriovisto Guimarães é um defensor da liberdade dos cidadãos e hoje comanda o Grupo Positivo, que fatura R$ 2,6 bilhões por ano. Na juventude, quando sentiu que sua liberdade estava ameaçada, entrou na luta política contra o regime militar no Paraná. Dedicou seu tempo e poder de oratória para mobilizar jovens em busca da democracia. Estudante de engenharia civil da Universidade Federal do Paraná, ele chegou a integrar o Partido Operário Comunista (POC). Esteve no Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna e saiu de lá para o presídio Tiradentes, em São Paulo. “Minha história não é diferente da de dezenas de pessoas desta geração”, diz ele. “Minha casa era vigiada, o passaporte foi negado e minha vida era cheia de restrições”, afirma. “Livros ligados a Marx e ao pensamento de esquerda tinham de ser escondidos dentro de casa.” A mudança de vida foi provocada pelo nascimento do filho. “Minha vida de estudante independente ficou para trás”, diz. Guimarães passou a se dedicar a outra paixão: o ensino. Em 1972, fundou o Grupo Positivo. Hoje, cerca de 10 milhões de alunos em todo o País utilizam material produzido pelo Grupo Positivo.
Roberta Namour
LIVROS PROIBIDOS
PALAVRAS DE ORDEM RENOVADAS 40 ANOS DEPOIS
José Xavier Cortez tem uma relação curiosa com os livros, hoje seu principal negócio, pois é dono da Livraria e Editora Cortez. Ele nasceu no interior do Rio Grande do Norte e para ascender na vida ingressou, aos 17 anos, na Marinha. Era o ano de 1955 e, em seguida, ele foi transferido para o Rio de Janeiro. Diante de humilhações impostas por oficiais e das condições precárias de trabalho, Cortez se aliou ao grupo que fundou a Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, em 1962. Aquilo virou um barril de pólvora e um estopim para a o golpe militar de 1964. “Não tinha conhecimento da vida política, mas me envolvi por causa das condições impostas aos marinheiros”, afirma ele. Foi expulso da Marinha e decidiu recomeçar a vida em São Paulo. Foi trabalhar no estacionamento que pertencia a um parente, mas estava determinado a ingressar no curso de economia da PUC. Logo depois, passou a vender livros na faculdade. “Nessa época, surge o embrião das minhas empresas”, diz. Recebia dos professores encomendas de livros proibidos, pois os mestres confiavam no ex-marinheiro que protagonizou um dos capítulos da Revolução de 64. Cortez montou sua primeira livraria em 1977. Hoje, a rede tem 20 mil títulos e 70 mil exemplares.
Apesar de ter sido criado em uma família seguidora do liberalismo político e econômico, Hélio Paulo Ferraz sempre teve uma visão mais à esquerda do grupo. Nos chamados Anos de Chumbo, Ferraz era um ativo militante da política estudantil no Rio e Janeiro. Foi vice-presidente do diretório acadêmico da PUC, onde se graduou em direito. Também participou da histórica passeata dos 100 Mil, promovida por estudantes no Rio. Com o fechamento do diretório, por força do AI-5, Ferraz passou a se dedicar à empresa da família, atuando na área financeira do Estaleiro Mauá. Sua carreira no mundo corporativo incluiu ainda a presidência do Sindicato Nacional da Indústria de Construção Naval. As militâncias estudantil e partidária (que inclui passagens pelo PL e PPS) o ensinaram a valorizar o diálogo como via para resolução dos conflitos. Algo que nem sempre era bem-visto por seus pares. “Os empresários achavam que eu negociava demais”, diz. Hoje, ele está à frente da Leme Consultoria, que atua na prospecção de negócios no Rio. Ferraz afirma que, se tivesse de optar por uma palavra de ordem, bradaria “criatividade”. “Tratase do principal insumo de sucesso no mundo corporativo”, opina ele.
R.F.
MILITANTES ADOTARAM NOVOS CONCEITOS DE GESTÃO
PASSEATA DOS 100 MIL
Carlos Mariani Bittencourt, presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), lembra com bom humor os fatos de 1968. Ele recorda em particular da Passeata dos 100 mil. No dia da passeata, Mariani, então engenheiro da empresa Magnesita, estava no escritório da companhia no Rio. “Eu não era um militante, pensava na carreira, mas tinha amigos na turma que se mobilizava”, diz. Tentou dar uma forcinha à passeata. “Recebi uma ligação do Zuenir (Ventura, escritor) perguntando como estava o ato”, conta. “Ele queria saber se tinha muita gente e pediu para eu liberar o pessoal. O Zuenir perguntava: ‘Já liberou o pessoal?'” Mariani afirma que atendeu ao pedido e liberou os funcionários. “Mas a turma preferiu ir para casa descansar, alegando que a passeata era de estudantes”, recorda. Ventura conta que, na ligação, fez uma “brincadeira” que depois lhe custou caro por conta do grampo que a Polícia pôs em seu telefone. “O diálogo intrigou o coronel do meu IPM, que perguntava: ‘Quem era esse tal de Carlinhos? Era do Partido Comunista?'” Hoje, Mariani, que ajudou a criar o Pólo Petroquímico de Camaçari, avalia que o País perdeu “muito tempo” naqueles Anos de Chumbo. “Minha geração viveu grande frustração”, diz. “Mas, finalmente, voltamos a crescer.”
Ricardo Osman