As ações das grandes empresas de computação que sustentam o ecossistema do Bitcoin voltaram a superar o próprio desempenho da criptomoeda, impulsionadas pela migração para modelos híbridos baseados em inteligência artificial (IA) e computação de alto desempenho (HPC).

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Antes conhecidas como mineradoras, em alusão à extração de commodities como o ouro, essas companhias sempre estiveram expostas à volatilidade extrema do preço do Bitcoin. Há três anos, o setor surfou o boom inicial da IA, mas logo enfrentou uma forte correção, com a queda da lucratividade da mineração e o aumento da competição global.

Mesmo após a renovação de máximas históricas no mercado de criptomoedas, o Bitcoin fechou o ano de 2025 em queda de 6,30%, permanecendo próximo dos USD 100.000. O otimismo dos investidores se manteve firme desde que o segundo governo Trump adotou uma postura abertamente favorável às criptomoedas.

Contudo, os maiores beneficiários da retomada cripto deste ano não são os detentores de Bitcoin, mas sim as próprias mineradoras. Um índice que acompanha as empresas de mineração listadas em bolsa acumulou em 2025 uma valorização superior a 200% no ano. Diferente dos ciclos anteriores, quando essas empresas subiam apenas em correlação com o Bitcoin, agora o mercado passou a enxergá-las como players estratégicos de infraestrutura tecnológica.

Cipher Mining Inc. e IREN Ltd. são exemplos emblemáticos dessa transição. As ações de ambas, listadas na Nasdaq, dispararam mais de 300% e 500%, respectivamente, em seu melhor momento de 2025, à medida que diversificaram suas operações e passaram a fornecer capacidade computacional para IA.

No início do ano passado, a Cipher assinou um contrato de colocation de 10 anos com a Fluidstack, avaliado em aproximadamente US$ 3 bilhões. O acordo inclui US$ 1,4 bilhão em obrigações de leasing e garantias equivalentes a uma participação de 5,4%, com apoio parcial do Google. É um dos sinais mais claros da convergência entre mineração de criptomoedas e infraestrutura de IA.

 

Essa reconfiguração do setor ocorre após o halving do Bitcoin em 2024, que reduziu as recompensas de 6,25 para 3,125 BTC por bloco. Desde então, a maior dificuldade da rede e a queda no volume de transações vêm comprimindo as margens. Mesmo com o Bitcoin valendo próximo de USD 100.000 a unidade, o modelo econômico da mineração pura continua sob pressão, o que acelera a transformação estrutural das mineradoras em provedores de computação de alto desempenho.

O que antes era um setor dependente da sorte e do preço do Bitcoin agora se reposiciona como um dos pilares da economia digital moderna, oferecendo poder computacional, armazenamento e energia como serviços estratégicos.

Se o ouro digital foi a narrativa que deu origem a essas empresas, a inteligência artificial pode ser o novo filão. E, desta vez, não é o preço do Bitcoin que vai determinar seu futuro, mas sim a demanda global por capacidade de processamento, o verdadeiro recurso escasso da próxima década.