05/03/2010 - 1:00
Em uma de suas últimas entrevistas à imprensa, concedida à DINHEIRO em setembro de 2009, José Mindlin, ainda lúcido e bem de saúde, revelou, sem cerimônias, o seu epitáfio: ?Aqui jaz o homem que fabricou pistões a maior parte da vida sem saber do que se tratava.? Morto no dia 28 de fevereiro, ao 95 anos, o bibliófilo não fazia a menor questão de ser lembrado como empresário, mesmo tendo fundado e comandado ? por 46 anos ? a Metal Leve, uma das mais importantes indústrias de autopeças do País.

Bom de prosa: em uma de suas últimas entrevistas, concedida à DINHEIRO, em setembro de 2009,
Mindlin contrariou sua secretária e conversou por mais de uma hora.
O que Mindlin queria e desejava era entrar para a história como o sujeito que cultivou uma paixão arrebatadora pela literatura, a ponto de ser reconhecido como o maior e mais importante colecionador de livros do Brasil, dono de um acervo de mais de 45 mil títulos. Mindlin sempre subestimou seu talento como empreendedor. Adorava contar, por exemplo, o dia em que levou sua livraria, a Pathernon, à falência cultivando um modelo suicida de negócios: vendia os livros e depois, arrependido, os comprava pelo dobro do preço.
Mas Mindlin, com exceção da experiência frustrada como dono de livraria ? ele jamais transformou seu hobby em lucro, tanto que doou toda sua coleção para a USP ?, foi um empresário competente, responsável por grande parte do sucesso da Metal Leve.
Mesmo que quisesse, Mindlin não poderia levar uma vida franciscana ? tinha uma família para criar e livros para comprar ? desde a juventude, leu cerca de 100 obras, em média, por ano. Depois de uma breve experiência como advogado, Mindlin fundou, com um grupo de amigos, no começo dos anos 50, a Metal Leve, na esteira do crescimento da indústria automobilística.
Capitaneada por Mindlin, a Metal Leve foi por muitos anos, devido ao seu alto padrão tecnológico, apontada como uma das ilhas de excelência da indústria brasileira ? chegou até a instalar uma unidade nos Estados Unidos no final dos anos 80, numa época em que os grupos brasileiros tinham uma presença quase insignificante no Exterior.
Para o jurista Celso Lafer, ex-sócio de Mindlin na empreitada, a Metal Leve não se tornaria uma empresa sólida sem o espírito visionário do bibliófilo. ?Foi Mindlin quem insistiu para que o grupo voltasse suas atenções para a exportação, numa época de economia fechada e de poucas ousadias?, afirma Lafer.
Com a abertura da economia brasileira no começo da década de 90, a Metal Leve não resistiu à concorrência internacional. Seus custos de produção eram maiores e os preços poucos competitivos. Atolada em dívidas, acabou vendida para a multinacional alemã Mahle. O ex-executivo da General Motors André Beer, que dedicou meio século à montadora americana e foi, portanto, cliente da Metal Leve, lembra que Mindlin não só contribuiu para modernizar a empresa de autopeças como ajudou a dar um caráter humanitário ao grupo.
?Eu ficava espantando ao ouvir a conversa de Mindlin com seus funcionários. Ele dizia que eles deveriam se organizar, criar sindicatos fortes e exigir melhores salários. Eu não acreditava: ele era o patrão!?, diz Beer.
O dia em que o livro venceu a propina
A entrevista com José Mindlin, realizada em setembro de 2009, uma das últimas concedidas pelo bibliófilo, foi cercada de vários cuidados. Mônica, sua secretária, avisou que, por causa dos problemas de surdez e da fragilidade física de Mindlin, o papo não poderia durar mais do que 20 minutos.
Mas bastou o repórter entrar em seu casarão, no bairro do Brooklin, em São Paulo, para que todos os protocolos fossem derrubados pelo próprio entrevistado. A conversa de pé de ouvido durou mais de uma hora. Mindlin lembrou de todas as histórias, de sua frustrante e, ao mesmo tempo, prazerosa experiência como dono de livraria e de sua rotina como executivo da Metal Leve.
Soltou uma gargalhada ? para espanto da secretária e da enfermeira ? ao recordar de como fazia para conseguir as licenças dos fiscais sem apelar ? como era de praxe ? para o pagamento de propina. Sentava-se na recepção, abria um livro e não arredava o pé enquanto a licença não fosse dada. À espera do documento, chegou a ler a obra inteira de Balzac. ?Hoje, com tanta corrupção por aí, acho que seria obrigado a reler todos os meus seis mil livros?, disse, encerrando o papo. Nunca na história deste País houve um empresário como José Mindlin.