30/08/2025 - 7:02
Escritor gaúcho tinha 88 anos. Com inteligência e bom humor, Verissimo publicou cerca de 90 livros e vendeu mais de 5 milhões de exemplares. Conheça algumas obra do autor.Luis Fernando Verissimo nunca pensou em ser jornalista ou escritor. Quando criança, sonhava mesmo era ser aviador. Na adolescência, cogitou fazer arquitetura. Homem feito, queria estudar cinema. Foi pensando nisso que, em 1962, o filho de Érico e Mafalda, então com 26 anos, se mudou para o Rio de Janeiro. O plano era estudar cinema, ganhar dinheiro e embarcar para Londres.
Não atingiu nenhuma das três metas. Em compensação, conheceu Lúcia Helena, com quem se casou em 1969 e teve três filhos: Fernanda, Mariana e Pedro, hoje com 61, 58 e 55 anos. “O casamento é como um número de trapézio”, compara ele na crônica Trapezista, publicada no livro As Mentiras que os Homens Contam (2000). “Um precisa confiar no outro até de olhos fechados.”
De volta à Porto Alegre, onde nasceu no dia 26 de setembro de 1936, Luis Fernando e Lúcia Helena, recém-casados, fixaram residência no número 1.415 da Rua Felipe de Oliveira, o endereço de seu pai, o autor de Olhai os Lírios do Campo (1938), Um Certo Capitão Rodrigo (1949) e Incidente em Antares (1970), entre outros, no bairro de Petrópolis.
Até então, o caçula da família Verissimo havia tentado de tudo, mas não tinha dado certo em nada. Sem perspectiva alguma de trabalho, foi apresentado a Paulo Amorim, diretor de redação do Zero Hora que o convidou, em 1967, a trabalhar como copidesque. No jornal gaúcho, Verissimo fez de tudo: de horóscopo a editorial. “A primeira coisa que fazia ao acordar era ler a previsão que eu mesmo fizera para o meu dia”, diverte-se, em entrevista ao Jornal do Brasil.
Sucesso como cronista
Se a carreira de astrólogo foi um fiasco, a de cronista é um sucesso. Em 19 de abril de 1969, Verissimo publicou sua primeira coluna no Zero Hora. A crônica Entrando em Campo, era sobre o Sport Club Internacional, seu time do coração. A última, A Caixinha, foi publicada na edição do dia 14 de janeiro de 2021, do jornal O Globo. O tema era a invasão do Capitólio por correligionários do presidente Donald Trump em 6 de janeiro daquele ano.
“Até hoje, ninguém definiu direito o que é crônica”, observou, por ocasião do lançamento de As Mentiras que as Mulheres Contam (2015). “Você pode fazer o que quiser e chamar de crônica. É dessa liberdade que eu gosto”. Em 2020, a Objetiva reuniu mais de 300 delas no livro Verissimo Antológico: Meio Século de Crônicas, ou Coisa Parecida.
O escritor nunca teve rotina de trabalho. Em geral, dormia tarde e acordava mais tarde ainda. Só começava a trabalhar depois do cochilo vespertino. “Sempre escrevi muito. Hoje, escrevo menos. Não sei se estou mais conciso ou mais preguiçoso”, brincou, ainda em 2015.
“As três melhores coisas do mundo são pudim de laranja, gol do Internacional e netos”, afirmou o avô coruja de Lucinda, de 17 anos, e Davi, de 12, na crônica A Cordilheira, publicada no jornal O Globo, de 3 de dezembro de 2015. “Não necessariamente nessa ordem”, acrescentou, gaiato.
Verissimo parou de escrever em 2021, após sofrer acidente vascular cerebral (AVC). Nos últimos anos, enfrentou uma série de problemas de saúde, como a doença de Parkinson e um câncer ósseo na mandíbula. Segundo uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, no fim da vida, o escritor falava apenas algumas palavras em inglês – idioma presente na vida do escritor desde sua infância.
Verissimo viveu parte da sua infância e adolescência nos Estados Unidos, onde foi alfabetizado. Em 1943, sua família se mudou para os EUA, onde seu pai, Erico, lecionou por dois anos literatura brasileira na Universidade da Califórnia em Berkeley. Em 1953, a família se mudou novamente para Washington, onde viveu por três anos.
Verissimo morreu neste sábado (30/08), aos 88 anos. Ele estava internado desde 11 de agosto no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), com quadro de pneumonia.
Ao longo de sua carreira, o escritor gaúcho publicou cerca de 90 livros e vendeu mais de 5 milhões de exemplares.
Confira as principais obras do escritor gaúcho – em ordem cronológica:
As Cobras (1975)
Desenhar é uma paixão antiga. Tanto quanto ler quadrinhos. “Tenho um problema curioso, para um desenhista. Não sei desenhar. Isto não me impede de insistir com o desenho, apesar dos conselhos de amigos, das indiretas da família e de telefonemas ameaçadores”, observa em As Cobras & Outros Bichos (1977). Na capa de O Popular (1973), avisava o leitor que o “culpado” pelos desenhos era ele mesmo.
Durante a ditadura, Verissimo criou As Cobras para criticar o governo. Nunca sofreu censura, garante. Por via das dúvidas, evitava nomes proibidos, como o de Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul, e o de Dom Hélder Câmara, arcebispo do Recife e de Olinda. As Cobras ganharam duas coletâneas: Se Deus Existe que Eu Seja Atingido por Um Raio (1997) e Antologia Definitiva (2010).
Outra criação: Aventuras da Família Brasil (1985). Ganhou versão televisiva em 2009, exibida pela RBS TV. Além de crônicas, romances e cartuns, escreveu peças (Brasileiras e Brasileiros, de 1989), poemas (Poesia numa Hora Dessas?, 2002) e contos (Os Últimos Quartetos de Beethoven, 2013).
Ed Mort e Outras Histórias (1979)
Inspirado no detetive Philip Marlowe do escritor americano Raymond Chandler, Ed Mort fez tanto sucesso na literatura que migrou para outras mídias. Nas tirinhas, o traço é do cartunista Miguel Paiva. Entre 1985 e 1990, a parceria gerou cinco livros: Procurando o Silva (1985), Disneyworld Blues (1987), Com a Mão no Milhão (1988), Conexão Nazista (1989) e O Sequestro do Zagueiro Central (1990).
Na TV, a interpretação é de Luiz Fernando Guimarães no especial Ed Mort – Nunca Houve uma Mulher como Gilda (1993), da Globo, e de Fernando Caruso no seriado Ed Mort (2011), do Multishow. No espetáculo Procurando o Silva (1993), quem interpreta o detetive que fez curso por correspondência e divide um escritório em Copacabana com 117 baratas e um rato albino é o humorista Nizo Neto e, no filme Ed Mort – Quem é o Silva? (1997), o ator Paulo Betti.
Outros personagens hilários do escritor gaúcho são: O Analista de Bagé (1981), que acredita curar qualquer transtorno com um joelhaço, e A Velhinha de Taubaté (1983), que acredita em tudo que o presidente João Figueiredo diz.
O Analista de Bagé (1981)
O personagem foi criado para o programa Viva o Gordo, apresentado por Jô Soares e exibido na TV Globo entre 1981 e 1987. Era um garçom mal-educado que trabalhava em um restaurante francês. Quando o humorista parou de interpretá-lo, Verissimo o transformou em livro. Em uma semana, a L&PM vendeu os 3 mil exemplares da primeira tiragem. Também virou quadrinhos, ilustrados por Edgar Vasques; peça de teatro, encenada por Cláudio Cunha; e estátua, esculpida pelo artista plástico Sérgio Coirolo.
“Os psicanalistas acham que é uma gozação com o gauchismo. Já os gaúchos pensam que é uma gozação com a psicanálise. Então, fica todo mundo em paz”, declarou Verissimo ao jornal Zero Hora, em 2014.
Além do Viva o Gordo, Verissimo colaborou como redator no TV Pirata, programa criado por Cláudio Paiva e exibido pela TV Globo entre 1988 e 1992. Os roteiros foram doados, em regime de comodato, para a Biblioteca da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em 2017. São, ao todo, 464 obras e 1,4 mil exemplares disponíveis para consulta online.
Traçando New York (1991)
Em companhia dos pais, morou por duas vezes nos EUA: entre 1943 e 1945, na Califórnia, e, entre 1953 e 1956, em Washington. Da primeira vez, Érico assumiu o cargo de professor da Universidade da Califórnia em Berkeley e, da segunda, a função de diretor cultural da União Pan-Americana, órgão que precedeu a Organização dos Estados Americanos (OEA).
Já adulto, Verissimo publicou, em parceria com o artista plástico Joaquim da Fonseca, sete guias de viagem – seis internacionais e um nacional. Os internacionais são Traçando New York (1991), Traçando Paris (1992), Traçando Roma (1993), Traçando América (1994), Traçando Japão (1995) e Traçando Madrid (1997). O nacional é Traçando Porto Alegre (1993).
Entre outras cidades, morou em Nova York, em 1980; em Roma, em 1986; e em Paris, em 1990. “Gosto tanto de viajar que gosto até de espera em aeroporto”, declarou na crônica San, do livro Traçando Japão (1995). Traduzido para mais de 15 países, foi convertido para o inglês pela britânica Margaret Jull Costa, responsável pela tradução de gigantes como Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e José Saramago.
Comédias da Vida Privada (1994)
Impossível calcular quantas crônicas escreveu em 51 anos de profissão. Trabalhou em alguns dos maiores jornais, como O Globo e O Estado de S. Paulo, e revistas, como Veja e Playboy. Muitas crônicas foram publicadas em livros: originais ou antologias. O primeiro deles, O Popular, foi lançado em 1973. Um dos mais vendidos, Comédias da Vida Privada, em 1994.
De 1995 a 1997, a Globo produziu 21 episódios, divididos em três temporadas. A princípio, os roteiros eram baseados em crônicas de jornal. Com o tempo, o próprio Veríssimo passou a produzir textos originais. Além da série de TV, escrita por Jorge Furtado e dirigida por Guel Arraes, inspirou variações, como Comédias da Vida Pública (1995), Novas Comédias da Vida Privada (1996) e Todas as Comédias (1999).
Ao ser indagado sobre seu processo criativo, Verissimo, espirituoso, costumava responder: “A minha musa inspiradora é o meu prazo de entrega!”. “Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas”, define-se na crônica Gigolô, incluída no livro Mais Comédias para Ler na Escola (2008).
O Clube dos Anjos (1999)
Verissimo estava tão ocupado escrevendo crônicas, para garantir o “uísque das crianças”, que publicou apenas seis romances. “Se a crônica é um barco a vela, o romance é um transatlântico”, compara em entrevista ao médico Drauzio Varella, em 2015.
Com exceção de Os Espiões (2009), o último deles, todos os anteriores foram encomendados. A começar por O Jardim do Diabo (1987), uma sugestão dos sócios da MPM Propaganda, agência onde Verissimo trabalhou na década de 1980, para dar de presente aos clientes no Natal. Detalhe: entregou a encomenda em dois meses!
Escreveu O Clube dos Anjos (1998) para a coleção Plenos Pecados, Borges e os Orangotangos Eternos (2000) para Literatura ou Morte, O Opositor (2004) para Cinco Dedos de Prosa e A Décima Segunda Noite (2006) para Devorando Shakespeare.
“Desses, o mais bem-acabado é O Clube dos Anjos”, aponta. Coincidência ou não, virou longa-metragem em 2022, com roteiro e direção de Ângelo Defanti. Em 2023, a Alfaguara lançou o box Todos os Romances, em tiragem limitada. Os livros podem ser adquiridos separadamente.
Jazz (2013)
Se não fosse escritor, seria músico – mais exatamente saxofonista. Em sua segunda passagem pelos EUA, aprendeu a tocar um instrumento aos 17 anos. Sua primeira opção era o trompete. Afinal, queria ser Louis Armstrong quando crescesse. Mas, na falta de um para alugar, se contentou com o saxofone.
Em uma de suas idas a Nova York, assistiu a um show de seu saxofonista predileto: Charlie Parker, no clube de jazz Birdland. Não bastasse, o show contou com a participação especial do trompetista Dizzy Gillespie. “Eventualmente, toco saxofone”, disse na crônica Os Indecisos, de Comédias da Vida Pública (1995). “Há discussões sobre se ‘tocar’ é o verbo exato.”.
De volta ao Brasil, fez parte de dois conjuntos: o Renato e Seu Sexteto, amador, e o Jazz 6, profissional. Com o segundo, chegou a lançar cinco álbuns: Agora é Hora (1998), Speak Low (2001), A Bossa do Jazz (2003), Four (2007) e Nas Nuvens (2011). Com o grupo, ajudou a compor e tocou sax na faixa Olho Mágico, do álbum Com Todas as Letras (2015), da dupla gaúcha Kleiton & Kledir. Sem escrever crônicas desde 2021, um de seus hobbies era ouvir jazz.
Verissimas – Frases, Reflexões e Sacadas sobre Quase Tudo (2016)
Verissimo é engraçado até quando não pretende ser. Numa entrevista, ao falar de sua notória timidez, explicou: “Não sou eu que falo pouco. São os outros que falam muito”. Noutra ocasião, sobre a tragédia de falar em público, declarou: “Não sei quem sofre mais: se sou eu ou se é o público”.
Em 2016, a Objetiva selecionou oitocentas frases, de livros, crônicas e entrevistas, e as reuniu numa antologia: Verissimas, organizada por Marcelo Dunlop.
Em ordem alfabética, fala sobre o amanhã (“Temos que confiar no amanhã. A não ser que descubram alguma coisa contra ele durante a noite”), Carpe diem (“Viva cada dia como se fosse o último. Um dia, você acerta”), morte (“Minha relação é esquecer que ela existe. E espero que ela faça o mesmo comigo”), poltrona (“Você sabe que está ficando velho quando só consegue sair da poltrona na terceira tentativa. Aí, esquece porque levantou”), timidez (“Para o tímido, duas pessoas são uma multidão”) e vida eterna (“Não deixa de ser um conceito atraente. Dependendo, é claro, de quem serão nossos vizinhos”).