21/06/2006 - 7:00
Talvez a inspiração sejam as próprias mulheres brasileiras. Talvez isso venha de algum recanto profundo da cultura nacional. Mas o fato é que há alguma coisa no ?software? dos meninos brasileiros que os leva a idolatrar mulheres fictícias. A constatação é de Alceu Baptistão, único designer do País a conquistar o Maya Master, prêmio máximo para criadores virtuais, e explica muita coisa a respeito dele mesmo. Sócio da produtora Vetor Zero, Baptistão e sua equipe foram responsáveis por animações memoráveis da propaganda brasileira. São dele a formiguinha da Philco, a tartaruga e o siri da Brahma, o ET do Terra e os personagens da recente campanha do Unibanco. Como resultado desse trabalho, a Vetor Zero recebeu nada menos do que oito Leões de Cannes, em 10 anos. Mas nada rendeu tanto prestígio à produtora e ao próprio Baptistão do que Kaya ? uma garota sardenta de olhos verdes e boca grossa cuja boina lhe confere um ar elegantemente marcial. Finalista do concurso Miss Digital World de 2004 (sim, há um concurso anual para beldades virtuais) ela surgiu para o mundo poucos dias após ser finalizada na bíblia da área, o livro Digital Beauties, da prestigiada editora Taschen. Kaya e sua ?irmã? Ilana, também criada por Baptistão, foram destaque numa ampla reportagem na revista Wired sobre modelos virtuais. ?Por causa dela recebi prêmios e encomendas da Rússia aos Estados Unidos?, diz Baptistão.
Na última edição do Miss Digital World (que, aliás, está com as inscrições para a próxima edição abertas), o Brasil também estava representado com Elma Silva, modelo bem brasileira, com quadris e coxas largas, criada por Waniel Jorge. Ficou entra as 15 finalistas do concurso. Isso sem contar com Eva Byte, a apresentadora do Fantástico que, a cada dia, ganha mais detalhes e atributos físicos. Criada a partir de uma mistura de diversas jornalistas da Rede Globo, a apresentadora virtual inicialmente tinha apenas um rosto, que aparecia durante a leitura das notícias. Com o passar do tempo ganhou corpo e interage com os apresentadores reais. E pode ter cabelos, roupas, cor dos olhos ou da pele transformados, de acordo com o teor da notícia. Se o assunto for viagens espaciais, por exemplo, Eva Byte pode aparecer vestida de astronauta. No rapidíssimo mundo da internet, entretanto, as modelos virtuais deixaram de ser moda do mesmo jeito que viraram febre. No início da década, a demanda por elas era tão forte que foram anunciados projetos e investimentos ambiciosos em musas virtuais. O fundador da Elite Models, John Casablancas, chegou a anunciar, inclusive, que se dedicaria apenas às modelos da rede. É desse período um filme sofrível no qual Al Pacino contracenava com uma modelo virtual de nome Simone. As vantagens econômicas dessa opção são óbvias. As musas digitais são baratas, estáveis, não adoecem ou atrasam e, claro, dão menos trabalho do que as modelos reais. Batizada de Illusions2K, a empresa de Casablancas recebeu investimentos de US$ 7,5 milhões do banco Opportunity e do fundo de investimento Victori. Sua modelo Webbie Tookei estrelou uma campanha da Nokia de US$ 60 mil. A própria BrasilTelecom, do Opportunity, chegou a usá-la em algumas campanhas. A primeira modelo virtual, Ana Nova, criada em 1999 pela Digital Animations, foi a única modelo virtual a aproveitar a internet antes do estouro da bolha. Nos tempos do dinheiro farto da rede, foi vendida para a operadora britânica Orange Group por US$ 144 milhões. ?Hoje outros tipos de personagem fazem mais sucesso em animação realista?, diz Baptistão. ?Não há mais mercado para modelos virtuais?. Mesmo com toda repercussão de Kaya, a única encomenda que Baptistão recebeu para criar novas mulheres foi de uma empresa de sabonetes. Nasceu então Ilana cujo projeto, no final, foi cancelado pelo cliente. ?Era complicado uma empresa de cosméticos não mostrar seu produto num cliente real?, diz ele. Mesmo assim, o próprio Baptistão tem duas idéias na manga. Uma, trazer uma atriz falecida ao mundo virtual. Outro fazer uma mulher virtual estilizada, no estilo dos cartoons. Pelo jeito, no futuro ainda vai haver muitas brasileiras de bits e bytes circulando pela internet.
US$ 144 milhões foi o valor pago pela Orange pela cybermodel Ana Nova |